Capítulo 06 _O Que Acontece Quando Fico (Parte 1)

1996 Words
POV Isabela Algumas pessoas entram na nossa vida como passagem. Outras, como morada. Ricardo nunca pediu para ser nenhuma das duas. Ainda assim, quando acordo naquela manhã, sei que ele já não é só o homem para quem trabalho. Nem apenas o pai de Lucas. Ele é o espaço entre uma decisão e outra — e isso é o que mais me assusta. A casa está silenciosa demais quando chego. Não o silêncio confortável de rotina, mas aquele que carrega expectativa. Deixo minha bolsa sobre a cadeira da cozinha e caminho devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo invisível. Ricardo está no escritório. A porta entreaberta revela a postura rígida, os ombros tensos, o olhar fixo na tela desligada do computador. Ele não percebe minha presença de imediato. — Bom dia — digo, suave. Ele ergue o rosto no mesmo instante. Por um segundo, parece surpreso. Depois, aliviado. — Você veio. A frase é simples. O peso, não. — Eu disse que viria — respondo. Ele se levanta devagar, como se estivesse medindo cada gesto. Não se aproxima. Também não se afasta. Fica ali, parado, como alguém que aprendeu a esperar o impacto antes mesmo da queda. — Dormi m*l — confessa. — Lucas também. — Eu cuido dele — digo automaticamente. — Eu sei — responde. — É isso que me preocupa. Franzo a testa. — Como assim? Ele passa a mão pelos cabelos, um gesto nervoso que já aprendi a reconhecer. — Você virou o ponto de equilíbrio desta casa — diz. — E eu nunca fui bom em depender. O ar entre nós pesa. — Não estou pedindo dependência — falo. — Só presença. Ele sustenta meu olhar por alguns segundos longos demais. — Presença sempre cobra um preço — diz, baixo. Antes que eu responda, ouvimos passos no corredor. Lucas surge, ainda de pijama, os olhos inchados de sono. Quando me vê, sorri daquele jeito que sempre desmonta qualquer defesa. — Isa — murmura, correndo até mim. Ajoelho-me para abraçá-lo, sentindo o corpo pequeno e quente contra o meu. Ricardo observa a cena como se estivesse assistindo algo precioso demais para ser tocado. — Hoje você fica? — pergunta Lucas. — Fico — respondo. — Estou aqui. Ricardo fecha os olhos por um instante. O dia transcorre quase normal. Quase. Lucas desenha, ri, pede histórias. Ricardo tenta trabalhar, mas se distrai com frequência. Eu organizo, limpo, preparo o almoço. Tudo parece igual, mas nada é. A todo momento, sinto o olhar dele em mim. Não é invasivo. É atento. Como se ele estivesse tentando memorizar algo antes de perder. No meio da tarde, ele se aproxima enquanto guardo alguns brinquedos. — Isabela… — começa. — Agora não — digo, com gentileza. — Se for importante, a gente fala depois. Ele concorda. Mas o olhar denuncia que tudo, para ele, parece importante demais ultimamente. O gatilho vem no fim do dia. Lucas começa a tossir outra vez. Não é forte no início. Apenas o suficiente para nos colocar em alerta. Ricardo aparece na sala em segundos. Seu corpo inteiro muda. O homem seguro dá lugar ao pai apavorado. — Lucas? — chama. O menino tenta responder, mas a tosse interrompe. Eu me aproximo primeiro, ajoelhando-me diante dele. — Respira comigo — digo. — Devagar. Lucas me obedece, mas o som não melhora. Ricardo está pálido. — Hospital — diz, sem hesitar. No carro, o silêncio é cortado apenas pela respiração irregular de Lucas. Seguro a mão dele com firmeza. Ricardo dirige com os dedos brancos no volante. No hospital, as luzes e o cheiro parecem atingir Ricardo como um soco. Ele congela por um segundo no corredor. — Ricardo — chamo. Ele me olha, perdido. — Olha pra mim — digo, segurando o rosto dele com cuidado. — Você não está sozinho. Algo se rompe ali. Lucas é atendido rápido. Crise leve, controlável. Nada grave. Mas suficiente para escancarar feridas