Capítulo 6: Sangue e Lealdade

1355 Words
A escuridão do bunker era absoluta, mas os sentidos de Ana estavam mais aguçados do que nunca. O cheiro a terra húmida e metal frio misturava-se com o som abafado de passos pesados sobre a sua cabeça. Cada disparo que ecoava na casa acima parecia um golpe direto no seu peito. Ela segurava o rádio com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos, a respiração curta e silenciosa, como Ricardo lhe tinha ordenado. Lá fora, o silêncio do Alentejo tinha sido estilhaçado. Ricardo movia-se pelas sombras da casa com a precisão de um predador que conhecia cada centímetro do seu território. Ele não estava apenas a lutar pela sua vida; estava a lutar pela única coisa que lhe restava de humanidade: Ana. Os homens enviados pela sua mãe não eram meros capangas; eram profissionais, treinados para eliminar qualquer obstáculo ao nome Monteiro. Mas eles tinham subestimado o desespero de um homem que não tinha mais nada a perder. Um estrondo violento sacudiu o teto do bunker. Ana ouviu o som de vidro a partir-se e um grito de dor que foi abruptamente silenciado. O seu instinto de jornalista, a sua necessidade de ver e relatar, lutava contra o medo paralisante. Ela não podia ficar ali sentada enquanto Ricardo enfrentava um exército sozinho. Lentamente, Ana subiu a pequena escada de madeira que levava ao alçapão escondido sob a ilha da cozinha. Ela empurrou-o apenas alguns milímetros, o suficiente para ver o que se passava. A cozinha estava mergulhada na penumbra, iluminada apenas pelos flashes intermitentes dos disparos e pelas luzes dos faróis dos carros lá fora que varriam as janelas. Ela viu Ricardo. Ele estava encostado à parede junto à porta da sala, a respiração controlada, a pistola firme na mão. O seu rosto, normalmente impecável, estava manchado de sangue e pólvora. Ele parecia um estranho, uma versão sombria do homem que a tinha beijado horas antes. “Ricardo!” sussurrou ela, mas o som foi abafado por uma nova rajada de tiros que estilhaçou os armários da cozinha acima dela. “Eu disse-te para ficares lá em baixo!” rugiu ele, sem olhar para trás, enquanto disparava dois tiros precisos em direção ao corredor. “Eles são demasiados, Ricardo! Temos de sair daqui!” “Não há para onde ir, Ana! Eles cercaram a casa!” Nesse momento, uma granada de fumo foi lançada pela janela da sala, prechendo rapidamente o espaço com uma névoa densa e acre. Ana tossiu, sentindo os olhos arderem. Ela saiu completamente do bunker, rastejando pelo chão da cozinha em direção a Ricardo. “O carro das traseiras,” disse ela, lembrando-se de um velho jipe que vira coberto por uma lona perto do celeiro quando chegaram. “Se conseguirmos chegar lá…” Ricardo olhou para ela, a surpresa momentânea nos seus olhos dando lugar a uma determinação feroz. “É uma hipótese. Mas temos de atravessar o pátio aberto. É um suicídio.” “É a nossa única hipótese,” insistiu ela, agarrando-lhe o braço. A tatuagem no seu antebraço parecia arder contra a pele dele. Ricardo assentiu. Ele trocou o carregador da pistola com uma rapidez mecânica. “Ouve-me bem. Quando eu der o sinal, corres para a porta das traseiras. Não olhes para trás. Eu vou dar-te cobertura.” “Ricardo…” “Corre, Ana! Agora!” Ele levantou-se e começou a disparar freneticamente em direção ao fumo, criando uma distração. Ana levantou-se e correu. O ar frio da noite atingiu-a como uma bofetada enquanto ela atravessava a porta das traseiras. O pátio parecia ter quilómetros de extensão. Ela ouvia as balas a zunirem perto dos seus ouvidos, atingindo as paredes de pedra da casa. Ela chegou ao celeiro, os pulmões a arderem, e puxou a lona do jipe. Era um modelo antigo, mas robusto. Ricardo apareceu logo atrás dela, saltando para o lugar do condutor enquanto Ana entrava no lado do passageiro. “Abaixa-te!” gritou ele enquanto ligava o