O interior da carrinha branca parecia uma jaula de metal em chamas. O som das sirenes da polícia espanhola, a Guardia Civil, aproximava-se como o uivo de lobos famintos. Ricardo segurava a faca de combate, a lâmina de aço frio brilhando sob a luz fraca que entrava pelas frestas das portas traseiras. O seu rosto estava coberto de suor e sangue, os olhos fixos no antebraço de Ana com uma intensidade que beirava o delírio.
“Ricardo, não…” sussurrou Ana, o corpo tremendo violentamente. “Tem de haver outra maneira.”
“Não há, Ana!” rugiu ele, a voz carregada de uma agonia que ela nunca ouvira. “O sinal está a vir da tinta. Se não o cortarmos agora, eles vão interceptar-nos antes de chegarmos à fronteira. Eu não vou deixar que te levem de volta para aquela cave. Eu prefiro ver-te sangrar nos meus braços do que ver-te apodrecer nas mãos do Varela!”
A carrinha deu uma guinada brusca para a esquerda, atirando-os contra a parede de metal. O condutor estava a fazer manobras desesperadas para evitar os carros de patrulha que tentavam cercá-los. O som de tiros começou a ecoar, balas de borracha e de metal atingindo a carroçaria com estalos secos e aterrorizadores.
Ricardo agarrou o braço de Ana com uma força bruta, imobilizando-a contra o chão da carrinha. A obsessão dele tinha atingido o seu ponto mais sombrio: a proteção através da dor. Ele amava-a tanto que estava disposto a ser o monstro que a marcaria para sempre, desde que isso a mantivesse viva.
“Olha para mim, Ana,” ordenou ele, a voz agora num sussurro mortalmente calmo. “Olha nos meus olhos e não te desvies. Vai doer, mas eu estou aqui. Eu nunca te vou largar.”
Ana olhou para ele, e no meio do terror, viu a dor insuportável nos olhos de Ricardo. Ele não queria fazer aquilo; ele estava a morrer por dentro a cada segundo que passava. Ela fechou os punhos, as unhas cravando-se na palma das mãos, e assentiu. “Faz. Faz agora.”
Ricardo não hesitou mais. Com uma precisão cirúrgica e c***l, ele enterrou a ponta da faca na extremidade da tatuagem. Ana soltou um grito que foi abafado pelo som de uma explosão lá fora — um pneu da carrinha tinha rebentado. A dor era uma chama branca que consumia tudo, um incêndio que subia pelo seu braço e se instalava no seu cérebro.
Ele não estava apenas a cortar a pele; ele estava a remover a camada onde a tinta biométrica se tinha fundido com o tecido. O sangue começou a jorrar, quente e denso, manchando o chão da carrinha e as mãos de Ricardo. Ele trabalhava com uma rapidez frenética, o rosto uma máscara de determinação suicida.
“Mais um pouco… só mais um pouco…” murmurava ele, mais para si mesmo do que para ela.
Ana sentia o mundo a desvanecer-se. A dor era tão intensa que se tornou anestésica. Ela via o rosto de Ricardo através de uma névoa vermelha, a forma como ele chorava silenciosamente enquanto a mutilava para a salvar. Era a prova final da sua obsessão: um amor que não conhecia limites, nem mesmo os da integridade física.
Subitamente, a carrinha capotou.
O mundo girou num caos de metal retorcido, estilhaços de vidro e escuridão. Ana sentiu o impacto violento, o seu corpo sendo lançado contra o teto e depois contra o chão enquanto o veículo rolava pela berma da autoestrada. Quando o movimento finalmente parou, o silêncio que se seguiu foi mais assustador do que o barulho.
Ana estava deitada de lado, o braço latejando com uma agonia que a fazia querer vomitar. O cheiro a gasolina era forte, misturado com o cheiro a terra e sangue. Ela abriu os olhos e viu Ricardo a poucos metros, preso sob uma prateleira de ferramentas que se soltara.
“Ricardo…” a voz dela era um fio de som.
Ele não respondeu. A cabeça dele estava caída para o lado, um fio de sangue escorrendo da têmpora.
Lá fora, as luzes azuis e vermelhas das patrulhas iluminavam a noite. Ana ouviu vozes, ordens gritadas em espanhol, o som de botas a correr no asfalto. Eles estavam ali. O sacrifício de Ricardo tinha sido em vão?
Com um esforço sobre-humano, Ana rastejou até ele. Cada movimento era uma tortura. Ela usou a mão sã para empurrar a prateleira, os seus músculos gritando de exaustão. Ricardo soltou um gemido e abriu os olhos, a consciência voltando lentamente.
“O sinal…” sussurrou ele, olhando para o braço dela.
Ana olhou para baixo. O pedaço de pele com a tatuagem principal tinha sido removido e estava caído no meio dos destroços. Ela pegou num pano sujo e enrolou-o firmemente à volta do braço, estancando a hemorragia como podia.
“Está feito, Ricardo. O sinal parou.”
