Ricardo
Eu sempre acreditei que amar fosse uma coisa barulhenta. Conquistas, promessas, declarações feitas no momento certo. Talvez por isso eu tenha passado tanto tempo errando. Porque Isabela não era barulho. Ela era silêncio acumulado.
E o silêncio dela começou a me ensinar coisas que eu não queria aprender. Naquela manhã, acordei antes do despertador. O quarto ainda estava escuro, e Isabela dormia de lado, voltada para a janela, como se até dormindo precisasse manter uma rota de fuga.
Observei o jeito como ela segurava o lençol, os dedos fechados, tensos, mesmo em descanso. Era ali que a insegurança morava: no corpo antes de chegar às palavras.
Levantei devagar para não acordá-la.
Na cozinha, preparei o café de Lucas e fiquei alguns minutos parado, olhando o vapor subir da xícara. Pensei em tudo o que eu tinha e em tudo o que ainda podia perder. Pela primeira vez, essas duas coisas não estavam em lados opostos.
Quando Lucas entrou, arrastando os pés, o cabelo bagunçado, senti aquele aperto conhecido no peito. Amor sem defesas.
— A Isa vai acordar comigo hoje? — ele perguntou.
— Vai — respondi, sem pensar.
Ele sorriu, satisfeito, como se aquilo fosse uma promessa sólida. Crianças acreditam com facilidade. Adultos constroem desculpas para não acreditar.
Isabela apareceu minutos depois. O cabelo preso de qualquer jeito, o rosto ainda marcado pelo sono, mas os olhos atentos demais. Sempre atentos demais.
— Bom dia — disse, suave.
— Bom dia — respondi, e quis dizer muito mais com aquelas duas palavras.
Ela se sentou à mesa, mas não tocou no café. Ficou observando Lucas falar, rir, contar detalhes irrelevantes do dia anterior. Havia ternura ali, sim. Mas também havia medo. Medo de se permitir pertencer àquela cena.
Quando Lucas saiu para o quarto, ela respirou fundo.
— Eu fiquei pensando no que você disse ontem — começou.
— Eu também — respondi.
Ela mexeu na xícara, sem beber.
— Às vezes eu sinto que estou vivendo algo que não é meu. Como se fosse emprestado. Como se alguém fosse aparecer a qualquer momento dizendo que houve um engano.
Aquela frase me atingiu em cheio.
— Ninguém vai aparecer — disse, firme. — Não existe engano.
Ela sorriu de canto, triste.
— É fácil dizer quando você sempre teve escolha.
Aquilo doeu mais do que qualquer acusação direta.
— Você acha que eu nunca tive medo? — perguntei. — Que eu nunca me senti deslocado?
Ela levantou o olhar.
— Você é o Ricardo Montenegro — disse. — O mundo foi feito para você.
Respirei fundo. Não queria brigar. Queria ser visto.
— O mundo foi feito para o nome — respondi. — Não para o homem.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas necessário.
Mais tarde, no trabalho, percebi que a tensão estava longe de terminar. Um comentário atravessado aqui. Um olhar prolongado ali. O nome de Isabela não era dito, mas estava presente. Sempre está.
Quando Clara entrou na sala de reuniões, o ar mudou. Ela ainda tinha aquele sorriso treinado, aquela segurança que vinha de quem nunca precisou pedir licença para existir.
— Ricardo — disse ela, como se nada tivesse mudado. — Precisamos conversar.
— Aqui não — respondi. — Não mais.
Os olhares se voltaram para nós. Eu não me importei.
— Você está misturando coisas — ela insistiu, em voz baixa. — Isso vai acabar m*l.
— Já acabou — respondi. — Só demorou para você perceber.
Saí antes que ela dissesse algo que eu precisasse rebater. Pela primeira vez, não me senti em dívida com ninguém.
Quando cheguei em casa, encontrei Isabela sentada no chão do quarto de Lucas, ajudando-o a montar um castelo de blocos. Ela ria, mas era um riso contido, como quem tem medo de exagerar na felicidade.
Fiquei na porta, observando. Era ali que eu queria estar. Não no controle. Não no topo. Ali. Mais tarde, depois que Lucas dormiu, Isabela se recolheu no quarto. Demorou para falar.
— Clara esteve aqui hoje? — perguntou, finalmente.
— Não — respondi. — Mas esteve no trabalho.
Ela assentiu, como se já esperasse.
— Eu não quero ser uma batalha — disse. — Não quero que você precise escolher todos os dias.
Sentei ao lado dela.
— Eu escolho todos os dias — respondi. — A diferença é que agora eu escolho consciente.
Ela apertou as mãos.
— Eu não sei fazer isso — confessou. — Não sei confiar sem esperar a queda.
Aproximei-me um pouco mais.
— Então não confia no futuro — disse. — Confia no agora.
Ela me olhou, vulnerável.
— E se o agora acabar?
— Aí a gente sofre — respondi. — Mas sofre tendo vivido.
Ela deixou uma lágrima escapar. Depois outra.
— Eu passei a vida inteira tentando não precisar de ninguém — disse.
— E agora… agora eu preciso.
Segurei o rosto dela com cuidado, como quem segura algo frágil demais para pressionar.
— Precisar não é fraqueza — disse.
— É coragem sem armadura.
Ela fechou os olhos por um instante, como se aquelas palavras fossem grandes demais.
Quando me abraçou, não foi um gesto perfeito. Foi desajeitado, apertado, carregado de medo.
E ainda assim… foi verdadeiro.
Ali, entendi que amar Isabela não seria sobre salvá-la. Seria sobre ficar enquanto ela aprendia a não fugir.E eu fiquei.
Mesmo sabendo que o mundo ainda ia tentar nos separar.
Mesmo sabendo que ela ainda ia duvidar. Mesmo sabendo que o amor não resolve tudo. Fiquei porque, pela primeira vez, ir embora seria a verdadeira covardia.