Capítulo 5: O Refúgio nas Sombras

1620 Words
A paisagem urbana de Lisboa tinha sido substituída pela vastidão silenciosa do Alentejo. Sob o manto de uma noite sem lua, o carro de Ricardo deslizava pelas estradas secundárias, ladeadas por sobreiros que pareciam sentinelas retorcidas na escuridão. O silêncio dentro do habitáculo era pesado, carregado com a eletricidade residual do beijo que tinham partilhado e a urgência da fuga. Ana observava o perfil de Ricardo, iluminado apenas pelo brilho ténue do painel de instrumentos. Ele parecia uma estátua de granito, os olhos fixos na estrada, as mãos firmes no volante. “Estamos quase a chegar,” disse ele, a sua voz quebrando o silêncio como um trovão distante. Ana assentiu, sentindo o cansaço começar a pesar-lhe nos ombros. “Este lugar… ninguém sabe dele?” “Ninguém,” respondeu Ricardo com uma convicção que deveria ter sido reconfortante, mas que apenas sublinhava a gravidade da situação. “Foi comprado através de uma série de empresas de fachada que nem a minha mãe consegue rastrear. É o meu único espaço de liberdade.” O carro virou para um caminho de terra batida, escondido por uma densa vegetação. Após alguns minutos, uma casa de pedra de um único andar surgiu por entre as árvores. Era rústica, mas exalava uma elegância austera. Ricardo estacionou e desligou o motor. O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo estalar do metal quente do carro a arrefecer. Ao saírem, o ar fresco e seco do campo atingiu Ana, trazendo consigo o cheiro a terra e ervas aromáticas. Ricardo pegou numa pequena mala que tinha no porta-bagagens e indicou o caminho para a entrada. A casa, por dentro, era surpreendentemente moderna, com grandes janelas que, durante o dia, certamente ofereceriam uma vista deslumbrante, mas que agora eram apenas espelhos negros. “Podes ficar com o quarto principal,” disse Ricardo, acendendo algumas luzes de tom quente que deram à sala um aspeto acolhedor. “Eu fico no sofá ou no escritório.” “Ricardo,” chamou Ana, fazendo-o parar. “O que aconteceu em Lisboa… o que disseste sobre a tua família… o que é que eles realmente são?” Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. A máscara de CEO implacável parecia estar a começar a rachar. “A minha família não é apenas rica, Ana. Somos uma instituição. O meu avô construiu o império sobre as cinzas da guerra, e não o fez apenas com bons negócios. Ele criou uma rede de lealdades e dívidas que se estende por todo o país. A minha mãe… ela acredita que o sangue é a única coisa que importa. E que qualquer ameaça ao nosso nome deve ser eliminada.” “E eu sou essa ameaça?” perguntou ela, aproximando-se. “Tu és a luz que está a iluminar as sombras que eles preferiam manter escondidas,” disse ele, virando-se para ela. “A AquaPura não era apenas uma empresa. Era um teste. O meu avô queria ver se eu era capaz de ser tão implacável como ele. Eu fechei a empresa para os proteger, Ana. Não para os destruir. Se eu tivesse continuado, a minha mãe teria garantido que os fundadores desaparecessem permanentemente.” Ana sentiu um calafrio. A verdade era muito mais complexa e perigosa do que ela imaginara. Ricardo não era o vilão da história; ele era um homem a tentar navegar num mar de tubarões, sendo ele próprio um deles, mas com uma bússola moral que ainda funcionava. “Porque não me contaste isto no escritório?” “Porque eu não te conhecia,” respondeu ele, a sua voz baixando de tom. “E porque, no momento em que te contasse, estaria a condenar-te. Agora, já não importa. Já estás condenada.” A proximidade entre eles voltou a tornar-se insuportável. Ana podia ver a dor e o desejo nos olhos dele. Sem pensar, ela estendeu a mão e tocou-lhe no braço. “Nós vamos encontrar uma saída, Ricardo. Eu sou jornalista. Eu sei como expor a verdade de uma forma que eles não possam ignorar.” Ricardo soltou uma risada amarga. “A verdade é uma arma de dois gumes, Ana. E a minha família é mestre em desarmar quem a tenta usar.” Ele afastou-se, caminhando até uma pequena garrafeira e servindo-se de um whisky. “Devias descansar. Amanhã o mundo vai estar à nossa procura.” Ana foi para o quarto, mas o sono não vinha. A sua mente estava a processar tudo o que tinha acontecido nas últimas vinte e quatro horas. Ela tinha passado de uma jornalista ambiciosa a uma fugitiva da máfia, protegida pelo próprio homem que ela pretendia investigar. E, no meio de tudo isso, havia a tatuagem no seu antebraço — um desenho abstrato que ela fizera anos antes, mas