Espero nunca mais ver aquele desgraçado na minha vida.

1467 Words
Yasmin Peguei um táxi na porta do hotel, ainda tentando reunir coragem para o que estava por vir. Paris estava especialmente bonita naquela noite, com as luzes refletindo nas ruas molhadas pela chuva que havia caído mais cedo. Olhei pela janela, sentindo o frio da noite atravessar o vidro. Meu coração estava acelerado, e uma pontada de nervosismo subia pela minha garganta. Cheguei ao restaurante pouco depois. Era um bistrô elegante, com uma fachada charmosa que parecia saída de um filme romântico. Quando desci do táxi, por um breve momento, senti meus olhos marejarem, mas eu me recusei a chorar. Não aqui. Não agora. Já estou acostumada a não ter amor na minha vida, pensei, tentando me convencer de que não fazia diferença. Entrei no restaurante, e o aroma delicioso de comida francesa me recebeu. O garçom me conduziu até uma mesinha discreta, perto da janela, com vista para a rua iluminada. Sentei-me e peguei o celular para mandar uma mensagem. “Já cheguei, estou no restaurante.” Apertei enviar e deixei o telefone sobre a mesa. Enquanto esperava, meus olhos vagavam pelo ambiente. As mesas estavam ocupadas por casais apaixonados, pessoas sorrindo, trocando olhares carinhosos. O nervosismo crescia no meu peito. Os minutos passavam. Quinze, vinte, trinta... Nada. Decidi pedir uma taça de vinho para aliviar a tensão. O garçom trouxe a bebida com um sorriso simpático, mas meu humor já estava desmoronando. Comi o couvert que veio à mesa, mas a cada mordida o vazio só aumentava. Uma hora se passou. Depois outra. Ele não chegou. Meu celular não tocou. Quase completamente bêbada, chamei o garçom, pedi a conta e paguei. Saí do restaurante com o orgulho ferido e o coração pesado. Peguei outro táxi e voltei para o hotel. No caminho, tentei ligar para Enrico. Uma, duas, três vezes. Sempre a mesma coisa: caixa postal. A cada tentativa frustrada, uma onda de raiva e tristeza se misturava dentro de mim. Ele me abandonou, me traiu. Cheguei ao hotel devastada. Entrei no elevador com algumas pessoas, mas estava tão perdida nos meus pensamentos que m*l notei os olhares que lançaram na minha direção quando as lágrimas começaram a escorrer. Eu não conseguia mais segurar. Assim que a porta do meu quarto se fechou, desabei no chão, soluçando. A dor era real, mas não era só sobre ele. Era sobre tudo. Sobre cada vez que fui deixada de lado, ignorada, usada. Enrico só havia sido mais um na longa lista de decepções. Naquela noite, mais do que nunca, tive certeza de que o amor não existia. *** Acordei com uma dor de cabeça que parecia uma marreta batendo contra as minhas têmporas. Meus olhos m*l conseguiam abrir por causa da luz que entrava pela janela. Ainda estava com o vestido da noite anterior, completamente amassado, e meus sapatos estavam jogados de qualquer jeito perto da cama. Eu era o retrato do caos. Minha cabeça doía tanto quanto meu coração. Não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido. Peguei o celular no criado-mudo e, com a esperança ridícula de que tudo tivesse sido um engano, disquei o número de Enrico novamente. — “Este número não pode ser chamado.” Bloqueada. Ele me bloqueou. — Filho da mãe! — gritei, jogando o celular no colchão com tanta força que quase ele caiu no chão. Meu sangue ferveu. Eu sentia raiva, tristeza, humilhação. Como pude ser tão i****a? Como deixei que ele brincasse comigo desse jeito? Levantei da cama com o coração em chamas. Não ia mais ficar ali, remoendo aquela noite desastrosa. Abri o armário, peguei minha mala e comecei a jogar minhas roupas dentro dela de qualquer jeito. Não importava se estavam dobradas ou não. Eu só queria sair dali. Depois de fechar a mala com um zíper que quase quebrou, desci para o saguão do hotel, chamei um táxi e segui direto para a estação. Minha cabeça latejava a cada curva que o carro fazia, mas a raiva era um anestésico estranho que me mantinha focada no próximo passo. Cheguei à estação, comprei minha passagem para Milão e esperei o trem com os braços cruzados, tentando ignorar os flashes de lembranças da última semana que insistiam em invadir minha mente. Assim que entrei no vagão, me joguei no assento e fiquei encarando a janela. O trem começou a se mover, e meu