Capítulo 05 -Onde eu decido ficar

1054 Words
POV Isabela Eu não dormi naquela noite. Não por causa do quase. Mas por causa do que ele significava. A imagem de Ricardo parado diante de mim, tão perto que eu podia sentir a respiração dele, voltava como uma onda insistente. Ele não tinha avançado. Também não tinha recuado de verdade. Ficou ali, suspenso entre o medo e a vontade, como se qualquer escolha pudesse quebrá-lo. Talvez pudesse. Na manhã seguinte, cheguei mais cedo do que o habitual. Precisava de movimento para calar os pensamentos. A casa estava silenciosa, mas não vazia. Esse detalhe — pequeno, quase invisível — me atingiu com força. Ricardo estava na cozinha. Sem terno. Sem máscara. Camisa simples, cabelo desalinhado, olhos cansados. Ele me olhou como se também não tivesse dormido. — Bom dia — disse, a voz baixa. — Bom dia. O silêncio não foi desconfortável. Foi cuidadoso. Como se ambos estivéssemos aprendendo a andar em um chão novo. — O Lucas ainda está dormindo — informou. — A febre não voltou. — Ótimo — respondi, aliviada. Preparei o café em silêncio. Quando estendi a xícara para ele, nossos dedos se tocaram. Não foi um choque. Foi um reconhecimento silencioso de algo que já existia. Nenhum de nós comentou. Lucas apareceu minutos depois, ainda sonolento, e correu direto para mim. Abraçou minha cintura sem pensar duas vezes. Ricardo observou a cena com algo no olhar que eu ainda estava aprendendo a decifrar. — Hoje eu posso desenhar com você? — perguntou Lucas. — Pode — respondi. — Mas sem exagerar, combinado? — Combinado. Ricardo pigarreou. — Eu vou trabalhar de casa hoje. Olhei para ele, surpresa. — Tem certeza? — Tenho — respondeu. — Quero ficar por perto. “Por perto” era uma frase perigosa naquela casa. A visita de Clara aconteceu à tarde. Sem aviso. Sem cuidado. A campainha soou como um alerta. O corpo de Ricardo reagiu antes da mente. Eu percebi a tensão imediata, o fechar dos ombros, o controle voltando a assumir o comando. — Eu atendo — disse ele. — Não — respondi, firme. — Eu atendo. Ele me encarou por um segundo longo demais, depois assentiu. Quando abri a porta, Clara estava lá. Elegante, postura impecável, sorriso treinado. Olhou-me de cima a baixo com curiosidade m*l disfarçada. — Você deve ser a babá — disse. — Sou Isabela — respondi. — Em que posso ajudar? Ela suspirou. — Preciso falar com o Ricardo. — Ele está ocupado. — Sempre está — respondeu, impaciente. — Isso é importante. — Importante para quem? — perguntei. Ela estreitou os olhos. — Você não entende. — Talvez — disse. — Mas entendo limites. Ricardo apareceu atrás de mim. — Clara, vá embora. — Você não pode me afastar assim — insistiu ela. — O Lucas merece saber do passado. Ricardo respirou fundo. — O passado não cria filhos. Presença cria. A frase ficou no ar. Clara me lançou um último olhar, algo entre desprezo e aviso. — Isso ainda vai te custar caro — disse, antes de sair. A porta se fechou. O silêncio que ficou foi pesado. — Você está bem? — perguntei, virando-me para Ricardo. — Ela sempre volta quando percebe que estou… mudando — disse ele. — Como se o controle dela fosse testar o meu. — Mudanças assustam quem prefere o que já conhece — respondi. Ele me encarou. — Você tem medo? Pensei por um instante. — Tenho — respondi. — Mas não de você. O evento que mudou tudo aconteceu naquela noite. Lucas começou a tossir forte. Não era febre. Era respiração curta, cansada. Meu corpo reagiu antes da razão. — Ricardo — chamei. — Precisamos levá-lo ao hospital. Ele não questionou. Pegou as chaves, o casaco, o filho no colo. Eu fui ao lado, segurando a mão de Lucas no banco de trás, falando baixo para mantê-lo calmo. No hospital, as luzes brancas trouxeram lembranças que Ricardo tentava esquecer. Eu vi no jeito como ele andava, como evitava olhar ao redor. — Vai ficar tudo bem — disse eu, sem saber se acreditava totalmente. — Eu já ouvi isso antes — respondeu ele, tenso. Lucas foi atendido rapidamente. Crise leve de bronquite. Nada grave, mas assustador o suficiente para derrubar qualquer ilusão de controle. Quando tudo se acalmou, sentamos lado a lado na sala de espera. Ricardo passou as mãos pelo rosto, exausto. — Eu falhei — murmurou. — Não — respondi. — Você ficou. Ele me olhou. — Ficar não apaga o passado. — Mas muda o presente — completei. Ele respirou fundo. — Quando ela morreu — começou —, eu estava exatamente em um lugar como este. Prometi que nunca mais sentiria aquela impotência. Segurei a mão dele. — E agora? — Agora eu percebo que fugir também é uma forma de perder. O aperto da mão dele foi forte. Necessário. De volta à casa, Lucas dormia tranquilo. Ricardo o colocou na cama com cuidado extremo. Ficamos no corredor, em silêncio. — Isabela — disse ele. — Eu não sei fazer isso do jeito certo. — Ninguém sabe — respondi. — Só do jeito honesto. Ele se aproximou. Não houve tropeço. Não houve acidente. Foi uma escolha. — Eu não quero te afastar — disse ele. — Mas tenho medo do que acontece se eu deixar você ficar. Meu coração acelerou. — Eu não estou pedindo garantias — respondi. — Só verdade. Ele me encarou como se estivesse diante da decisão mais difícil da vida. — A verdade é que eu penso em você quando não deveria — disse. — E isso me assusta. — A verdade — respondi — é que eu fico mesmo sabendo do risco. O espaço entre nós diminuiu. Dessa vez, ninguém interrompeu. Mas também não houve beijo. Ricardo encostou a testa na minha. — Se eu cruzar essa linha — disse —, não vou conseguir voltar. — Então não volte — respondi, quase num sussurro. Ele fechou os olhos. Quando abriu, havia decisão ali. — Fique — disse ele. — Não só como babá. Fique… na minha vida. Engoli em seco. — Isso muda tudo. — Eu sei. Respirei fundo. — Então vamos com calmas -- disse. — Mas vamos. Ele assentiu. E naquele gesto simples, eu soube: não era o fim do medo. Era o começo da coragem.
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