Ser Sábio e Amar

1214 Words
Demorou exatamente o tempo que achei que demoraria para que tia Peg detectasse sua presença. Enviando calafrios por todas as partes de meu corpo, 37 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. que chegavam a se infiltrar até pelas solas dos pés, Eron me alcançou, e me pegando de surpresa, se curvou em uma vênia entre graciosa e sexy, e tomou minha mão, beijando suas costas. Seus lábios quentes enviando fisgadas dolorosas ao logo de meu braço. — Boa noite, Emunah. Abobalhada, não consegui pensar em nada para dizer, ao mesmo tempo em que minha tia o encarava de maneira tangente e ao mesmo tempo neutra. Eu já flagrara em outras vezes tia Peg o olhando daquela forma austera que se encara uma pessoa quando ela se parece com Eron. Com incredulidade. Perplexidade. Uma espécie de adoração muda. E este era um desses momentos. Até minha tia não era a prova dos encantos que o garoto cataclista vertia espontaneamente nos lugares nos quais estava, assumindo u m pose angelical enquanto sorria de maneira dócil. — Saudações, Sra.Hatthwey. — ele baixou o queixo, fechando o punho direito em cima de seu coração — Eu gostaria de ter o prazer da companhia de sua sobrinha esta noite. Boquiaberta, não consegui reter a careta de espasmo quando tia Peg sibilou por algum tempo, como se tentasse se recordar de algo. Ela piscou, desviando o olhar e chacoalhando a cabeça. Mas não sem não me enviar um olhar levemente recriminador ao mesmo tempo. — Cuide bem dela, Sr. Stellar. Ou o inferno vai ser o paraíso comparado ao que vou fazer com você. — ela disse antes de se virar e seguir seu caminho, puxando uma Arbo perplexa com ela. Eron sorriu ao meu lado quando ambas se afastaram, me oferecendo um braço e um olhar que claramente dizia “viu só”? Aceitei seu braço, o prendendo ao meu enquanto lhe concedia um sorriso que era preparado apenas para ele. — Quando você quer, você bem se parece com um anjo, Sr. Stellar. Ele sorriu maliciosamente enquanto me aproximava mais de si, seus olhos percorrendo um caminho insinuante até o decote de meu vestido. — Mas quando quero, bem me assemelho a um demônio, Srta. Hatthwey. Um demônio irracional que adora despedaçar vestidos bonitos. 38 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. Layan mudou de posição pelo que lhe parecia ser a milésima vez no dia. Ou na noite, não havia como saber. O fato, é que já havia se acostumado à dor penetrante que se esvaia de cada célula sua, enervante, completando um ciclo de eterno tormento quando somada á todos os pensamentos que se sobrepujavam em sua mente durante seu grande tempo livre. Eles acoitavam sua mente quando Jade resolvia lhe dar um dia de folga. Como aquele. 39 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. Estranhava esses dias, se perguntando o que a Falange demente poderia estar fazendo. De alguma forma, era como se ele se sentisse mais seguro quando Jade lhe fazia suas visitas constantes, se empenhando em fazê-lo descobrir novos limites de dor ao aplicar-lhe uma seção diária de t*****a criativa. Pelo menos, nesses momentos, a atenção e criatividade de Jade se concentravam nele, e não em Eve, Havana ou Eron. Era quando Jade estava mais empenhado em fazê-lo ceder e trabalhar para ele. Algo que Layan sempre recusava. E as consequências se somavam de forma dolorosa ao longo de seu corpo, já maltratado pelo tempo. Seu dom de regeneração tornava tudo apenas algumas vezes pior, o forçando a viver cada dia como se tivesse morrido e tornado no último. Era angustiante. Pela primeira vez Layan se pegava pensando que ter um corpo inumano com um sistema imunitário tão elevado era decididamente uma d***a. Ele te impedia de sucumbir, mas não te privava de sentir. Ele meio que te tornava mais forte para a dor, o que era especialmente ao considerar as circunstâncias. Tinha plena consciência de que poderia acabar com tudo ao botar um fim definitivo á sua vida a qualquer momento. Seria tão mais simples se entregar ao negrume que estava se tornando cada vez mais familiar para si. Imaginava que o que quer que fosse que o esperasse do outro lado, devia ser decididamente melhor do que o inferno no qual estivera confinado nos últimos tempos. Mas jamais se permitiria morrer enquanto não tirasse Havana dali. Algo que parecia cada vez mais impossível a cada segundo que se passava. Estava fraco, terrivelmente magro, e seus pensamentos lhe traíam com alucinações variadas e conflagradas de momentos que ele não sabia se estavam realmente acontecendo ou não. Não sabia se ainda era capaz de pensar com coesão, pois as certezas o abandonavam de forma gradativa, o deixando terrivelmente distante da razão. Caminhar em direção a lucidez lhe parecia o mesmo que tentar alcançar as estrelas. Era como se precisasse tirar esse peso das costas. Layan odiava falhar. Havia falhado com sua família, havia falhado com Eron, e não podia suportar falhar com Eve também. Era angustiante a forma com a qual sentia-se ligado com a ela, como se precisasse desesperadamente tirá-la do fogo. 40 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. Esticou uma perna sobre o chão sujo. A extensão das calças rasgadas pelas navalhas afiadas que Jade fizera serpentear por sua pele, quebrando os ossos em milhares de pedaços microscópicos na mesma ocasião. Layan se lembrava de ter gritado nessa vez, tentando se defender ao socar o rosto de Jade em um momento de distração do mesmo. Como recompensa, tivera seus dedos quebrados a baixo de um cilindro de ferro. Havia sido um de seus dias mais lúcidos. Jade não o permitia ficar fraco a ponto de morrer por falta de nutrientes no organismo. Ele preferia que ele estivesse o suficientemente forte para sentir com mais intensidade o prazer da dor corroendo cada parte mínima de seu corpo. A dor. Estava se tornando sua única válvula de escape quanto às alucinações. Eram os momentos mais intensos, nos quais ele realmente voltava a si. Ás vezes almejava pela visita de Jade. Ser torturado era melhor que ser vítima de seus pensamentos a cada torturante segundo de prisão. — Está com fome? — a voz lhe surpreendeu vinda de algum lugar perto dele. O aguçamento de seus sentidos parecia ter sumido. Layan ás vezes se pegava pensando que naquelas condições, jamais teria chance de vencer uma briga nem mesmo contra um terreno bêbado ou doente. Seus olhos encontraram o que parecia ser uma silhueta familiar lhe encarando por trás das grades. Mas não era Jade. Layan não demorou muito tempo para reconhecer os olhos escuros como carvão lhe fitando por entre as barras enferrujadas. — Zoe... — ele arfou, piscando para ter certeza que a garota não se passava de uma miragem, uma peça pregada por seu subconsciente. — Eu trouxe uma maçã... — ela disse de repente, mostrando algo vermelho entre os dedos que lhe parecia ter os mesmos relevos da fru ta. A questão, é que seus olhos estavam inchados, e ele nunca podia confiar no que achava ver — Eu lembro que você costumava gostar delas... As palavras lhe atingiram com intensidade. Layan não costumava ouvir muitas palavras passivas nos últimos dias. — Porque está aqui, Zoe? 41
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