antigas. Quando tudo se acalma, sentamos na sala de espera. Ricardo passa as mãos pelo rosto repetidas vezes. — Eu prometi que isso nunca mais aconteceria — diz, a voz falha. — Promessas não controlam o mundo — respondo. — Só mostram o quanto a gente se importa. Ele me encara. — Eu estava trabalhando quando ela morreu — confessa, de repente. — Disse que ligaria depois. Nunca liguei. Meu peito aperta. — Ricardo… — Desde então, eu confundo vigilância com amor — continua. — E distância com proteção. Seguro a mão dele. Ele não recua. — Amar também é correr risco — digo. — Inclusive de sentir de novo. Ele fecha os olhos. Uma lágrima escapa antes que ele consiga impedir. Voltamos para casa tarde. Lucas dorme quase imediatamente. No corredor, ficamos frente a frente, o silêncio cheio de tudo o que foi dito e do que ainda falta dizer. — Você devia ir — diz Ricardo, mas não se move. — Eu sei — respondo. — Mas não agora. Ele engole em seco. — Se você ficar… — Eu fico inteira — completo. — Não pela metade. Ele se aproxima um passo. Depois outro. Não há pressa. Não há acidente. Só escolha. — Isabela — diz, a voz baixa demais. — Eu estou com medo. — Eu também — confesso. — Mas estou aqui. Ele ergue a mão, hesita, então toca meu rosto com cuidado, como se estivesse pedindo permissão mesmo depois de eu já ter concedido. O toque é leve. Demais para ser ignorado. Forte demais para ser neutro. — Se eu cruzar essa linha… — começa. — A gente cruza juntos — digo. Nossos rostos estão próximos. A respiração se mistura. O mundo parece reduzir àquele espaço mínimo entre nós. E ali, antes que qualquer coisa aconteça, eu sei: Não há mais volta. Não existe manual para o instante em que a gente para de fingir. Existe apenas o segundo exato em que o corpo entende antes da mente, em que o medo ainda está ali, mas já não manda. Quando percebo, Ricardo está tão perto que posso contar o ritmo da respiração dele — irregular, contida, real. A mão dele ainda repousa no meu rosto. O polegar toca minha bochecha com um cuidado quase doloroso, como se ele tivesse medo de deixar marcas em algo que considera frágil demais para existir. — Isabela… — ele murmura, e meu nome soa diferente na boca dele. Não como rotina. Como decisão. Eu não respondo com palavras. Inclino o rosto o mínimo necessário. Não é um movimento brusco. Não é impulso cego. É consentimento silencioso. O beijo acontece assim: primeiro, contido. Os lábios dele encostam nos meus com hesitação, como se estivesse testando a realidade daquele gesto. Não há urgência. Não há pressa. Apenas a confirmação de algo que vinha sendo adiado por medo, não por falta de vontade. Quando ele se afasta um centímetro, acho que vai parar. Não para. Ricardo volta com mais firmeza, ainda respeitoso, mas agora decidido. O beijo aprofunda-se não pela intensidade, mas pela permanência. É um beijo que diz eu fico, não eu tomo. Minhas mãos sobem sozinhas até os ombros dele. Sinto o corpo dele responder, não avançando, mas ancorando-se. Como se aquele contato fosse a única coisa mantendo-o de pé. O mundo desaparece ao redor. Não existe casa. Não existe passado. Não existe amanhã. Só o agora. Quando nos afastamos, é porque precisamos respirar — não porque queremos parar. Nossas testas permanecem encostadas, os olhos fechados, como se abrir fosse perigoso demais. — Isso… — ele começa, sem terminar. — Eu sei — digo, com a voz baixa. — Muda tudo. Ele solta uma risada curta, quase incrédula. — Eu passei anos evitando exatamente isso. — E mesmo assim aconteceu — respondo. — Porque você ficou. Abro os olhos e o encaro. — Porque você deixou — corrijo. Ele absorve minhas palavras em silêncio. Vejo a luta interna ali, clara como nunca. O homem que construiu muros para sobreviver agora encara a própria vontade