Capitulo 08 - Quando o Mundo Entra Pela Porta

1016 Words
Pov Isabela Assumir é fácil quando só existe a gente. Difícil é quando o mundo resolve opinar. Naquela manhã, acordei com a sensação de que algo tinha mudado de eixo. Não foi um sonho r**m, nem um pressentimento claro — foi o peso silencioso de quem sabe que as decisões tomadas em silêncio começam a ecoar. Cheguei à casa como sempre. Mesmo horário. Mesmo caminho. Mesmo portão. Mas, por dentro, eu já não era a mesma. Ricardo estava na sala, falando ao telefone. Quando me viu, fez um gesto discreto com a mão, pedindo um minuto. Lucas estava sentado no chão, montando um quebra-cabeça que insistia em não se completar. — Falta uma peça — comentou. — Às vezes a gente acha depois — respondi. Ricardo desligou e se aproximou. — Bom dia — disse ele, com um sorriso contido demais para ser casual. — Bom dia. Houve um silêncio curto, denso. O tipo de silêncio que antecede uma decisão. — Hoje eu vou te pedir algo — disse Ricardo. Meu coração acelerou. — O quê? — Que você venha comigo à empresa. Pisquei, surpresa. — Como assim? — Tenho uma reunião com o conselho e, depois, um almoço com alguns parceiros — explicou. — Eu não quero mais separar as coisas como se você fosse uma parte invisível da minha vida. O ar pareceu rarear. — Ricardo… — comecei. — Não é para te expor — completou. — É para parar de esconder. Engoli em seco. — As pessoas vão falar. — Já falam — respondeu. — A diferença é que agora eu quero estar ao seu lado quando falarem. Lucas levantou o olhar. — Vocês vão sair juntos? — perguntou. Ricardo se abaixou à frente dele. — Vamos — disse. — E você fica bem com a Isa? — Eu sempre fico — respondeu Lucas, simples. Ricardo sorriu, aliviado. — Então está decidido. Decidido para ele. Para mim, era o começo do medo. No carro, o silêncio era tenso. Eu observava a cidade passando pela janela, tentando organizar pensamentos que se atropelavam. — Você está diferente — disse Ricardo, quebrando o silêncio. — Estou com medo — respondi, honesta. — De quê? — De não caber — confessei. — Do seu mundo me engolir. Ele respirou fundo antes de responder. — O meu mundo é vazio sem você — disse. — Não quero que você se adapte. Quero que exista nele. As palavras ajudaram. Mas não apagaram o receio. A empresa era tudo o que eu imaginava: grande, fria, organizada demais. Pessoas bem-vestidas, passos apressados, olhares curiosos que pousavam em mim por um segundo a mais do que deveriam. Ricardo segurou minha mão. Um gesto simples. Público. Intencional. Os cochichos começaram quase imediatamente. — É ela — ouvi alguém murmurar. Meu estômago se contraiu.Na sala de reuniões, permaneci sentada ao fundo. Não participei. Não precisava. Mas senti os olhares, as avaliações silenciosas, as suposições. Ricardo falou com firmeza. Seguro. Mas, em alguns momentos, buscava meu olhar. Como se aquilo o ancorasse. Depois, no almoço, os comentários vieram disfarçados de cordialidade. — Isabela, não é? — perguntou uma mulher elegante. — Você trabalha para o Ricardo há quanto tempo? — Um ano — respondi. — Interessante — disse ela, com um sorriso que não alcançou os olhos. Ricardo percebeu. — A Isabela é parte da minha vida — disse, firme. — Não um assunto para especulação. O clima mudou. Alguns se retraíram. Outros sorriram amarelo.Eu respirei fundo. O golpe veio quando menos esperei. No banheiro do restaurante, ouvi vozes conhecidas demais. — É a babá — disse alguém. — Ambiciosa — respondeu outra. — Sempre acontece. Minhas mãos tremeram. Não por vergonha. Por raiva. Saí sem dizer nada. Voltei à mesa com a postura ereta, o coração acelerado.Ricardo me observou, atento. — Quer ir embora? — perguntou, baixo. — Não — respondi. — Quero ficar. E fiquei. Em casa, mais tarde, o cansaço me atingiu em cheio.Lucas percebeu de imediato. — Você está triste — disse. Ajoelhei-me à frente dele. — Um pouco cansada — respondi. — As pessoas foram chatas? — perguntou. Sorri, surpresa. — Um pouco. — Você pode ficar aqui comigo — disse ele. — Aqui ninguém é chato. Meu peito apertou. — Posso — respondi. — Obrigada. Ricardo observava a cena do corredor, em silêncio. Quando Lucas foi para o quarto, ele se aproximou. — Eu devia ter te preparado melhor — disse. — Você me deu escolha — respondi. — Isso já é muito. Ele segurou meu rosto com cuidado. — Não quero que você se perca tentando caber — disse. — Então não me solte quando o peso aumentar — respondi. — Não vou. O passado voltou naquela noite. Clara apareceu.Não fisicamente. Virtualmente. Uma mensagem. Longa. Direta. Sem rodeios. “Você merece saber. Ricardo não se afastou só pelo luto. Houve uma investigação interna após a morte dela. Ele foi acusado de negligência emocional. Nada legal. Mas isso quase o destruiu.” Meu coração disparou. Quando Ricardo entrou na sala, eu ainda segurava o celular. — Clara falou comigo — disse. Ele parou. — O que ela disse? — Que você se culpa mais do que deixa transparecer — respondi. — E que isso quase te quebrou. Ele sentou-se lentamente. — Ela não mentiu — confessou. — Eu fui investigado. Não oficialmente. Mas fui julgado. Por todos. Inclusive por mim. Sentei-me ao lado dele. — Por que nunca me contou? — Porque achei que isso te faria ir embora — respondeu. — Achei que você merecia alguém inteiro. Segurei a mão dele. — Inteiro não existe — disse. — Existe disposto. Ele fechou os olhos. — Eu tenho medo de não ser suficiente — confessou. — Eu também — respondi. — Mas estou aqui mesmo assim. Naquela noite, deitada na cama, percebi que assumir não era só sobre aparecer em público. Era sustentar as imperfeições. Era enfrentar os julgamentos. Era permitir que o passado exista sem mandar. No dia seguinte, acordei mais firme. Se o mundo queria entrar pela porta, eu estava pronta. Não para agradar. Mas para ficar.
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