Capítulo 4: O Aviso do Herdeiro

1859 Words
Ao chegar a casa, exausta e abalada, Ana encontrou um envelope debaixo da sua porta. Não tinha remetente. Ela abriu-o com as mãos a tremer. Lá dentro, havia uma única fotografia. Era uma foto dela, tirada de longe, enquanto ela entrava no café ‘O Corvo’. No verso, uma única palavra escrita à mão, com uma caligrafia elegante e familiar: “Cuidado.” Era a letra de Ricardo Monteiro. Ana sentiu um nó no estômago. Ele estava a observá-la. Ele sabia cada passo que ela dava. O romance proibido que ela imaginara estava agora misturado com um perigo real e tangível. Ricardo Monteiro era o seu protetor ou o seu carrasco? Ela não sabia a resposta, mas estava determinada a descobri-la, mesmo que isso a levasse à sua própria destruição. A jornada de Ana Silva estava apenas a começar, e o caminho à sua frente estava cheio de sombras e segredos que mudariam o seu destino para sempre. Ana fechou a porta do seu apartamento e encostou-se a ela, sentindo o frio do metal contra as suas costas. O silêncio do corredor parecia agora carregado de ameaças invisíveis. A fotografia na sua mão, com aquele “Cuidado” escrito na caligrafia impecável de Ricardo, parecia queimar-lhe a pele. Ela não era apenas uma jornalista a cobrir uma história; ela tinha-se tornado parte da história, um peão num tabuleiro onde as peças eram movidas por mãos invisíveis e implacáveis. A adrenalina, que até então a mantivera em pé, começou a dissipar-se, dando lugar a um tremor incontrolável. Ela caminhou até à cozinha, as pernas pesadas como chumbo, e serviu-se de um copo de água. As suas mãos tremiam tanto que a água transbordou, molhando a bancada de mármore. Ana respirou fundo, fechando os olhos e tentando organizar os seus pensamentos. Quem era Ricardo Monteiro? O CEO brilhante que ela entrevistara horas antes ou o homem que enviava capangas para a intimidar na calada da noite? Ou seriam ambos? A dualidade dele era o que mais a perturbava. O aviso no verso da foto não parecia uma ameaça direta dos seus homens, mas sim um alerta genuíno, quase protetor. Mas proteger de quem? Se os homens no carro trabalhavam para ele, porque é que ele a avisaria contra eles? A menos que… a menos que Ricardo não tivesse o controlo total sobre o seu próprio império. Essa ideia fez o estômago de Ana dar um nó. Se Ricardo Monteiro, com todo os seu poder e influência, estava a perder o controlo, então o perigo era muito maior do que ela imaginara. Ela pousou o copo e caminhou até ao seu pequeno escritório improvisado na sala de estar. Ligou o computador, a luz do ecrã cortando a penumbra do apartamento. Ela começou a pesquisar não sobre a AquaPura, mas sobre a estrutura familiar dos Monteiro. Sabia que a mãe de Ricardo, Isabela Monteiro, era uma figura influente, mas sempre se mantivera nos bastidores. Ao mergulhar em arquivos de jornais sociais e registos de empresas mais antigos, Ana começou a notar um padrão. Isabela não era apenas uma matriarca; ela era a guardiã das tradições e dos segredos da família. E havia rumores, sussurros em fóruns obscuros de economia, de que a fortuna dos Monteiro tinha raízes muito mais profundas e sombrias do que os negócios legítimos sugeriam. “Máfia,” sussurrou Ana para si mesma, a palavra soando estranha e perigosa no silêncio da sala. Ela lembrou-se do olhar de Ricardo quando ela mencionara a palavra “ética”. Não fora apenas desdém; fora a reação de alguém que vivia num mundo onde a sobrevivência dependia de regras muito diferentes. De repente, um ruído vindo da varanda fê-la saltar da cadeira. Foi um som metálico, como se algo tivesse sido derrubado. Ana ficou imóvel, o coração a martelar contra as costelas. Ela morava no terceiro andar, mas o prédio era antigo e as varandas eram próximas umas das outras. Ela pegou num pesado pisa-papéis de cristal da sua secretária – a única arma que tinha à mão – e caminhou lentamente em direção à porta de vidro da varanda. As cortinas estavam fechadas, mas ela podia ver uma sombra movendo-se do outro lado. O seu coração parecia querer saltar-lhe pela boca. Ela estendeu a mão para a maçaneta, pronta para enfrentar quem quer que fosse, quando a porta se abriu subitamente. Ana soltou um grito sufocado e levantou o pisa-papéis, mas uma mão forte agarrou o seu pulso com uma rapidez impressionante, enquanto outra lhe tapava a boca. “Silêncio, Ana. Sou eu.” A voz era profunda e familiar. Ana relaxou ligeiramente ao reconhecer o perfume amadeirado. Era Ricardo. Ele soltou-a e entrou no apartamento, fechando a porta da varanda atrás de si. Estava sem o casaco do fato, com as mangas da camisa branca arregaçadas e o cabelo despenteado pelo vento. Havia uma urgência nos seus olhos que ela nunca vira antes. “O que é que está a fazer aqui?” perguntou ela, a voz a tremer de raiva e alívio. “Entrou pela minha varanda? Quase me matou de susto!” “Eu disse-lhe para ter cuidado,” disse ele, ignorando a sua indignação. “Acha que aquela foto foi uma brincadeira? Aqueles homens… eles não deviam ter-se aproximado de si esta noite.” “Eles disseram que trabalhavam para si, Ricardo! Disseram que você queria que eu parasse de investigar a AquaPura.” Ricardo aproximou-se, a sua expressão endurecendo. “Eles