Primavera de 1896
Charlotte não se deixara levar pelas adversidade, dois anos depois da partida de Tom, a amada tia Mary havia falecido em decorrência a doença que a atingia a anos, vendo na tristeza uma oportunidade única Charlotte e seu tio Cleves mudaram-se para a Inglaterra e após 14 tentativas frustadas em se formar em medicina, finalmente conseguira em sua décima quinta tentativa. Ela chegou saltitante em casa e contou animada ao tio que era a nova Dra. Bennet e que deviam ir ao centro de Londres para tratar o alzheimer dele que intensificava-se cada vez mais. Mesmo em situação debilitada ele celebrou com a sobrinha, lhe comprou flores e chocolate enquanto dizia repetidas vezes que ela era o orgulho da família e que Mary estava orgulhosa dela. Charlotte nunca se perdoara por não ter sido capaz de salvar a tia, aos dezesseis anos havia empenhado a vida em estudar tudo o que podia da medicina simplesmente para encontrar uma forma de salva-la, mas havia falhado e não cometeria o mesmo erro com seu tio Cleves. Ela daria a ele a maior qualidade de vida possível e recusava-se a vê-lo sofrer como sofrera a tia nos últimos dias de vida.
Empenhada em salva-lo Charlotte o convenceu a se mudar para a parte movimentada de Londres, a cidade era grande e a mais moderna que existia atualmente. Lá poderia encontrar uma boa casa e aperfeiçoar ainda mais tudo o que aprendera nos anos que estudara no interior. A primeira coisa que fez foi encontrar um emprego em uma das áreas mais criticas e perigosas da cidade, uma área que ninguém gostaria de frequentar, mas uma área que tinha diversas pessoas necessitadas, contratou uma cuidadora para o tio e empenhou-se cada dia mais em seus objetivos. Charlotte não tinha tempo para flertes e namorados, não lembrava-se a última vez que saira para se divertir, mas tudo isso tornara-se sem nenhuma importância para ela, não desejava mesmo se casar.
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Em uma noite fria de 1987 ela caminhava tranquilamente pelas ruas escuras de East End, já havia visto um pouco de tudo naquele lugar, mas nunca fora o alvo de nenhum ataque. Charlotte sentia-se diariamente observada, isso não podia negar, mas tentava dizer a si mesma que isso não passava de uma cisma boba.
- Aonde vai docinho? Podemos nos divertir um pouco. - Disse um homem atrás dela e Charlotte ouviu a risada de mais alguns. Ela evitou se virar tentando se convencer de que não era com ela que estava falando, mas o homem começou a andar em passos mais largos e ela o sentiu bem próximo de seu corpo. Charlotte que não era uma garota nenhum pouco indefesa tirou rapidamente o bisturi de sua maleta e apontou para o homem.
Outros dois estavam logo atrás e os três a olhavam com olhares zombadores enquanto riam.
- O que pretende fazer com isso princesa? Abaixe ou irá se machucar. - Um homem grande e sujo se aproximou dela, mas aproveitando-se de sua estatura pequena ela se desviou.
- Estou aqui para cuidar de pessoas como vocês. - Ela rosnou. - Não ousem me tocar.
Eles explodiram em uma risada fria mais uma vez e os outros dois também aproximaram-se dela enquanto a olhavam com olhares que a fizeram sentir-se nua.
- Só queremos brincar um pouco, não precisa se preocupar.
Charlotte ergueu mais uma vez a mão que segurava o bisturi. Já havia cortado muitas pessoas com a peça e não hesitaria em cortar aqueles três malditos homens que a olhavam como se fosse um pedaço de carne.
- Na próxima esquina encontrarão alguma mulher disposta a deitar-se com vocês, basta que a paguem algumas moedas. - Falou em paciência esquivando-se do toque de um deles. - Como podem ver, eu não tenho interesse.
- Nem sempre s**o com consentimento é o mais interessante. - Um deles disse lamendo os lábios e no mesmo instante o outro avançou na direção de Charlotte, em um gesto rápido ela levantou o bisturi e cortou o rosto de um deles. O homem começou a urrar enquanto o sangue escorria pelo rosto dele.
- Sua v*******a, irá se arrepender de ter feito isso.
Usando as táticas que um dia aprendera com seu velho amigo Charlotte abaixou-se e deslizou por baixo das pernas dele. Ela deu um chute no meio das pernas do outro e sem perceber que havia um terceiro atrás dela se viu presa nos braços largos e sujos do homem que ela cortara o rosto.
- Não tente bancar a h*****a ou eu vou cortar a sua garganta. - Falou segurando-a contra seu corpo firme e apoiou o bisturi na garganta dela. - Vou brincar com você até que os meus amigos acordem e quando acordarem, será a vez deles de brincar.
Ele a jogou contra a parede áspera e pressionou o corpo esguio de Charlotte contra o cimento.
- Tire as suas mãos sujas de mim.
Ela sentiu uma raiva crescer dentro de si e mais raiva ainda por se ver imponente diante do desgraçado que a segurava com tanta força.
- Não ouviu a dama? .- Charlotte ouviu uma voz perigosamente baixa e cheia de raiva.
O homem que a segurava não se deu o trabalho de virar-se.
- Aguente ai amigo, pode ser você depois. - Falou desabotoando o fecho da calça, mas não teve tempo de continuar o que começara. O homem misterioso o pegou pelo pescoço, o virou de frente e começou a dar socos incansávelmente em seu rosto.
Charlotte ajeitou a roupa que haviam ficado toda torta diante da briga e abaixou-se para pegar seu bisturi e guarda-lo de volta na maleta. Satisfeita ela observou a cena, o homem que outora tentava toca-la sem sua permissão estava sendo esmurrando por um homem másculo e aparentemente muito raivoso, quando percebeu que ele não tinha a menor intenção de parar com os golpes ela se aproximou apreensiva e tocou o ombro dele.
- Pare. - Murmurou. - Irá mata-lo, ou deixa-lo perto da morte e infelizmente eu terei que cuidar.
Charlotte retrocedeu quando o homem a encarou, foi como se tivesse levado uma pancada.
Aqueles olhos negros ...
Reconheceria em qualquer lugar ...