Estou há dias no pequeno apartamento da Helena. O tempo aqui é estranho. Não corre , escorre. As horas se misturam, os dias perdem nome. Tento manter alguma rotina, mas tudo parece provisório demais para se sustentar. Ela esteve aqui hoje pela manhã. Discreta, como sempre. Abasteceu a geladeira novamente, organizou as coisas como se isso fosse apenas cuidado comum. Mas não é. Helena repara em tudo. E reparou em mim. Reparou que não estou comendo. Perdi peso. Vejo no espelho, sinto nas roupas, nos ossos mais à mostra, na fraqueza que aparece sem pedir licença. Ela não disse nada. Apenas me olhou por tempo demais, como quem faz contas silenciosas. - Volto mais tarde... Disse antes de sair. Assenti. Sempre assinto. Quando fico sozinha, o silêncio pesa. Não é vazio. É cheio demais. Há

