O som das pás do helicóptero ainda ecoava nos ouvidos de Ana, mesmo depois de se terem escondido sob a estrutura de betão de uma ponte abandonada. A luz de busca tinha passado por eles como o olhar de um deus vingativo, falhando o seu esconderijo por meros centímetros. Ana estava encostada à parede fria e húmida, o peito a subir e a descer num ritmo frenético. Ricardo estava à sua frente, a sua silhueta bloqueando a pouca luz que restava. Ele não se movia, mas a sua respiração era pesada, um som animal na penumbra.
“Eles não vão desistir,” sussurrou Ana, a voz a tremer. “Ricardo, eles estão em todo o lado.”
Ricardo deu um passo em frente, invadindo o espaço pessoal dela. Ele colocou as mãos na parede, de cada lado da cabeça de Ana, encurralando-a. O cheiro a suor, sangue e o seu perfume amadeirado era uma mistura inebriante que nublava os sentidos dela.
“Deixa-os vir,” rosnou ele. Os seus olhos, normalmente tão controlados, estavam agora injetados de sangue e carregados de uma obsessão que beirava a loucura. “Eu já te disse, Ana. Ninguém te tira de mim. Nem a minha mãe, nem o exército dela, nem o próprio d***o. Tu és a minha única verdade neste mundo de mentiras.”
Ele inclinou-se, o seu rosto a milímetros do dela. Ana podia sentir o calor que emanava dele, uma fornalha de desejo e fúria. “Tens medo de mim, Ana? Tens medo do que eu sou capaz de fazer para te manter?”
Ana olhou-o nos olhos, recusando-se a desviar o olhar. O medo estava lá, sim, mas estava misturado com uma atração tão poderosa que a deixava tonta. “Tenho medo de te perder para essa escuridão, Ricardo. Tenho medo que te tornes exatamente o que eles querem que sejas.”
Ricardo soltou uma risada amarga, um som que não tinha qualquer alegria. “Eu já sou o que eles querem, Ana. A única diferença é que agora eu tenho algo por que lutar. Algo que me pertence.”
Ele agarrou o queixo dela com uma força possessiva, forçando-a a inclinar a cabeça para trás. O seu beijo foi uma invasão, uma reivindicação de território. Não havia ternura, apenas uma necessidade desesperada de a possuir, de a marcar como sua antes que o mundo acabasse. Ana respondeu com a mesma intensidade, as suas mãos puxando o cabelo dele, as suas unhas cravando-se nos seus ombros. A tensão s****l entre eles era uma corda esticada ao ponto de rutura, um incêndio que nenhum dos dois queria apagar.
Subitamente, Ricardo afastou-se, os seus sentidos de predador em alerta. Ele sacou da pistola num movimento que Ana m*l conseguiu acompanhar. “Estão aqui.”
Do outro lado da ponte, vultos moviam-se na escuridão. Não eram os homens táticos de antes, mas algo mais sinistro: mercenários, caçadores de recompensas atraídos pela fortuna que Isabela Monteiro tinha colocado pela cabeça de Ana.
“Entra no carro,” ordenou Ricardo, indicando um veículo velho e poeirento que Javier tinha deixado escondido sob a ponte como plano de contingência.
“Ricardo, eles estão armados!”
“Eu também,” respondeu ele, a voz fria e desprovida de qualquer emoção.
Ricardo começou a disparar enquanto Ana corria para o carro. Os disparos ecoavam sob a ponte, o som amplificado pelo betão. Ana entrou no lugar do passageiro, o coração a martelar. Ela viu Ricardo mover-se com uma eficiência letal, cada tiro encontrando o seu alvo. Ele não estava apenas a defender-se; ele estava a eliminar a ameaça com uma precisão que a aterrorizava.
Ele saltou para o lugar do condutor e arrancou, os pneus a chiar no cascalho. “Temos de chegar a Madrid. O meu contacto, o hacker, chama-se ‘Zero’. Ele é o único que pode ler a tua tatuagem sem alertar os servidores do governo.”
“E se ele nos trair também?” perguntou Ana, limpando o sangue de um pequeno corte na bochecha.
“Ele não vai. Eu tenho algo que ele quer mais do que dinheiro: a vida da irmã dele. Eu protegi-a quando a minha família a queria eliminar. Ele deve-me tudo.”
A viagem para Madrid foi um pesadelo de tensão. Ricardo conduzia por estradas secundárias, evitando as autoestradas vigiadas. Ele estava constantemente a olhar pelo retrovisor, a mão nunca saindo da arma. A obsessão dele por Ana parecia crescer a cada quilómetro. Ele não a deixava afastar-se, mantendo uma mão na coxa dela, apertando-a com uma força que deixava marcas.