motor. O jipe rugiu, ganhando vida com um som metálico. Ricardo engatou a marcha atrás e acelerou, atravessando a vedação de madeira e entrando pelo campo de sobreiros. Os carros dos perseguidores tentaram segui-los, mas o jipe tinha a vantagem em terreno acidentado. Ricardo conduzia como um louco, desviando-se de árvores e rochas na escuridão total, usando apenas a sua memória do terreno. Após o que pareceram horas de uma perseguição frenética, as luzes dos perseguidores começaram a distanciar-se. Ricardo não abrandou até chegarem a uma estrada de asfalto estreita, a quilómetros de distância da propriedade. O silêncio voltou a cair sobre eles, mas desta vez era um silêncio quebrado pela respiração pesada de ambos e pelo som do vento a passar pelas janelas abertas. Ana olhou para as suas mãos; estavam cobertas de pó e pequenos cortes. Ela olhou para Ricardo. Ele tinha um corte profundo na testa e o seu ombro esquerdo parecia estar a sangrar. “Estás ferido,” disse ela, a voz a tremer. “Vou ficar bem,” respondeu ele, embora a sua voz soasse fraca. “O que importa é que saímos de lá.” “Para onde vamos agora? Eles vão continuar a procurar-nos.” Ricardo olhou para o relógio no painel. “Para a fronteira. Tenho um contacto em Espanha que nos pode ajudar a desaparecer por uns tempos. Mas antes disso, preciso de te contar uma coisa, Ana. Algo que o Pedro me disse antes de… antes de eles o apanharem.” Ana endireitou-se no banco, a curiosidade jornalística voltando a despertar apesar do trauma. “O que é que ele disse?” “A AquaPura não foi encerrada apenas por causa da minha mãe,” começou Ricardo, a sua voz carregada de uma nova gravidade. “Havia um terceiro parceiro silencioso. Alguém que queria a tecnologia para fins militares. Alguém que tem ligações ao governo.” “Quem?” “O nome dele é General Varela. Ele é um dos homens mais poderosos do país e um aliado próximo da minha família. Se a tecnologia da AquaPura fosse a público, revelaria um esquema de corrupção que derrubaria metade do parlamento. É por isso que eles estão tão desesperados para nos calar. Não é apenas sobre o nome Monteiro; é sobre a sobrevivência de todo um sistema.” Ana sentiu um nó no estômago. A história era muito maior do que um romance proibido ou uma disputa de máfia. Era uma conspiração nacional. E ela tinha a prova — ou pelo menos, a chave para a encontrar. “Onde está a prova, Ricardo?” Ele olhou para ela, um sorriso triste nos lábios. “Está contigo, Ana. O Pedro disse que escondeu os ficheiros encriptados num servidor que só pode ser acedido através de uma chave biométrica única. Uma chave que ele codificou na tua tatuagem quando te abordou no hall das Indústrias Monteiro.” Ana olhou para o seu antebraço, para o desenho abstrato que ela pensava ser apenas arte. “O quê? Como é que isso é possível?” “Ele usou uma tinta especial, invisível a olho nu, mas que contém micropartículas que podem ser lidas por um scanner específico. Ele sabia que tu eras a única pessoa em quem podia confiar para levar a história até ao fim. Ele marcou-te, Ana. Tu és a prova viva.” O choque paralisou-a. Ela não era apenas uma testemunha; ela era o próprio ficheiro. A razão pela qual a estavam a caçar não era apenas por estar com Ricardo, mas pelo que ela carregava na sua própria pele. “Então, enquanto eu tiver esta tatuagem, eu sou um alvo,” disse ela, a voz m*l saindo num sussurro. “Sim,” respondeu Ricardo, pegando-lhe na mão. “Mas também és a única esperança de destruir este império de sombras. E eu vou estar ao teu lado, Ana. Até ao fim.” O jipe continuou a avançar pela noite, em direção à fronteira e ao desconhecido. O romance proibido tinha-se transformado numa missão de justiça, e o amor entre o herdeiro e a jornalista era agora a única luz num mundo mergulhado na corrupção.
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