POV Isabela
Eu não dormi naquela noite.
Não por causa do quase. Mas por causa do que ele significava.
A imagem de Ricardo parado diante de mim, tão perto que eu podia sentir a respiração dele, voltava como uma onda insistente. Ele não tinha avançado. Também não tinha recuado de verdade.
Ficou ali, suspenso entre o medo e a vontade, como se qualquer escolha pudesse quebrá-lo.
Talvez pudesse.
Na manhã seguinte, cheguei mais cedo do que o habitual. Precisava de movimento para calar os pensamentos. A casa estava silenciosa, mas não vazia. Esse detalhe — pequeno, quase invisível — me atingiu com força.
Ricardo estava na cozinha.
Sem terno.
Sem máscara.
Camisa simples, cabelo desalinhado, olhos cansados.
Ele me olhou como se também não tivesse dormido.
— Bom dia — disse, a voz baixa.
— Bom dia.
O silêncio não foi desconfortável. Foi cuidadoso. Como se ambos estivéssemos aprendendo a andar em um chão novo.
— O Lucas ainda está dormindo — informou. — A febre não voltou.
— Ótimo — respondi, aliviada.
Preparei o café em silêncio. Quando estendi a xícara para ele, nossos dedos se tocaram. Não foi um choque.
Foi um reconhecimento silencioso de algo que já existia. Nenhum de nós comentou. Lucas apareceu minutos depois, ainda sonolento, e correu direto para mim.
Abraçou minha cintura sem pensar duas vezes. Ricardo observou a cena com algo no olhar que eu ainda estava aprendendo a decifrar.
— Hoje eu posso desenhar com você? — perguntou Lucas.
— Pode — respondi. — Mas sem exagerar, combinado?
— Combinado.
Ricardo pigarreou.
— Eu vou trabalhar de casa hoje.
Olhei para ele, surpresa.
— Tem certeza?
— Tenho — respondeu. — Quero ficar por perto.
“Por perto” era uma frase perigosa naquela casa.
A visita de Clara aconteceu à tarde.
Sem aviso.
Sem cuidado.
A campainha soou como um alerta. O corpo de Ricardo reagiu antes da mente. Eu percebi a tensão imediata, o fechar dos ombros, o controle voltando a assumir o comando.
— Eu atendo — disse ele.
— Não — respondi, firme. — Eu atendo.
Ele me encarou por um segundo longo demais, depois assentiu.
Quando abri a porta, Clara estava lá. Elegante, postura impecável, sorriso treinado. Olhou-me de cima a baixo com curiosidade m*l disfarçada.
— Você deve ser a babá — disse.
— Sou Isabela — respondi. — Em que posso ajudar?
Ela suspirou.
— Preciso falar com o Ricardo.
— Ele está ocupado.
— Sempre está — respondeu, impaciente. — Isso é importante.
— Importante para quem? — perguntei.
Ela estreitou os olhos.
— Você não entende.
— Talvez — disse. — Mas entendo limites.
Ricardo apareceu atrás de mim.
— Clara, vá embora.
— Você não pode me afastar assim — insistiu ela. — O Lucas merece saber do passado.
Ricardo respirou fundo.
— O passado não cria filhos.
Presença cria.
A frase ficou no ar. Clara me lançou um último olhar, algo entre desprezo e aviso.
— Isso ainda vai te custar caro — disse, antes de sair.
A porta se fechou. O silêncio que ficou foi pesado.
— Você está bem? — perguntei, virando-me para Ricardo.
— Ela sempre volta quando percebe que estou… mudando — disse ele.
— Como se o controle dela fosse testar o meu.
— Mudanças assustam quem prefere o que já conhece — respondi.
Ele me encarou.
— Você tem medo?
Pensei por um instante.
— Tenho — respondi. — Mas não de você.
O evento que mudou tudo aconteceu naquela noite.
Lucas começou a tossir forte. Não era febre. Era respiração curta, cansada. Meu corpo reagiu antes da razão.
— Ricardo — chamei. — Precisamos levá-lo ao hospital.
Ele não questionou. Pegou as chaves, o casaco, o filho no colo. Eu fui ao lado, segurando a mão de Lucas no banco de trás, falando baixo para mantê-lo calmo.
No hospital, as luzes brancas trouxeram lembranças que Ricardo tentava esquecer. Eu vi no jeito como ele andava, como evitava olhar ao redor.
— Vai ficar tudo bem — disse eu, sem saber se acreditava totalmente.
— Eu já ouvi isso antes — respondeu ele, tenso.
Lucas foi atendido rapidamente. Crise leve de bronquite. Nada grave, mas assustador o suficiente para derrubar qualquer ilusão de controle.
Quando tudo se acalmou, sentamos lado a lado na sala de espera. Ricardo passou as mãos pelo rosto, exausto.
— Eu falhei — murmurou.
— Não — respondi. — Você ficou.
Ele me olhou.
— Ficar não apaga o passado.
— Mas muda o presente — completei.
Ele respirou fundo.
— Quando ela morreu — começou —, eu estava exatamente em um lugar como este. Prometi que nunca mais sentiria aquela impotência.
Segurei a mão dele.
— E agora?
— Agora eu percebo que fugir também é uma forma de perder.
O aperto da mão dele foi forte. Necessário.
De volta à casa, Lucas dormia tranquilo. Ricardo o colocou na cama com cuidado extremo. Ficamos no corredor, em silêncio.
— Isabela — disse ele. — Eu não sei fazer isso do jeito certo.
— Ninguém sabe — respondi. — Só do jeito honesto.
Ele se aproximou.
Não houve tropeço.
Não houve acidente.
Foi uma escolha.
— Eu não quero te afastar — disse ele. — Mas tenho medo do que acontece se eu deixar você ficar.
Meu coração acelerou.
— Eu não estou pedindo garantias — respondi. — Só verdade.
Ele me encarou como se estivesse diante da decisão mais difícil da vida.
— A verdade é que eu penso em você quando não deveria — disse.
— E isso me assusta.
— A verdade — respondi — é que eu fico mesmo sabendo do risco.
O espaço entre nós diminuiu.
Dessa vez, ninguém interrompeu.
Mas também não houve beijo.
Ricardo encostou a testa na minha.
— Se eu cruzar essa linha — disse —, não vou conseguir voltar.
— Então não volte — respondi, quase num sussurro.
Ele fechou os olhos.
Quando abriu, havia decisão ali.
— Fique — disse ele. — Não só como babá. Fique… na minha vida.
Engoli em seco.
— Isso muda tudo.
— Eu sei.
Respirei fundo.
— Então vamos com calmas -- disse.
— Mas vamos.
Ele assentiu.
E naquele gesto simples, eu soube:
não era o fim do medo. Era o começo da coragem.