“Ricardo, estás a magoar-me,” disse ela suavemente.
Ele olhou para ela, e por um momento, a máscara de obsessão caiu, revelando uma dor profunda. “Desculpa. Eu só… eu não consigo suportar a ideia de estares a mais de um braço de distância. Sinto que, se te soltar, vais desaparecer.”
“Eu não vou a lado nenhum,” prometeu ela, cobrindo a mão dele com a sua.
Chegaram a Madrid ao amanhecer. A cidade estava a acordar, indiferente ao drama que se desenrolava nas suas ruas. Ricardo dirigiu-se a um bairro industrial degradado, parando em frente a um armazém que parecia abandonado.
“É aqui,” disse ele.
Entraram no armazém, que estava repleto de servidores e ecrãs de computador. Um homem jovem, com olheiras profundas e um ar nervoso, apareceu por entre as máquinas. Era Zero.
“Ricardo,” disse Zero, a voz a tremer. “Tu és um homem morto. O mundo inteiro está à tua procura.”
“Então ajuda-me a ressuscitar,” respondeu Ricardo, empurrando Ana para a frente. “Lê a tatuagem. Agora.”
Zero olhou para o antebraço de Ana com fascínio. “O Pedro… ele sempre foi um génio. Ele usou uma técnica de esteganografia biológica. A tinta reage ao calor do corpo e à frequência cardíaca. É por isso que ninguém a conseguiu ler até agora.”
Ele preparou um scanner especial e indicou a Ana para colocar o braço sob a luz azul. Ana sentiu um formigueiro na pele enquanto o scanner percorria as linhas da sua tatuagem. Nos ecrãs, códigos começaram a aparecer, descodificando-se a uma velocidade vertiginosa.
“Meu Deus,” sussurrou Zero, os olhos arregalados. “Não é apenas corrupção. É um plano de controlo social. A tecnologia da AquaPura… ela pode ser usada para monitorizar e manipular as massas através da rede de água. É uma arma de ditadura perfeita.”
Ricardo aproximou-se do ecrã, a sua expressão tornando-se ainda mais sombria. “E a minha família está no centro disto.”
“Não apenas a tua família, Ricardo,” disse Zero, apontando para um nome que apareceu no ecrã. “Olha para isto.”
O nome que apareceu fez o sangue de Ricardo gelar: Isabela Monteiro e General Varela. Mas havia um terceiro nome, um que Ricardo nunca esperaria ver. O nome do seu próprio pai, o homem que ele pensava ter sido assassinado por se opor ao império.
“O meu pai… ele não era uma vítima,” sussurrou Ricardo, a voz carregada de uma mágoa insuportável. “Ele era o arquiteto.”
O choque da revelação abalou Ricardo até ao âmago. Toda a sua vida, toda a sua rebeldia, toda a sua obsessão em proteger Ana da sua família… tudo se baseava numa mentira. O seu pai não era o herói trágico; era o monstro original.
Subitamente, um alarme soou no armazém. Zero olhou para os seus monitores, o pânico estampado no rosto. “Eles encontraram-nos! O sinal do scanner… ele estava programado para alertar o General Varela se fosse ativado!”
“Quanto tempo temos?” perguntou Ricardo, recuperando instantaneamente a sua frieza, embora os seus olhos ainda mostrassem a dor da traição.
“Minutos! Talvez menos!”
Ricardo agarrou em Ana, puxando-a para si com uma força desesperada. “Zero, transfere tudo para uma unidade encriptada. Agora!”
“Não dá tempo para tudo! Só consigo metade!”
“Faz o que puderes!”
O som de pneus a chiar e portas de carros a bater ecoou no exterior. Ricardo olhou para Ana, e ela viu algo mudar nele. A obsessão, a fúria, a dor… tudo se fundiu numa determinação suicida.
“Ana, ouve-me bem,” disse ele, segurando o rosto dela com as duas mãos. “Eu vou distraí-los. Tu vais levar a unidade e vais fugir com o Zero. Há uma saída pelas traseiras que leva ao metro.”
“Não! Eu não te vou deixar!”
“Tu tens de ir! Tu és a única que pode expor isto! Se eles te apanharem, tudo isto terá sido em vão!” Ele beijou-a com uma paixão que sabia a despedida. “Eu amo-te, Ana. Mais do que a minha própria vida. E é por isso que tens de ir.”
“Ricardo, por favor…”
“Vai!” rugiu ele, empurrando-a para o Zero.
Ricardo virou-se para a entrada do armazém, as duas pistolas nas mãos, pronto para enfrentar o exército que se aproximava. Ana foi arrastada pelo Zero para a escuridão das traseiras, as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto.