Capitulo 13 O Dia Seguinte Não É Silencioso

1465 Words
Isabela O problema de atravessar um limite é que o dia seguinte sempre cobra explicações. Acordei antes do sol, com o corpo ainda quente da noite anterior e o coração pesado demais para alguém que tinha dormido nos braços de um homem que me escolheu. Ricardo ainda estava ali, respirando fundo, o braço pesado sobre minha cintura, como se aquele fosse um lugar definitivo. E era exatamente isso que me assustava. Fiquei alguns minutos observando o teto, tentando organizar pensamentos que se atropelavam. O beijo, o toque contido, a forma como ele me olhou — tudo ainda estava muito vivo em mim. Não tinha sido apenas desejo. Tinha sido entrega. E entrega sempre me custou caro. Afastei-me devagar, com medo de acordá-lo. O chão frio sob meus pés foi um choque necessário. No banheiro, fechei a porta e encostei a testa no espelho. — Agora você vai estragar tudo — murmurei para mim mesma. Era quase uma profecia. Na cozinha, preparei o café em silêncio. As mãos tremiam levemente enquanto eu organizava as coisas de Lucas. Era mais fácil focar nele. Crianças são âncoras. Adultos são tempestades. Lucas apareceu pouco depois, sonolento, mas sorridente. — Você dormiu lá em cima — disse, observador demais para a idade. — Dormi — respondi, tentando soar normal. — Você estava feliz — completou. Engoli em seco. — Às vezes eu fico. Ele aceitou a resposta como se fosse suficiente. Sempre aceitava. Era eu quem complicava tudo. Ricardo desceu minutos depois. O olhar dele encontrou o meu de imediato. Não havia constrangimento. Havia cuidado. E isso me desmontou mais do que qualquer distância teria feito. — Bom dia — disse ele, com a voz baixa. — Bom dia. Nada mais foi dito. Mas tudo estava ali. Durante o dia, tentei agir como se nada tivesse mudado. Mas mudou. Mudou em mim. No jeito como eu percebia o espaço. No peso que cada escolha parecia carregar agora que eu tinha algo a perder. Recebi outra mensagem. Dessa vez, de um número desconhecido. “Você acha mesmo que isso termina bem?” Meu estômago revirou. Não precisei perguntar quem era. Apaguei a mensagem, mas ela ficou ecoando. Termina. Como se já estivesse escrito. Como se eu fosse apenas um capítulo temporário na vida de alguém que sempre teve o livro inteiro. Quando Ricardo chegou em casa, percebeu imediatamente que eu estava diferente. — O que aconteceu? — perguntou, assim que Lucas saiu da sala. Respirei fundo. — Ela falou comigo — disse. Ele fechou a mandíbula. — Clara? Assenti. — Não diretamente — completei. — Mas foi o suficiente. Ele se aproximou. — Você não precisa lidar com isso sozinha. — Eu sei — respondi. — Mas preciso aprender a não me sentir pequena por estar aqui. Ele segurou minhas mãos. — Você não ocupa espaço emprestado — disse. — Você constrói. As palavras eram certas. O problema era o lugar onde elas precisavam chegar. À noite, depois que Lucas dormiu, o silêncio voltou — mas não era o mesmo silêncio de antes. Era carregado. Expectante. — Você se arrepende? — perguntei, sem olhar para ele. Ele não respondeu de imediato. Quando respondeu, foi firme. — Não — disse. — E você? Demorei. — Não do que senti — respondi. — Tenho medo do que vem depois. Ele se aproximou, com a mesma calma da noite anterior. — O depois não precisa ser agora. Encostei a cabeça no peito dele, ouvindo o coração bater. Forte. Presente. — Eu não sou boa em confiar — confessei. — Sempre espero o momento em que tudo desmorona. Ele passou a mão pelo meu cabelo, devagar. — Então fica enquanto não desmorona — disse. — Se um dia cair, a gente levanta. Mas não foge antes. Fechei os olhos. Naquele abraço, entendi algo que me doeu e me libertou ao mesmo tempo: não era o amor que me assustava. Era a possibilidade de ser feliz sem pedir desculpa por isso. E talvez o próximo capítulo da minha vida fosse exatamente esse — aprender a ficar mesmo quando tudo em mim gritava para correr. Mas eu ainda não sabia quanto o mundo estava disposto a nos testar. E, no fundo, eu sentia: Clara não tinha terminado. Eu não a procurei. Mas também não fugi quando ela apareceu. Foi no fim da tarde, quando eu saía do