Capitulo 10 O Que Vejo Quando Ela Duvida

1591 Words
Pov Ricardo Eu sempre achei que saber quem eu sou bastava. Descobri tarde demais que não basta saber — é preciso sustentar. E sustentar alguém que a gente ama significa encarar as partes de nós mesmos que passamos anos evitando. Naquela manhã, acordei antes de Isabela. Fiquei alguns minutos observando o teto, tentando organizar pensamentos que insistiam em se atropelar. Havia dias em que eu me sentia no controle absoluto da minha vida. Outros, como aquele, em que tudo parecia prestes a escapar pelos dedos. Levantei devagar para não acordar Lucas. A casa estava silenciosa, mas não vazia. Desde que Isabela entrou na nossa rotina, o silêncio ganhou outro significado. Não era mais abandono. Era pausa. Quando ela chegou, percebi na hora que algo estava diferente. Isabela sempre entra com passos leves, como quem pede licença ao espaço. Naquele dia, havia algo contido demais nos ombros, no jeito de segurar a bolsa, no sorriso educado que demorou um segundo a mais para nascer. — Bom dia — disse ela. — Bom dia — respondi, atento. Ela desviou o olhar rápido demais. A insegurança dela não é barulhenta. É elegante. Se esconde em gestos pequenos, em escolhas silenciosas, em recuos quase imperceptíveis. E talvez por isso doa tanto: porque é fácil ignorar se você não estiver disposto a enxergar. Lucas apareceu logo depois, interrompendo qualquer tentativa de conversa profunda. — Vocês estão estranhos — comentou, com a honestidade que só as crianças têm. Isabela sorriu. — Estranhos como? — Como quando alguém está pensando demais — respondeu. Ele tinha razão. — Saí para o trabalho com um peso no peito que não consegui explicar. Durante a reunião com o conselho, percebi os olhares avaliadores. Não eram novos. O que era novo era o alvo. — A exposição da sua vida pessoal tem gerado comentários — disse um dos conselheiros. — Precisamos pensar na imagem da empresa. — A minha vida não é uma campanha publicitária — respondi. — E a Isabela não é um risco. — Ela trabalha para você — retrucou outro. A frase veio como um soco. — Ela trabalha comigo — corrigi. — E isso não define o que ela é para mim. O silêncio que se seguiu foi pesado. Saí daquela sala com a certeza de que eu teria que escolher muitas vezes. E que cada escolha teria custo. — Quando voltei para casa, encontrei Isabela sentada no sofá, olhando para o nada. Lucas brincava no chão, mas o clima estava diferente. Denso. — O que aconteceu? — perguntei. Ela hesitou. — Nada específico — respondeu. Reconheci o tom. Era o mesmo que eu usava quando não queria admitir que algo tinha me atravessado. — Isabela — disse, sentando ao lado dela. — Eu sei quando você está se afastando. Ela respirou fundo. — Eu não estou indo embora — disse. — Só estou… tentando entender. — Entender o quê? Ela demorou a responder. — Se eu caibo — confessou. A palavra ficou suspensa entre nós. — Onde? — perguntei, embora soubesse a resposta. — No seu mundo — disse. — No que vem com você. Aquilo me atingiu em cheio porque eu sabia que, durante muito tempo, eu mesmo duvidei disso. — Você não precisa caber — respondi. — Você já está. — Não é assim que funciona — retrucou. — As pessoas não veem como você vê. Ela tinha razão. E isso era culpa minha também. — À noite, depois que Lucas dormiu, Clara voltou a existir entre nós. — Ela te escreveu — disse Isabela, sem me olhar. — Escreveu — confirmei. — Sobre a investigação — completou. Fechei os olhos por um instante. — Eu devia ter contado — disse. — Mas tive medo. — Medo de quê? — De você me ver como alguém quebrado demais para sustentar outra pessoa. Ela finalmente me encarou. — Eu não tenho medo das suas rachaduras — disse. — Tenho medo de ser esmagada por elas. Respirei fundo. — Quando a mãe do Lucas morreu — comecei —, eu estava em uma reunião. Ignorei três chamadas. Achei que teria tempo depois. Depois nunca veio. Minha voz falhou. — Fui julgado por todos. Pela família dela. Pela empresa. Por mim. Aprendi a fechar tudo. Pessoas. Sentimentos. Possibilidades. Ela segurou minha mão. — E agora? — perguntou. — Agora eu estou tentando não repetir o mesmo erro — respondi. — Não te ignorar. Não te afastar por medo. Ela assentiu, mas o olhar ainda carregava dúvida. — O golpe mais duro veio no dia seguinte. Lucas me perguntou, sem rodeios: — A Isa vai embora como a mamãe? Meu coração se partiu em silêncio. — Não — respondi rápido demais. — Por que você acha isso? — Porque as pessoas ficam tristes antes de ir — disse. Quando Isabela soube, chorou. E ali