Capítulo 16: O Labirinto da Dor

1803 Words
O despertar foi um mergulho em água gelada. Ana sentiu a consciência voltar como uma chicotada, acompanhada por uma dor de cabeça lancinante e o sabor metálico do gás lacrimogéneo ainda presente na sua garganta. Ela tentou mover as mãos, mas o som metálico de correntes a bater contra o metal frio confirmou o seu pior medo. Estava presa. A sala era pequena, iluminada por uma luz fluorescente branca e intermitente que fazia os seus olhos arderem. As paredes eram de betão nu, húmidas e sem janelas. Ana estava sentada numa cadeira de metal aparafusada ao chão, os seus pulsos e tornozelos presos por algemas pesadas. “Ricardo…” sussurrou ela, a voz m*l saindo. “Estou aqui, Ana. Não olhes para o lado. Olha para mim.” A voz de Ricardo veio da sombra à sua frente. Ele estava preso de forma diferente, suspenso por correntes que vinham do teto, os seus pés m*l tocando o chão. Ele estava sem camisa, revelando os hematomas da queda em Madrid e o ferimento de bala no ombro, que agora sangrava novamente, manchando as suas calças escuras. Mas eram os seus olhos que aterrorizavam Ana: eles brilhavam com uma obsessão febril, uma fúria contida que parecia prestes a explodir. “Tu estás bem?” perguntou ele, a voz rouca de dor mas carregada de uma possessividade que nem as correntes podiam quebrar. “Eles tocaram-te? Se eles te tocaram, eu juro que vou queimar este lugar com eles lá dentro.” “Eu estou bem, Ricardo. Só estou presa.” “Eles não vão manter-nos assim por muito tempo,” disse ele, os músculos do seu peito contraindo-se enquanto ele tentava libertar-se. “O Varela quer a chave. Ele quer o que está na tua pele, Ana. E ele sabe que a única maneira de te fazer falar é através de mim.” A porta de aço da sala abriu-se com um som pesado e hidráulico. O General Varela entrou, caminhando com a confiança de um homem que já se sentia o dono do país. Ele não usava farda, mas um fato cinzento impecável que contrastava com a sujidade e o sangue da sala. Atrás dele, Isabela Monteiro entrou, o seu rosto uma máscara de desprezo e triunfo. “Uma reunião de família tão tocante,” disse Isabela, aproximando-se de Ricardo. Ela estendeu a mão e tocou no ferimento do filho, apertando-o com uma crueldade deliberada. Ricardo não gritou, mas Ana viu os seus dentes rangerem. “Olha para ti, Ricardo. O herdeiro de um império, reduzido a um animal acorrentado por causa de uma… jornalista de terceira categoria.” “Deixa-o em paz, Isabela!” gritou Ana, as correntes nos seus pulsos tilintando enquanto ela se debatia. Isabela virou-se para ela, um sorriso frio nos lábios. “Ah, a pequena heroína. Sabes, Ana, eu quase admiro a tua persistência. Mas a tua utilidade acabou. O General já tem a unidade de dados. Só precisamos da descodificação final que está na tua tatuagem… ou no que resta dela.” O General Varela aproximou-se de Ana, segurando um tablet que exibia os códigos que eles tinham tentado transmitir. “O Zero foi muito útil antes de morrer, Senhorita Silva. Ele revelou que a chave biométrica precisa de um impulso nervoso específico para ser ativada. Um impulso que só ocorre sob stress extremo ou… dor.” Ana sentiu o sangue gelar. “O Zero está morto?” “Uma ponta solta necessária,” respondeu o General com indiferença. “Agora, vamos ao que interessa. Ricardo, tu sempre foste o ponto fraco da tua mãe. Mas hoje, vais ser a ferramenta da minha vitória. Se a Ana não cooperar, cada minuto de silêncio dela será pago com um pedaço da tua pele.” “Não!” gritou Ana. “Eu dou-vos o que quiserem! Deixem-no!” “Não dês nada, Ana!” rugiu Ricardo, o seu corpo balançando nas correntes. “Ele está a mentir! Ele vai matar-nos de qualquer maneira assim que tiver o que quer! Não deixes que ele vença!” O General fez um sinal a um dos guardas que estava na sombra. O homem aproximou-se de Ricardo com um bastão elétrico. O choque foi imediato e brutal. O corpo de Ricardo arqueou-se violentamente, os seus músculos contraindo-se sob a descarga de alta voltagem. Ele soltou um grito sufocado, mas os seus olhos permaneceram fixos em Ana, cheios de uma determinação obsessiva. “Para! Por favor, para!” Ana estava a chorar agora, a sua fúria transformada em desespero puro. “O código, Ana,” disse o General, a voz calma. “Diz-me a sequência de ativação da tinta biométrica.” “Eu não sei! O Pedro nunca me disse a sequência! Ele disse que era automática!” “Mentira,” disse Isabela, aproximando-se de Ana e dando-lhe uma bofetada que fez a sua cabeça girar. “O Pedro era um romântico incurável. Ele desenhou a chave para reagir à pessoa que tu mais amas. Ele sabia que o Ricardo seria o teu escudo. A sequência é a frequência cardíaca dele combinada com a tua.” Ana olhou para Ricardo, que estava ofegante, o suor escorrendo pelo seu corpo. A revelação de Isabela fazia um sentido terrível. O Pedro tinha criado uma chave que não era apenas tecnológica, mas emocional. Para abrir os ficheiros finais, eles tinham de