de atravessá-los. — Eu não sei fazer isso direito — confessa. — Não sei equilibrar sentimento e responsabilidade. — Ninguém sabe — digo. — A gente aprende tentando. Ricardo inspira fundo, como se estivesse se preparando para uma queda consciente. — Então vamos tentar — diz. Não é fácil depois disso. Nada é. O clima na casa muda imediatamente. Não há gestos exagerados, nem declarações públicas. Há olhares que demoram mais do que deveriam. Silêncios que dizem demais. Pequenos toques que não existiam antes e agora carregam significado. Lucas percebe. Ele sempre percebe. — Vocês estão estranhos — comenta no café da manhã seguinte, com a naturalidade c***l das crianças. Ricardo engasga com o café. Eu disfarço um sorriso. — Estranhos como? — pergunto. — Como quando a gente guarda segredo — responde ele. Ricardo e eu trocamos um olhar rápido demais para ser inocente. — Não é segredo — diz Ricardo. — É… novidade. Lucas pensa por alguns segundos. — Eu gosto de novidade — decide. Mas não gosto quando vocês ficam quietos demais. Aquilo nos atinge em cheio. — A gente vai tentar melhorar — digo. Ricardo assente. E tenta. O conflito externo não demora. Clara reaparece três dias depois. Não na porta. No mundo. Uma mensagem chega no celular de Ricardo enquanto ele está no escritório. Eu vejo a mudança imediata no rosto dele quando lê. A postura endurece. Os ombros se fecham. — O que foi? — Ela quer conversar — responde. — Disse que ficou sabendo… de nós. Meu estômago aperta. — Como? — Não importa — diz ele. — Importa que isso acaba hoje. Ricardo marca o encontro em um café próximo. Eu não vou. Não por fraqueza, mas por escolha. Aquela conversa é dele. Quando ele volta, horas depois, o rosto está cansado, mas leve. — Ela tentou me lembrar de quem eu era antes da perda. Disse que eu estava me esquecendo da mulher que morreu. — E você? — Eu disse que honrar o passado não significa congelar o presente. Meu peito se aquece. — Ela não gostou — acrescenta, com um meio sorriso. — Imagino. — Mas entendeu. Pela primeira vez. A verdadeira consequência vem naquela noite. Ricardo me chama para conversar depois que Lucas dorme. Sentamos na sala, um de frente para o outro, sem a proteção do caos do dia. — Eu preciso ser claro. Se isso continuar, vai afetar tudo. Trabalho, rotina, Lucas. — Eu sei. E não quero ser um problema. — Você não é — diz rápido demais. — É exatamente isso que me assusta. O silêncio se instala. — Então qual é o plano? Ele respira fundo. — O plano é não fingir.Mas também não atropelar. Assinto. — Eu não quero ser uma fase — digo. — Nem uma distração. Ricardo se aproxima, sentando-se ao meu lado. — Você não é — afirma. — Mas também não quero prometer o que ainda estou aprendendo a sustentar. Olho para ele. — Então vamos construir — digo. — Não prometer. Ele sorri, pequeno, verdadeiro. — Construir eu sei — responde. Na semana seguinte, a rotina se ajusta. Ricardo passa mais tempo em casa. Lucas melhora. A casa deixa de parecer grande demais. Eu continuo sendo a babá — oficialmente. Extraoficialmente, sou mais. Mas ainda não tudo. E isso, estranhamente, funciona. Até o dia em que Lucas pergunta: — Isa, você vai embora algum dia? A pergunta cai como um raio. Ricardo congela. Eu também. Ajoelho-me à frente de Lucas. — Por enquanto, não — respondo. — Estou aqui. Ele aceita. Simples assim.Ricardo não. Mais tarde, no corredor, ele segura minha mão. — Eu não posso perder você — diz. — Então não me empurre — respondo. Ele me puxa para perto e me beija outra vez. Diferente do primeiro. Não mais cuidadoso demais. Não desesperado. Apenas certo. Quando nos afastamos, ele encosta a testa na minha. — Fica — pede. E, dessa vez, não é só sobre a noite. É sobre o futuro.
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