eu entendi: a insegurança dela não era só sobre status, ou comentários, ou Clara. Era sobre permanência. — Naquela noite, eu tomei a decisão que vinha adiando. — Isabela — disse, chamando-a para a varanda. — Eu preciso te dizer algo sem rodeios. Ela me olhou, tensa. — Eu vou te escolher em voz alta — continuei. — No trabalho. Na vida. Para quem perguntar. — E se isso custar coisas importantes? — ela perguntou. — Já custou — respondi. — E mesmo assim vale. Ela engoliu em seco. — Eu não quero que você lute sozinho por mim — disse. — Então lute comigo — pedi. — Mas não se diminua para facilitar. Ela chorou. Eu também. Depois daquela conversa na varanda, nada voltou exatamente ao lugar. E talvez nunca devesse voltar. Isabela não se afastou fisicamente. Continuou ali, presente, cuidando de Lucas, rindo nos momentos certos, cumprindo a rotina. Mas havia algo novo — ou talvez antigo demais — nos olhos dela. Uma vigilância silenciosa. Como quem ama, mas mantém a mala emocional sempre pronta. Passei a perceber coisas que antes me escapavam. O jeito como ela hesitava antes de falar “nós”. Como evitava fazer planos muito à frente. Como observava as reações das pessoas quando entrávamos juntos em algum lugar. Não era insegurança simples. Era autoproteção. E o pior é que eu reconhecia aquele mecanismo. Eu mesmo o tinha aperfeiçoado por anos. Certa noite, enquanto Lucas fazia a lição na mesa da cozinha, Isabela ficou parada à porta, observando em silêncio. Havia ternura ali, mas também medo. Medo de se apegar demais. Medo de ocupar um espaço que, na cabeça dela, ainda podia ser tirado a qualquer momento. — Você pode sentar — eu disse, quebrando o silêncio. Ela sorriu, mas não se moveu de imediato. — Só estou olhando — respondeu. Lucas levantou o rosto. — Você vai ficar pra sempre, né, Isa? O corpo dela ficou tenso. Não foi exagero, foi reflexo. Um segundo apenas — mas eu vi. — Eu… — ela começou, e parou. Antes que ela precisasse responder algo que a machucaria, eu me aproximei. — Algumas pessoas não vão embora quando a gente gosta delas — disse a Lucas. — Elas ficam porque escolhem ficar. Ele aceitou a resposta com facilidade. As crianças fazem isso. Os adultos não. Isabela me olhou como se eu tivesse atravessado uma linha invisível. Depois desviou o olhar, respirando fundo. Mais tarde, quando Lucas já dormia, ela falou: — Você não precisava ter dito aquilo. — Precisava, sim — respondi. — Ele sente. E você também. Ela se sentou no sofá, abraçando uma almofada como se fosse um escudo. — Eu tenho medo de acreditar — confessou. — Medo de baixar a guarda e descobrir que eu estava errada. Sentei ao lado dela, sem tocar. — E eu tenho medo de não ser suficiente para te convencer — admiti. — Mas estou aqui mesmo assim. Ela assentiu, mas não respondeu. Naquela noite, entendi que amar alguém como Isabela não seria sobre grandes gestos isolados. Seria sobre repetição. Sobre continuar escolhendo, mesmo quando o retorno não fosse imediato. No trabalho, as coisas ficaram mais tensas. Comentários atravessados. Reuniões que terminavam em silêncio. Eu sabia que o nome dela circulava quando não estava presente. E, pela primeira vez, não fiquei em cima do muro. Corrigi. Interrompi. Assumi.Não porque fosse fácil, mas porque era necessário. Ainda assim, ao chegar em casa, encontrei Isabela sentada na cama, segurando o celular, com os olhos marejados. — O que foi? — perguntei. — Nada que você já não saiba — respondeu, tentando sorrir. — As pessoas falam. Sentei à frente dela. — Elas sempre vão falar — disse. — A diferença é que agora eu não fico em silêncio. Ela respirou fundo. — Eu não quero ser o motivo de você perder tudo — disse. — Você não é — respondi. — Mas é o motivo de eu não querer perder a mim mesmo de novo. Ela chorou em silêncio. E eu respeitei aquele choro, porque entendi que não era algo que eu pudesse consertar com uma frase certa. Quando ela adormeceu, fiquei acordado por muito tempo. Pensando que amar alguém inseguro é aceitar que, às vezes, ela vai duvidar mesmo quando você está ficando. Que vai questionar mesmo quando você escolhe. Que vai se preparar para a queda mesmo enquanto constrói. E ainda assim… ficar. — Naquela noite, entendi algo que nunca tinha aprendido antes: amar alguém inseguro exige mais do que palavras bonitas. Exige constância. Escolhas repetidas. Presença quando seria mais fácil recuar. Eu não sabia se seria suficiente. Mas, pela primeira vez em anos, eu estava disposto a tentar sem fugir.
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