“Temos de… temos de sair…”
Eles saíram pelos restos da porta traseira, rastejando para a vegetação densa que ladeava a autoestrada. A Guardia Civil estava focada na carrinha, os agentes aproximando-se com as armas em punho, esperando resistência. Eles não esperavam que os fugitivos tivessem sobrevivido a um capotamento daquela magnitude e já estivessem a fugir pela floresta.
A perseguição a pé foi um teste de resistência que nenhum dos dois pensava superar. Ricardo apoiava-se em Ana, o seu ombro ferido e o impacto do acidente tornando cada passo um milagre. Eles moviam-se pela escuridão, guiados apenas pelo instinto e pela necessidade obsessiva de não serem capturados.
“Eles vão encontrar a carrinha vazia em minutos,” disse Ana, a voz ofegante. “Vão começar a vasculhar a floresta com cães.”
“Eu sei,” respondeu Ricardo, parando por um momento para recuperar o fôlego. Ele olhou para o braço dela, a ligadura improvisada já ensopada em sangue. “Ana… eu sinto tanto. Eu nunca quis…”
“Não peças desculpa,” interrompeu ela, segurando o rosto dele com a mão sã. “Tu fizeste o que tinha de ser feito. Tu salvaste-nos. Agora, temos de continuar.”
Eles chegaram a um pequeno riacho, a água correndo fria e rápida. Ricardo indicou para entrarem na água. “Isto vai confundir os cães. Temos de seguir o curso do rio até à próxima aldeia.”
A água gelada foi um choque para os seus sistemas, mas ajudou a entorpecer a dor. Eles caminharam pelo leito do rio durante o que pareceram horas, a tensão s****l e a obsessão agora substituídas por uma determinação gélida de sobrevivência. Eles eram dois animais feridos, caçados pelo império que Ricardo deveria ter herdado.
Ao amanhecer, chegaram a uma pequena aldeia de pedra, aninhada nas montanhas. Parecia um lugar parado no tempo, longe da tecnologia e da corrupção de Madrid. Ricardo levou-a até uma pequena igreja abandonada nos arredores.
“Vamos descansar aqui,” disse ele, desabando contra uma parede de pedra.
Ana sentou-se ao lado dele, exausta. Ela olhou para o seu braço e depois para Ricardo. A relação entre eles tinha mudado para sempre naquela carrinha. O ato de violência de Ricardo, embora feito por amor, tinha deixado uma marca que ia além da pele.
“Ricardo,” disse ela suavemente. “O que acontece agora? O sinal parou, mas eles ainda sabem quem somos. O mundo inteiro viu a minha cara.”
Ricardo pegou na mão dela, os seus dedos entrelaçando-se nos dela. A obsessão nos seus olhos estava agora misturada com uma promessa solene. “Agora, nós desaparecemos, Ana. Mas antes disso, vamos usar o que resta da tua tatuagem. O Zero disse que a tinta reagia ao calor e à frequência cardíaca. O pedaço que eu cortei… ele ainda tem os dados. Se conseguirmos ligá-lo a um terminal, podemos enviar a prova final.”
“Tu guardaste o pedaço de pele?” perguntou ela, chocada.
Ricardo abriu a mão, revelando o pequeno frasco de antissético que ele tinha usado para guardar o tecido removido. “Eu não ia deixar que o teu sacrifício fosse em vão.”
Ana olhou para o frasco com uma mistura de horror e admiração. Ricardo tinha pensado em tudo, mesmo no meio da agonia. A obsessão dele não era apenas por ela, mas pela missão que os unia.
Subitamente, o som de um sino de igreja ecoou, mas não era o da aldeia. Era um som eletrónico, vindo do bolso de Ricardo. O telemóvel encriptado que o Javier lhe dera estava a tocar.
Ricardo atendeu, a sua expressão tornando-se subitamente pálida.
“É o Zero,” disse ele, olhando para Ana com um medo que ela nunca vira. “Ele diz que o General Varela não está apenas a caçar-nos. Ele capturou a tua família, Ana. Os teus pais, o teu irmão… ele tem-nos todos num centro de detenção ilegal em Lisboa.”
O mundo de Ana desabou. A fúria que ela sentira antes era nada comparada com o ódio que agora lhe consumia a alma. O General tinha cruzado a linha final.
“Ele quer a troca,” continuou Ricardo. “A chave completa pela vida deles. Temos doze horas para chegar a Lisboa.”
O capítulo terminava com Ana levantando-se, a dor no braço esquecida, os seus olhos brilhando com uma luz perigosa. A obsessão de Ricardo tinha-lhe ensinado como lutar, e agora ela estava pronta para usar essa lição.
“Nós não vamos fazer uma troca, Ricardo,” disse ela, a voz fria como o aço. “Nós vamos a Lisboa. Mas não vamos para nos entregar. Vamos para queimar o império Monteiro até aos alicerces.”
O cliffhanger era brutal: a família de Ana estava em perigo mortal, a perseguição tinha-se tornado pessoal ao nível mais extremo, e o casal de fugitivos estava agora a caminho do coração do inimigo para um confronto final que prometia ser um banho de sangue. A obsessão tinha-se transformado em vingança pura.