O ar dentro da casa segura em Badajoz estava carregado, não apenas com o cheiro a café e antissético, mas com uma eletricidade estática que fazia a pele de Ana formigar. A notícia da conferência de imprensa de Isabela Monteiro ainda ecoava nas paredes, transformando o refúgio numa jaula de vidro prestes a estilhaçar-se. Ana olhava para o ecrã do tablet, vendo a sua própria cara ser exibida como a de uma criminosa perigosa. A ironia era cortante: a mulher que procurava a verdade era agora a vilã da nação.
Ricardo estava de pé junto à janela, as cortinas apenas ligeiramente entreabertas. A sua t-shirt preta estava colada ao corpo, realçando a tensão nos seus músculos. Ele virou-se subitamente, e o olhar que lançou a Ana não era de conforto, mas de uma possessividade sombria que a fez estremecer.
“Ela não vai parar,” disse ele, a voz como um rosnado baixo. “Ela quer-te morta, Ana. E quer-me de volta sob o seu comando. Ela não percebe que eu prefiro queimar este mundo inteiro a deixar que te toquem.”
Ele atravessou a sala com passos predatórios, parando a centímetros dela. A ferida no seu ombro parecia esquecida, substituída por uma adrenalina muito mais perigosa. Ricardo agarrou o rosto de Ana com uma mão, forçando-a a olhar para ele. Os seus dedos eram firmes, quase dolorosos.
“Tu és minha, Ana Silva,” sussurrou ele, a respiração quente contra os lábios dela. “Não és da imprensa, não és da polícia, e certamente não és da minha mãe. És o meu pecado e a minha única salvação. Percebes isso?”
Ana sentiu uma onda de calor percorrer-lhe o corpo. A obsessão nos olhos de Ricardo era assustadora, mas despertava nela uma resposta visceral que ela não conseguia controlar. Ela agarrou os pulsos dele, não para o afastar, mas para o sentir mais perto. “Eu não sou um objeto, Ricardo. Mas não vou a lado nenhum sem ti. Estamos nisto até ao fim, lembra-te?”
“O fim pode ser mais cedo do que pensas,” respondeu ele, puxando-a para um beijo que não tinha nada de terno. Era um confronto de línguas e dentes, uma fome desesperada de quem sabe que o tempo está a esgotar-se. As mãos de Ricardo desceram pelas costas dela, apertando-a contra o seu corpo com uma força que a deixava sem fôlego.
A tensão s****l entre eles era uma chama que ameaçava consumi-los antes mesmo dos seus inimigos o fazerem. Ana sentia a dureza do corpo dele contra o seu, a urgência de um homem que tinha vivido toda a vida numa armadura de gelo e que agora estava a derreter de forma violenta.
Subitamente, o som de um vidro a partir-se na cozinha interrompeu o momento. Ricardo reagiu instantaneamente, empurrando Ana para trás de uma poltrona e sacando da pistola num movimento fluido.
“Javier?” gritou ele, mas não houve resposta. Apenas o silêncio pesado, seguido pelo som metálico de uma granada de gás lacrimogéneo a rolar pelo chão de madeira.
“Abaixa-te!” rugiu Ricardo.
O fumo branco começou a preencher a sala, sufocante e cego. Ana cobriu o rosto com a camisola, os olhos a arderem. Ela ouviu o som da porta da frente a ser arrombada e o caos instalou-se. Disparos iluminavam a névoa como relâmpagos. Ricardo estava a disparar, movendo-se com uma ferocidade que Ana nunca vira. Ele não estava apenas a defender-se; ele estava a caçar.
“Eles estão aqui!” gritou uma voz em espanhol. “Apanhem a mulher viva! O homem é descartável!”
Aquelas palavras fizeram o sangue de Ana gelar. Ela rastejou pelo chão, tentando encontrar uma saída, quando uma mão enluvada a agarrou pelo tornozelo, puxando-a com força. Ela gritou, pontapeando freneticamente.
“Ricardo!”
Num segundo, Ricardo estava sobre o atacante. Ele não usou a arma; usou as mãos nuas, atingindo o homem com uma brutalidade que fez Ana desviar o olhar. O som de ossos a quebrar ecoou na sala. Ricardo puxou Ana para cima, os olhos dele brilhando com uma fúria quase inumana através do fumo.
“Ninguém lhe toca!” gritou ele para a escuridão, a voz carregada de uma promessa de morte.
Eles correram para o corredor, mas foram encurralados por mais dois homens. Ricardo disparou, atingindo um no peito, mas o outro conseguiu atingi-lo com a coronha de uma espingarda, fazendo-o cair de joelhos.