estar juntos, as suas emoções em sintonia, o seu amor e obsessão servindo como o código final. “Vês, Ana?” disse o General, ligando um sensor ao braço de Ricardo e outro ao braço de Ana. “O sistema está à espera da vossa sincronização. Mas para isso, precisamos que o Ricardo esteja num estado de… excitação extrema. E a dor é a forma mais rápida de lá chegar.” Outro choque atingiu Ricardo. Desta vez, ele não conseguiu conter o grito. Ana sentia cada descarga como se fosse no seu próprio corpo. A ligação entre eles, alimentada pela obsessão de Ricardo e pelo amor desesperado de Ana, estava a ser usada como uma arma contra eles. “Ricardo, olha para mim!” gritou Ana, tentando focar a atenção dele. “Não penses na dor! Pensa em nós! Pensa no Alentejo, no rio… pensa no que me disseste na carrinha!” Ricardo levantou a cabeça, o seu rosto uma máscara de agonia, mas os seus olhos encontraram os dela. No meio da tortura, a obsessão dele tornou-se a sua salvação. Ele começou a rir, um som sombrio e desafiador que ecoou pela sala de betão. “É isto que tens, Varela?” cuspiu Ricardo, o sangue escorrendo do seu lábio partido. “Tu pensas que a dor me vai quebrar? Eu fui criado pela Isabela Monteiro. Eu nasci na dor! A única coisa que me mantém vivo é ela! E tu nunca vais ter o que queres, porque o meu coração pertence-lhe, e ele bate num ritmo que tu nunca vais entender!” O General, perdendo a paciência, aumentou a voltagem. A sala foi preenchida pelo som do arco elétrico e pelo cheiro a ozono e carne queimada. Ana gritava, o seu próprio coração batendo descompassado, a sua tatuagem começando a brilhar com uma luz azul intensa sob a pele. Os ecrãs no tablet do General começaram a mostrar a descodificação. “Está a funcionar!” exclamou Isabela, os olhos brilhando de ganância. “Mais! Precisamos de mais intensidade!” Mas Ricardo, num esforço supremo de vontade, fechou os olhos e começou a controlar a sua respiração. Ele estava a usar as técnicas de meditação e controlo que o seu pai lhe ensinara em segredo. O seu ritmo cardíaco começou a baixar, estabilizando-se apesar dos choques. A luz na tatuagem de Ana começou a desvanecer-se. “O que estás a fazer?” rugiu o General. “Dá-lhe mais!” “Não vai funcionar, Varela,” sussurrou Ricardo, a voz fraca mas carregada de triunfo. “Tu podes torturar o meu corpo, mas não podes controlar o que eu sinto por ela. E sem o meu sentimento, tu não tens a chave.” Isabela, furiosa, pegou numa faca e aproximou-se de Ricardo. “Se não vais cooperar, vou tirar-te o que te torna útil. Vou cortar-te os tendões, Ricardo. Vais passar o resto da vida a rastejar.” “Faz isso,” disse Ricardo, olhando-a nos olhos. “E prova ao mundo que és o monstro que todos dizem que és. Mas lembra-te: se eu morrer, a chave morre comigo. E tu ficas sem nada.” Isabela hesitou, a faca tremendo na sua mão. O General Varela agarrou-lhe o pulso. “Basta, Isabela. Ele tem razão. Morto ou incapacitado, ele não nos serve de nada. Temos de mudar de tática.” Ele virou-se para Ana, um sorriso c***l surgindo nos seus lábios. “Se a dor dele não te faz falar, talvez a tua dor o faça a ele. Guardas, tragam o soro.” Um guarda aproximou-se com uma seringa cheia de um líquido avermelhado. Ana sentiu o pânico subir-lhe pela garganta. Ela sabia o que era aquilo: um alucinogénio experimental que a AquaPura estava a desenvolver para interrogatórios. “Não!” gritou Ricardo, lutando contra as correntes com uma fúria renovada. “Varela, se lhe tocares com isso, eu mato-te! Eu juro que te mato!” “Tu não estás em posição de jurar nada, Ricardo,” disse o General, injetando o líquido no braço de Ana. Ana sentiu o mundo começar a girar instantaneamente. As paredes da sala começaram a derreter, a luz fluorescente tornou-se um sol cegante. Ela via Ricardo, mas ele estava a transformar-se num monstro, depois numa criança, depois num cadáver. Os seus piores medos começaram a ganhar vida à sua volta. “Ricardo… ajuda-me…” murmurou ela, a sua mente perdendo-se no labirinto da droga. “Ana! Ouve a minha voz! Não olhes para o que estás a ver! Foca-te em mim!” Mas a voz de Ricardo parecia vir de quilómetros de distância. Ana estava a cair num abismo de terror, e a sua tatuagem começou a brilhar novamente, desta vez com uma luz vermelha e errática. O sistema de descodificação estava a captar o caos emocional dela. “Está a resultar!” disse o General, observando os dados a fluírem. “A agonia mental dela é a chave final!” O capítulo terminava com Ana gritando no meio das suas alucinações, enquanto Ricardo, suspenso pelas correntes, assistia impotente à destruição da mente da mulher que amava. O cliffhanger era devastador: Ana estava a perder a sanidade, o General estava a obter os códigos finais para o seu golpe de estado, e a obsessão de Ricardo, que antes os salvara, era agora a corda que os enforcava. Estavam no fundo do abismo, e a luz parecia ter-se apagado para sempre.
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