trabalham para a minha família, Ana. Há uma diferença subtil, mas mortal. Eu dei ordens para a manterem sob vigilância, para a protegerem, não para a ameaçarem. Alguém mudou as ordens.” “A sua mãe?” arriscou Ana, observando a reação dele. Ricardo não respondeu imediatamente, o que para Ana foi uma confirmação. Ele caminhou pela sala, observando o computador ligado e as notas espalhadas pela mesa. “Você não sabe onde se está a meter. A AquaPura não é apenas uma empresa de tecnologia. É um ponto de discórdia num conflito que dura há décadas. Ao mexer nisso, você está a puxar um fio que pode desmoronar todo o meu império.” “Então conte-me a verdade!” exclamou Ana, aproximando-se dele. “Se o perigo é real, eu preciso de saber com o que estou a lidar. Não pode simplesmente aparecer na minha varanda a meio da noite e esperar que eu pare tudo sem uma explicação.” Ricardo parou e olhou para ela. A proximidade entre eles era eletrizante. Na penumbra da sala, os olhos dele pareciam brilhar com uma mistura de desejo e tormento. “A verdade é que eu não a quero ver magoada, Ana. Desde o momento em que entrou no meu escritório, você tornou-se uma variável que eu não consigo controlar. E eu odeio não ter o controlo.” Ele estendeu a mão e tocou levemente no rosto dela, um gesto tão inesperado e terno que Ana sentiu o seu fôlego falhar. O toque dele era quente e despertava nela uma sede que ela nem sabia que tinha. O romance proibido, que antes era apenas uma ideia para uma reportagem, estava agora a tornar-se uma realidade avassaladora. “Vá-se embora, Ricardo,” sussurrou ela, embora o seu corpo pedisse o contrário. “Se a sua família está a observar, isto só vai piorar as coisas para ambos.” “Já é tarde demais para isso,” respondeu ele, a voz rouca. “Eles já sabem que você é importante para mim. E é por isso que você está em perigo.” Antes que Ana pudesse processar aquelas palavras, Ricardo puxou-a para si e beijou-a. Foi um beijo urgente, carregado de toda a tensão e perigo que os rodeava. Ana entregou-se ao momento, as suas mãos agarrando a camisa dele, sentindo a força e a vulnerabilidade do homem por trás do mito. Naquele momento, o mundo exterior, as ameaças da máfia e os segredos da AquaPura desapareceram. Só existiam eles os dois, unidos por uma paixão que desafiava toda a lógica. Mas o momento foi interrompido pelo som de um pneu a chiar na rua lá baixo, seguido pelo bater de portas de carros. Ricardo afastou-se bruscamente, os seus sentidos em alerta máximo. “Eles estão aqui,” disse ele, a voz agora fria e profissional. “Não deviam ter-me seguido, mas seguiram.” “Quem?” perguntou Ana, o medo voltando a apoderar-se dela. “Os homens da minha mãe. Eles não vêm para conversar desta vez.” Ricardo pegou na mão de Ana. “Temos de sair daqui. Agora.” “Sair? Para onde?” “Para um lugar onde eu possa protegê-la. Mas saiba de uma coisa, Ana: uma vez que saia por aquela porta comigo, não há volta atrás. A sua vida como jornalista acabou. A partir de agora, você é uma fugitiva do império Monteiro.” Ana olhou para o seu apartamento, para a sua vida organizada e segura que estava prestes a ser deixada para trás. Depois olhou para Ricardo, para o homem que representava tudo o que ela devia evitar, mas que era o único que a podia salvar. “Vamos,” disse ela, a voz firme. Eles saíram pela porta das traseiras, descendo as escadas de serviço enquanto ouviam os passos pesados dos homens a subir as escadas principais. A fuga foi rápida e silenciosa. Ricardo tinha um carro discreto estacionado a dois quarteirões de distância. Eles entraram e ele arrancou, desaparecendo nas sombras das ruas de Lisboa antes que os seus perseguidores pudessem dar por eles. Enquanto o carro acelerava em direção à periferia da cidade, Ana olhou para Ricardo. O perfil dele estava tenso, focado na estrada. Ela sabia que tinha acabado de cruzar uma linha da qual não havia retorno. O mistério da AquaPura tinha-se transformado numa luta pela sobrevivência, e o seu romance proibido era agora a única coisa que a mantinha ligada à realidade. “Para onde vamos?” perguntou ela, enquanto as luzes da cidade ficavam para trás. “Para o sul,” respondeu Ricardo. “Tenho uma propriedade no Alentejo que não está nos registos oficiais da empresa. Estaremos seguros lá… por enquanto.” Ana encostou a cabeça no banco e fechou os olhos. O silêncio no carro era apenas quebrado pelo som do motor e pela respiração pesada de ambos. Ela não sabia o que o futuro lhe reservava, mas sabia que a história que ela começara a escrever estava longe de terminar. Na verdade, o capítulo mais perigoso e apaixonante da sua vida tinha acabado de começar. E ela estava pronta para o enfrentar, ao lado do homem que era, ao mesmo tempo, o seu maior perigo e a sua única esperança. A noite avançava, e com ela, os segredos do império Monteiro começavam a revelar-se, um a um, na escuridão da estrada. Ana Silva, a jornalista, podia ter morrido naquela noite, mas Ana, a mulher que amava o herdeiro de um império de sombras, estava mais viva do que nunca. E ela não pararia até descobrir toda a verdade, mesmo que isso significasse queimar todo o império para a encontrar.
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