que agora parecia pulsar com uma energia estranha. Ela olhou para o desenho na penumbra. Eram linhas entrelaçadas que formavam uma espécie de labirinto. Para ela, sempre representara a complexidade da vida, mas agora parecia um mapa para o caos em que se encontrava. A meio da noite, Ana levantou-se para beber água. Ao passar pela sala, viu Ricardo sentado no terraço, olhando para as estrelas. Ele estava apenas de calças e uma t-shirt preta, parecendo muito mais jovem e vulnerável do que o CEO que ela conhecera. Ela juntou-se a ele em silêncio. O céu alentejano era um espetáculo de luzes, longe da poluição luminosa da cidade. “O meu pai costumava trazer-me aqui quando eu era pequeno,” disse ele, sem olhar para ela. “Ele era o único que não se importava com o império. Ele queria apenas ser um agricultor. Mas a minha mãe… ela nunca o perdoou por isso.” “O que aconteceu com ele?” perguntou Ana suavemente. “Um acidente de carro. Conveniente, não achas? Ele estava prestes a pedir o divórcio e a levar-me com ele.” Ricardo finalmente olhou para ela, e Ana viu as lágrimas contidas nos seus olhos. “Eu tinha dez anos. Foi nesse dia que eu aprendi que o amor é uma fraqueza que a minha família não tolera.” Ana sentiu o seu coração apertar-se. Ela sentou-se ao lado dele e pegou-lhe na mão. Ricardo não a afastou. Pelo contrário, entrelaçou os seus dedos nos dela, como se estivesse a agarrar-se a uma tábua de salvação. “O amor não é uma fraqueza, Ricardo,” disse ela. “É a única coisa que nos torna humanos.” “Talvez,” sussurrou ele. “Mas neste mundo, ser humano é uma sentença de morte.” Ficaram ali sentados por muito tempo, observando as estrelas e sentindo a presença um do outro. Naquele momento, não havia máfia, não havia impérios, não havia reportagens. Havia apenas dois seres humanos perdidos na imensidão da noite, tentando encontrar um sentido para o caos. No entanto, a paz foi curta. O telemóvel de Ricardo, que ele tinha deixado em cima da mesa, vibrou. Era uma mensagem encriptada. Ele leu-a e a sua expressão mudou instantaneamente para a máscara de gelo. “O que foi?” perguntou Ana, sentindo o medo voltar. “Eles encontraram o Pedro,” disse Ricardo, a voz desprovida de emoção. “Ele falou. Eles sabem que estamos no Alentejo.” “Mas tu disseste que este lugar era secreto!” “Nada é secreto para a minha mãe por muito tempo. Ela tem olhos em todo o lado.” Ricardo levantou-se bruscamente. “Temos de nos preparar. Eles não vão vir para conversar.” Ele entrou em casa e abriu um armário escondido na parede do escritório. Lá dentro, Ana viu algo que a fez gelar o sangue: um arsenal de armas e equipamento de vigilância. Ricardo pegou numa pistola e verificou o carregador com uma perícia assustadora. “Ricardo… o que vais fazer?” “Vou fazer o que for preciso para te manter viva, Ana,” disse ele, olhando-a nos olhos com uma intensidade feroz. “Mesmo que isso signifique tornar-me o monstro que eles sempre quiseram que eu fosse.” Ana percebeu então que a sua vida de jornalista tinha realmente acabado. Ela não estava apenas a cobrir uma história de máfia; ela estava a viver uma. E o homem que ela estava a começar a amar era o protagonista mais perigoso de todos. O som de um motor ao longe quebrou o silêncio da noite. Luzes de faróis começaram a varrer as árvores ao longe, aproximando-se rapidamente da casa. “Vai para o bunker debaixo da cozinha,” ordenou Ricardo, entregando-lhe um rádio. “Não saias de lá até eu te dizer. Aconteça o que acontecer, não faças barulho.” “Ricardo, não me deixes!” “Eu volto para ti, Ana. Eu prometo.” Ele deu-lhe um beijo rápido e empurrou-a em direção à cozinha. Ana entrou no pequeno compartimento escondido sob o chão, o coração a martelar tão forte que parecia que ia explodir. Ela ouviu o som da porta da frente a ser arrombada, seguido de gritos e o som seco de disparos. O refúgio nas sombras tinha-se tornado um campo de batalha. E Ana, escondida na escuridão, percebeu que o herdeiro do seu coração estava prestes a travar a luta da sua vida. O romance proibido tinha atingido o seu ponto de rutura, e o preço da verdade estava prestes a ser pago em sangue. As luzes da casa apagaram-se, e o silêncio que se seguiu foi ainda mais aterrador do que o barulho. Ana segurou o rádio com força, rezando para ouvir a voz de Ricardo, enquanto as sombras lá fora se moviam com intenções mortais. A guerra dos Monteiro tinha chegado à sua porta, e nada voltaria a ser o mesmo.
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