“Não!” gritou Ana, lançando-se sobre o atacante com o pisa-papéis de cristal que ainda trazia na mala. Ela atingiu-o na têmpora com toda a sua força, e o homem caiu, atordoado.
Ricardo levantou-se, o rosto coberto de sangue novo, e olhou para Ana com uma mistura de choque e admiração. “Tu… tu salvaste-me.”
“Eu disse que estávamos nisto juntos,” respondeu ela, a respiração ofegante.
Mas não havia tempo para celebrações. Mais luzes de faróis varriam o exterior da casa. Javier apareceu no corredor, o braço a sangrar. “Eles têm a casa cercada! Não são apenas os homens da tua mãe, Ricardo. É uma equipa tática profissional. Alguém nos vendeu!”
“Javier, o túnel!” ordenou Ricardo.
“Já está aberto. Vão! Eu dou-vos tempo!”
Ricardo agarrou na mão de Ana e arrastou-a para uma pequena despensa. Ele empurrou uma prateleira, revelando uma entrada estreita para um túnel de esgoto antigo. O cheiro era nauseabundo, mas era a única saída.
“Entra, Ana. Agora!”
Eles desceram para a escuridão húmida enquanto ouviam as explosões acima deles. O túnel era estreito e baixo, forçando-os a rastejar. A água suja chegava-lhes aos joelhos. Ana sentia o pânico a subir-lhe pela garganta, mas a mão firme de Ricardo na sua era a única coisa que a mantinha sã.
“Eles não vão parar, pois não?” perguntou ela, a voz ecoando nas paredes de pedra.
“Não,” respondeu Ricardo, parando por um momento e puxando-a para perto. “Mas eu também não. Eles querem a chave que tens na pele, Ana. Mas para a terem, vão ter de passar por cima do meu cadáver. E eu não tenciono morrer hoje.”
Ele encostou a testa à dela, a respiração de ambos misturando-se no ar viciado do túnel. A obsessão dele por ela estava agora misturada com uma determinação mortal. “Tu és o meu segredo mais precioso, Ana. E eu vou guardar-te, mesmo que tenha de destruir o mundo para o fazer.”
Eles continuaram a avançar, mas o som de vozes e passos ecoou atrás deles no túnel. Eles não estavam sozinhos. Os perseguidores tinham encontrado a entrada.
“Corre!” sussurrou Ricardo.
Eles emergiram do túnel num canal de irrigação nos arredores da cidade, exaustos e cobertos de lama. A luz do amanhecer começava a surgir no horizonte, mas não trazia esperança, apenas a certeza de que a caçada seria agora à luz do dia.
Ricardo parou e olhou para o antebraço de Ana. A tatuagem parecia brilhar sob a luz ténue. Ele pegou no braço dela e beijou o desenho, um gesto que foi ao mesmo tempo terno e arrepiante.
“Eles sabem o que isto é, Ana. A minha mãe sabe. O General Varela sabe. E eles vão usar todos os recursos para te apanhar.”
“Então temos de usar a chave antes deles,” disse Ana, a determinação superando o medo. “Temos de encontrar um scanner e revelar o que o Pedro escondeu.”
“Eu conheço um lugar em Madrid,” disse Ricardo, os olhos fixos na estrada ao longe. “Um hacker que me deve a vida. Mas chegar lá vai ser um inferno.”
Subitamente, o som de um helicóptero começou a crescer no céu. Uma luz de busca varreu o canal, aproximando-se perigosamente deles.
“Abaixa-te!” Ricardo empurrou Ana para a vegetação densa à beira do canal.
O helicóptero passou por cima deles, a luz de busca falhando-os por meros metros. Ana sentia o coração a bater contra as costelas. Ela olhou para Ricardo e viu que ele estava a olhar para ela com uma intensidade que a assustava. Não era apenas proteção; era uma fome, uma necessidade de a possuir completamente, de a fundir consigo mesmo para que ninguém mais a pudesse tocar.
“Se nos apanharem…” começou Ana.
“Não nos vão apanhar,” interrompeu ele, a voz carregada de uma promessa sombria. “Porque se chegar a esse ponto, eu prefiro matar-te eu mesmo do que deixar que eles te levem.”
O choque daquelas palavras paralisou Ana. A obsessão de Ricardo tinha atingido um nível perigoso. Ele amava-a, mas era um amor que beirava a loucura, um amor de máfia onde a posse era absoluta.