coração parecia bater no mesmo ritmo das rodas nos trilhos. — Nunca mais. — murmurei para mim mesma, cerrando os punhos. — Nunca mais vou deixar alguém brincar comigo assim. A viagem foi longa, e minha mente parecia um campo de batalha. Quando o trem finalmente chegou à estação de Milão, eu estava exausta, mas determinada a esquecer tudo aquilo. Peguei um táxi até o apartamento que dividia com Suzana e Ariana.Assim que entrei em casa, joguei a mala perto do sofá e me deixei cair ali mesmo, soltando um suspiro pesado. Suzana e Ariana estavam na sala, assistindo a um reality show qualquer, mas assim que me viram, Suzana desligou a TV. — Luna! — Suzana me chamou pelo apelido, vindo até mim. — O que aconteceu? Tá com uma cara péssima. Ariana se aproximou também, olhando preocupada. — O Enrico te deu um bolo, foi? Revirei os olhos, sentindo uma pontada de raiva só de ouvir o nome dele. — Bolo seria pouco. O desgraçado me bloqueou! Simplesmente desapareceu. — Não acredito! — Suzana arregalou os olhos, indignada. — Como assim ele te bloqueou? Depois de tudo? — Pois é, menina — continuei, tentando soar indiferente, mas a mágoa transbordava na minha voz. — E pensar que eu tava disposta a terminar tudo numa boa. Pelo menos um mínimo de respeito, sabe? Mas não, ele me deixou plantada no restaurante e ainda me bloqueou. — Que cara escroto! — Ariana exclamou, cruzando os braços. — O que você vai fazer agora? Respirei fundo, tentando engolir a raiva que ainda queimava. — Vou fazer o que já ia fazer. Arrumar minhas malas e me mudar para o Brasil. — O quê?! — Suzana praticamente gritou. — Você tá falando sério? — Infelizmente. — Suspirei, me recostando no sofá. — A faculdade acabou. Não tem mais nada que me prenda aqui. E, querendo ou não, meu pai já deu o veredito. Ele me "dispensou". — Mas morar com a sua mãe? — Ariana perguntou, hesitante. — Você odeia essa ideia. — Odeio mesmo. — Dei de ombros, tentando parecer despreocupada. — Mas não tenho outra escolha. Vou ter que encarar a megera. Suzana e Ariana trocaram olhares, claramente desconfortáveis. Finalmente, Suzana falou: — Olha, Luna... Quer dizer, Yasmin. Se precisar de qualquer coisa, a gente tá aqui, tá bom? — Eu sei, meninas. — Sorri de leve, mesmo com o coração pesado. — Valeu. Era verdade. Eu ia para o Brasil, mas parte de mim sabia que aquela despedida seria difícil. *** Aquela noite foi melhor do que eu esperava. Depois de todo o drama com Enrico, passar algumas horas com Suzana e Ariana foi exatamente o que eu precisava. Nós pedimos sorvete de todos os sabores possíveis, abrimos uma garrafa de vinho e nos jogamos no sofá para assistir a uma maratona de reality shows. Rimos, choramos e, por um momento, me esqueci de toda a bagunça que tinha sido aquela semana. Quando o relógio marcou meia-noite, prometi a mim mesma que estava pronta. Pronta para ir embora. Pronta para deixar tudo isso para trás. Na manhã seguinte, acordei cedo com o alarme insistente do celular. Suspirei fundo antes de me levantar, sentindo o peso de tudo o que estava deixando. Tomei um banho rápido, coloquei uma calça jeans confortável e uma blusa branca simples. Minha mala já estava pronta desde a noite anterior. Suzana e Ariana estavam na sala quando desci com minhas coisas. Elas me lançaram olhares tristes, mas tentaram sorrir. — Tá na hora, né? — Suzana perguntou, com a voz embargada. — Tá na hora. — Tentei sorrir de volta, mas senti meu coração apertar. Elas me ajudaram com as malas até o táxi que já esperava na porta. Durante o caminho até o aeroporto, conversamos sobre tudo e nada ao mesmo tempo, tentando não pensar na despedida que se aproximava. Quando chegamos, foi impossível segurar as lágrimas. Suzana me abraçou primeiro, soluçando no meu ombro. — Logo estaremos no Brasil com você — ela disse, enxugando as lágrimas. — Vou esperar por vocês— Respondi, tentando parecer confiante. Ariana me abraçou em seguida. — Não esquece da gente, Luna. — Nunca. Me despedi com o coração pesado, embarcando no avião. Quando finalmente me sentei na poltrona, suspirei fundo, sentindo a exaustão me atingir. Fechei os olhos e me permiti um único pensamento antes de apagar: Espero nunca mais ver aquele desgraçado do Enrico na minha vida.
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