O Primeiro Dia (e a Primeira Parada)
Maya Duarte
Morar com a minha mãe e o meu padrasto já estava me deixando no limite da paciência. Por isso, quando distribuí currículos para vagas de auxiliar de escritório, só tinha uma exigência em mente: um trabalho que me desse independência, mas que não me fizesse passar a vida inteira longe de casa. O único problema? O transporte público da cidade é um empurra-empurra infernal.
O alarme tocou e a preguiça tentou me vencer, mas levantei. Escovei os dentes, coloquei um fone de ouvido para carregar e ainda coloquei mais dois carregadores portáteis na bolsa. A viagem até a empresa levaria quase uma hora — isso se não houvesse engarrafamento, protesto ou algum ônibus quebrado no caminho.
Para quem não me conhece: tenho 25 anos, 1,70m de altura, corpo encorpado e a pele morena jambo — da cor do pecado, como gostam de dizer. Meus cabelos cacheados vão até a cintura e eu sou completamente apaixonada por saltos altos, vestidos de tecido leve e confortável que se moldam ao corpo, e perfumes doces com hidratantes bem marcantes. Além do visual, trago no corpo várias tatuagens e no caráter uma regra simples: não levo desaforo para casa. Comigo não tem meio-termo, é sim ou não. E, bom... eu amo uma aventura. Daquelas que deixam a perna bamba.
Caminhei até o ponto de ônibus vestindo um terninho preto ajustado, perfeita para o meu primeiro dia. O transporte chegou parecendo uma lata de sardinha. Minha única oração mental era: por favor, que nenhum desavisado fedorento encoste em mim. Eu estava impecável, cheirosa, e não podia chegar no meu novo emprego parecendo que tinha saído de um combate.
Dei o sinal, o ônibus parou e eu entrei. Consegui me espremer perto da catraca e fiquei mexendo no celular. Pouco depois, um lugar vagou. Sentei e suspirei aliviada.
O balanço do veículo e o cansaço acumulado me fizeram cochilar pesado por alguns minutos, até que uma freada brusca me despertou. Um monte de gente desceu, mas o triplo subiu logo em seguida.
E foi aí que ele entrou.
Um homem alto, forte como um armário, que fez o meu ar sumir por um segundo. A minha sorte foi estar de óculos escuros, porque não consegui disfarçar o olhar. Fiquei torcendo mentalmente: vai para o fundo, vai para o fundo... Mas ele resolveu parar justamente na minha direção. O ônibus foi enchendo cada vez mais, e ele acabou sendo empurrado para perto do meu assento. A simples proximidade dele já estava me deixando desconfortável — de um jeito terrivelmente bom. Peguei o celular e comecei a digitar uma mensagem para a minha amiga, contando sobre o aperto e o "monumento" que tinha acabado de subir.
De repente, mais uma freada seca. Uma mulher entrou com dois filhos no colo e ninguém se mexeu para dar lugar. Não pensei duas vezes: levantei e cedi o meu assento. A mulher me agradeceu imensamente e sentou.
Com isso, acabei ficando de pé, presa exatamente à frente daquele homem incrível. Eu continuei fingindo atenção no celular, mas meu corpo inteiro parecia em alerta. Algo lá no fundo me dizia que a aventura que eu tanto procurava tinha acabado de subir naquele ônibus... e eu não ia fugir dela.
Fiquei presa naquele espaço hiper-megagigante de tão apertado. Não dava nem para me mexer direito, e aquele "armário" continuava ali, imóvel ao meu lado.
Com o calor aumentando e a paciência diminuindo, soltei um pouco mais alto para quem quisesse ouvir:
— Sera que esse transporte não chega a 120 km/h? Porque isso aqui está uma superlotação, um calor infernal e eu tenho um emprego para conquistar! Não posso chegar atrasada!
O motorista olhou pelo retrovisor com uma cara de poucos amigos e resmungou:
— Quer velocidade, minha filha? Então vai ter velocidade...
Ele deu um solavanco que fez o ônibus inteiro chacoalhar, jogando as pessoas umas por cima das outras. Mas aquele homem atrás de mim parecia imune à gravidade — não se moveu um centímetro. Eu continuava narrando tudo para a minha amiga pelo aplicativo de mensagens, e do outro lado ela só sabia rir, dizendo que eu parecia estar estrelando um filme de comédia dramática.