mercado com duas sacolas pesadas demais para os meus braços e para o meu dia. O estacionamento estava quase vazio, o céu cinza, como se até o tempo estivesse em suspensão. — Isabela. Aquela voz. Meu corpo inteiro reagiu antes da minha mente. O estômago afundou, o coração acelerou, os ombros ficaram tensos. Virei devagar. Clara estava apoiada em um carro elegante demais para aquele lugar. Impecável. O cabelo no lugar, a postura confiante de quem nunca precisou pedir licença para existir em lugar nenhum. — Você me seguiu? — perguntei, tentando manter a voz firme. Ela sorriu de lado. — Não — respondeu. — Mas imaginei que cedo ou tarde a gente precisaria conversar sem intermediários. Respirei fundo. Pensei em Ricardo. Pensei em Lucas. Pensei em tudo o que eu sempre fiz: baixar a cabeça, sair de cena, desaparecer antes de ser empurrada. Dessa vez, não. — Então fala — disse. — Eu estou ouvindo. Ela se aproximou um passo. — Você sabe que isso não vai durar — começou, direta. — Pessoas como você sempre confundem gentileza com escolha definitiva. Senti o golpe. Não porque fosse novo — mas porque era exatamente o medo que eu carregava. — Pessoas como eu? — repeti. — Sim — disse, sem hesitar. — Passageiras. Temporárias. Você acha mesmo que cabe no mundo dele? Aquela pergunta doeu. Doeu porque eu mesma já tinha me feito exatamente a mesma coisa. — O mundo dele não é seu — respondi, com mais firmeza do que eu esperava. — E não é um clube exclusivo. Ela riu, curto. — Você é ingênua se acha que não existe hierarquia — disse. — Eu conheço o Ricardo há anos. Sei como ele funciona. Ele se envolve, se distrai… e depois volta para o lugar dele. Minhas mãos tremiam. Não de medo. De raiva contida. — E você? — perguntei. — Onde você entra nisso? O sorriso dela vacilou por meio segundo. Foi pouco, mas eu vi. — Eu faço parte do mundo dele — respondeu. — Você não. Aproximei-me um passo também. Pela primeira vez, ficamos na mesma altura. Olho no olho. — Você faz parte do passado — disse. — Eu estou no presente. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Você acha que ele vai te proteger quando as coisas ficarem feias? — ela insistiu. — Quando começarem os comentários, os olhares, os questionamentos? — Ele já está protegendo — respondi. — E sabe o que é mais difícil de aceitar? Não é isso que mais me assusta. Ela arqueou a sobrancelha. — O que te assusta, então? Respirei fundo. — Sou eu — admiti. — O meu medo. A minha vontade de fugir. Mas isso é meu para resolver. Não seu para usar. Ela me encarou por alguns segundos longos demais. Depois, o tom mudou. Ficou mais frio. — Você vai se machucar. — Talvez — respondi. — Mas não porque você quis. Porque eu escolhi ficar. Foi ali que algo mudou. Clara se afastou um pouco, avaliando. Como quem percebe que perdeu o controle da narrativa. — Você não tem ideia do que está enfrentando — disse, por fim. — Tenho sim — respondi. — Estou enfrentando tudo o que sempre me disseram que eu não podia enfrentar. Peguei as sacolas do chão. As mãos ainda tremiam, mas minhas pernas estavam firmes. — Essa conversa acabou — disse. Passei por ela sem olhar para trás. Só quando entrei no carro percebi que estava chorando. Não de fraqueza. De descarga. De alguém que finalmente falou o que precisava. Quando cheguei em casa, Ricardo percebeu na hora. — Aconteceu — disse ele, mais afirmando do que perguntando. Assenti. — Eu enfrentei — respondi. — E não fugi. Ele se aproximou devagar, como se estivesse diante de algo precioso. — Eu tenho orgulho de você — disse. Aquelas palavras atravessaram todas as minhas defesas. — Eu ainda tenho medo — confessei. — Mas não quero mais viver como se fosse invisível. Ele me abraçou. Forte. Inteiro. — Você não é invisível — disse. — Nunca foi. Naquela noite, enquanto Lucas dormia no quarto ao lado e o mundo lá fora continuava julgando, eu entendi algo definitivo: O confronto com Clara não foi sobre ela. Foi sobre mim. Sobre parar de pedir permissão para existir onde eu já estava. E, pela primeira vez, eu senti: não importa o que venha depois — eu não vou desaparecer.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD