O táxi deslizou suavemente pela entrada imponente das Indústrias Monteiro, um colosso de vidro e aço que arranhava o céu de Lisboa. Ana sentiu um arrepio na espinha, uma mistura de nervosismo e excitação. O edifício era um reflexo do homem que o comandava: frio, imponente e inatingível. Às nove da manhã em ponto, a pontualidade era uma virtude que ela sabia que Ricardo Monteiro valorizava.
Ao sair do carro, o ar fresco da manhã não conseguiu dissipar a tensão que se acumulava no seu estômago. Endireitou o blazer, respirou fundo e caminhou com passos firmes em direção à porta giratória. O hall de entrada era um espetáculo de mármore polido e iluminação discreta, com obras de arte abstratas adornando as paredes. Uma rececionista impecável, com um sorriso profissional, indicou-lhe o caminho para o elevador privativo que levava ao último andar, onde ficava o escritório de Ricardo.
A subida foi rápida e silenciosa, o silêncio apenas quebrado pelo suave zumbido do motor. Ana aproveitou para rever mentalmente os seus argumentos, as perguntas que faria, a postura que manteria. Não podia demonstrar fraqueza. Ricardo Monteiro era um predador no mundo dos negócios, e ela não seria a sua próxima presa.
As portas do elevador abriram-se para um escritório espaçoso e minimalista, com vistas panorâmicas sobre a cidade. A secretária de Ricardo, uma mulher de meia-idade com um ar austero, indicou-lhe que podia entrar. “O Sr. Monteiro está à sua espera, Senhorita Silva.”
Ana empurrou a porta de madeira escura e entrou. A sala era ainda mais impressionante do que o exterior sugeria. Uma parede inteira era de vidro, oferecendo uma vista deslumbrante do rio Tejo e da cidade. No centro, uma secretária maciça de ébano dominava o espaço. E atrás dela, sentado numa cadeira de couro de alta qualidade, estava ele. Ricardo Monteiro.
Ele não se levantou. Apenas a observou com um olhar penetrante, os olhos escuros como a noite, a boca fina num traço inexpressivo. O seu cabelo escuro estava perfeitamente penteado para trás, e o fato cinzento escuro, feito à medida, acentuava a sua figura atlética. Havia uma intensidade nele que era quase palpável, uma energia contida que parecia capaz de explodir a qualquer momento. Ele era ainda mais impressionante pessoalmente do que nas fotos.
“Senhorita Silva,” a sua voz era tão controlada quanto a do telefone, mas com um tom mais grave, quase um rosnado. “Pontual. Aprecio isso. Sente-se.”
Ana sentou-se na cadeira em frente à secretária, mantendo a postura ereta. “Obrigada por me receber, Sr. Monteiro. Agradeço a oportunidade.”
“Não se engane,” ele disse, a voz desprovida de qualquer calor. “Não a recebi por cortesia. Recebi-a porque o seu e-mail foi… interessante. E porque a minha paciência para jornalistas intrometidos é limitada. Prefiro lidar com a situação diretamente do que ter a minha reputação manchada por especulações infundadas.”
“A minha intenção não é manchar a sua reputação, Sr. Monteiro. É procurar a verdade. E a verdade sobre a AquaPura é, no mínimo, intrigante.” Ana abriu a sua pasta, tirando algumas notas e um relatório que compilara sobre a empresa.
Ricardo inclinou-se ligeiramente, os olhos fixos nela. “Intrigante? Explique-se.”
“A AquaPura desenvolveu uma tecnologia de purificação de água que tinha o potencial de revolucionar o mercado. Foi adquirida pelas Indústrias Monteiro e, poucos meses depois, foi encerrada. A patente, arquivada. Não há explicação pública para esta decisão. Os fundadores estão desiludidos, os investidores confusos. Para um homem que se orgulha da inovação, parece uma contradição.”
Ricardo soltou uma risada seca, sem humor. “Acha que a minha estratégia de negócios é da sua conta, Senhorita Silva?”
“Quando afeta a vida de pessoas e o potencial de uma tecnologia que poderia beneficiar a sociedade, sim, Sr. Monteiro. Acredito que é da conta do público.” Ana manteve o seu olhar firme, recusando-se a recuar.
Ele levantou-se e caminhou até à janela, as mãos nos bolsos das calças. A sua silhueta contra a luz da manhã era imponente. “A AquaPura era um projeto com falhas. A tecnologia, embora promissora, não era escalável para o mercado global. Os custos de produção eram proibitivos. Decisões de negócios, Senhorita Silva. Nada mais.”
“Os fundadores discordam. Eles acreditam que a sua tecnologia foi sabotada internamente, que não lhes foi dada a oportunidade de provar o seu valor.” Ana sabia que estava a pisar em terreno perigoso, mas a sua intuição dizia-lhe que havia mais do que Ricardo estava a revelar.
Ele virou-se abruptamente, os olhos a faiscar. “Sabotada? Isso é uma acusação grave, Senhorita Silva. Tem provas?”
“Tenho testemunhos. E tenho a sua recusa em discutir o assunto abertamente. O que é que tem a esconder, Sr. Monteiro?” A pergunta pairou no ar, carregada de desafio.
Ricardo deu alguns passos em direção a ela, a sua presença a preencher o espaço. Ana sentiu o seu coração acelerar, mas não desviou o olhar. “Eu não escondo nada, Senhorita Silva. Eu protejo os meus interesses. E os interesses da minha empresa. A sua reportagem, se for baseada em especulações e acusações infundadas, será recebida com as devidas consequências legais.”
“Estou preparada para isso,” Ana respondeu, a voz mais firme do que se sentia. “Mas e se eu tiver informações que provam que a decisão de encerrar a AquaPura não foi puramente económica? E se houver um motivo pessoal, ou talvez até uma conspiração, por trás disso?”
Um músculo contraiu-se na mandíbula de Ricardo. Pela primeira vez, Ana viu uma f***a na sua armadura. Uma ponta de irritação, talvez até de preocupação. “Está a ir longe demais, Senhorita Silva.”
“Estou apenas a fazer o meu trabalho, Sr. Monteiro. E o meu trabalho é descobrir a verdade. Se me der a sua versão dos factos, posso incluí-la na minha reportagem. Caso contrário, terei de me basear no que já tenho.” Ana sabia que estava a jogar um jogo perigoso, mas a adrenalina impulsionava-a.
Ricardo estudou-a por um longo momento, os seus olhos a vasculhar os dela, como se tentasse ler a sua alma. Finalmente, soltou um suspiro, um som quase inaudível. “Muito bem. Diga-me o que quer saber. Mas saiba que cada palavra que disser será avaliada. E se tentar distorcer a verdade, vai arrepender-se.”
Ana sentiu um pequeno triunfo. Ela tinha conseguido. Mas a sua vitória era apenas o começo. Ela sabia que a história da AquaPura era apenas a ponta do iceberg. Havia algo mais profundo, mais sombrio, escondido por trás da fachada impecável de Ricardo Monteiro. E ela estava determinada a desenterrá-lo, não importando o custo. Aquele confronto inicial, longe de a intimidar, apenas acendeu ainda mais a sua curiosidade e a sua determinação. A batalha de vontades tinha apenas começado, e Ana estava pronta para o desafio, mesmo que isso significasse entrar num mundo onde as regras eram escritas por homens como Ricardo, e onde o perigo espreitava em cada sombra. A sua reportagem sobre o “Titã Recluso” estava prestes a tornar-se muito mais pessoal do que ela alguma vez imaginara.