De repente, outra freada seca. Desta vez não consegui segurar e o meu telefone foi direto para o chão. Quando me abaixei para pegar, senti o tecido da minha roupa ajustar e a marquinha do biquíni ficar em evidência. Pelo reflexo, percebi exatamente onde os olhos dele se cravaram.
Levantei rápido, segurando com força no ferro do teto para não cair de novo.
Ele devia ter quase 1,90m de altura. Segurou no mesmo ferro, na mesma direção que a minha. A respiração dele batia direto no meu pescoço, e a barba bem feita roçava levemente nos fios do meu cabelo cacheado. Por um segundo, fechei os olhos e puxei o ar: o perfume dele era amadeirado, marcante, exalando masculinidade pura — nada da geração Nutella.
A superlotação nos espremeu ainda mais. O ônibus parou em um engarrafamento debaixo de um calor infernal. Pela posição do aperto, meu corpo acabou ficando pressionado na direção dele. Minhas costas começaram a fisgar pelo esforço, mas a dor foi completamente ignorada quando senti a proximidade.
O quadril dele se encostou no meu. Lento. Provocante.
Olhei pelo reflexo do vidro da janela. Ele encarava a minha imagem no vidro com um olhar pesado, intenso, como se estivesse me despir ali mesmo, na frente de todo mundo.
Mordi o lábio inferior, intencionalmente. Minhas mãos estavam suadas, o coração acelerado na garganta. Eu queria ver até onde aquilo ia dar... e, pelo sorriso de canto de boca que surgiu nos lábios dele pelo reflexo, ele sabia exatamente disso.
E o pior — ou melhor — é que ele queria a mesma coisa.
O Pulso do Desejo
Eu sabia que ele estava me observando pelo reflexo do vidro. Mordi meu lábio inferior devagar, intencionalmente, e depois encarei o olhar dele direto no espelho. Não aguentei o mistério. Peguei meu celular e, com as mãos levemente trêmulas, digitei duas perguntas simples, mas provocantes:
"Qual o seu nome?" e, logo em seguida, “Será que você vai aguentar até lá...?”
Mostrei a tela do celular para ele pelo reflexo. Ele leu. Vi o sorriso de canto de boca aumentar, e seus olhos ganharam um brilho mais intenso. Ele ia responder, mas, naquele momento, outro salavanco violento sacudiu o ônibus. O motorista parecia estar em um rali.
A freada brusca jogou todos os passageiros para a frente. Para evitar que eu fosse esmagada ou me machucasse, aquele "armário" se moveu com agilidade impressionante. Ele segurou com força o ferro do teto com uma mão e, com a outra, agarrou firmemente a minha cintura.
Que pegada!
Senti a firmeza dos dedos dele se moldando ao meu corpo, e por um instante, vi estrelas. Meu corpo inteiro entrou em alerta máximo. O quadril, numa reação involuntária, empinou-se ainda mais na direção dele. A respiração intensa dele batia no meu pescoço, misturada com o cheiro inebriante de seu perfume. Eu senti um pulsar na minha retaguarda, um pulsar delirante que me deixava em transe, totalmente consciente de cada centímetro da proximidade dele.
Estávamos tão próximos que a tensão s****l no ar era quase palpável. Eu queria me virar e me entregar àquele desconhecido ali mesmo, no meio do ônibus lotado.
Mas o ônibus continuou sua jornada. Eu sabia que estava chegando perto do meu ponto. O destino final da minha viagem era dali a poucos minutos. No entanto, para minha surpresa — e uma pontada de decepção —, ele se moveu para descer um ponto antes do meu.
Ao passar por mim, ele se inclinou levemente, e sua voz, um sussurro baixo e rouco, soprou no meu ouvido:
— "Meu nome é Gabriel. E pode ter certeza: eu aguento."
Ele desceu. A porta do ônibus se fechou, levando com ele o calor daquele encontro. Eu fiquei ali, respirando fundo, tentando normalizar o ritmo do meu coração. A viagem acabou, mas a certeza dele me dizendo seu nome e que "aguentava" ecoava na minha mente.
Cheguei ao trabalho, mas a minha cabeça estava a quilômetros dali. Passei o dia inteiro pensando em Gabriel, no calor do corpo dele, na força da sua mão na minha cintura e no pulsar que me tomou conta. Eu sabia que aquilo não tinha acabado. Estávamos destinados a nos encontrar novamente.