CAPÍTULO 1: O Despertar da Fera
POV – VALENTINA ORTEGA
O som de um ferrolho correndo é algo que nunca abandona os seus ouvidos. Não é apenas metal contra metal; é o som da interrupção de uma vida. Por cinco anos, esse foi o meu despertador, minha canção de ninar e minha sentença. Mas hoje, o som foi diferente. O eco não morreu no final do corredor das celas. Ele se expandiu.
— Portão principal abrindo! — a voz da guarda Miller ecoou, mas não havia o habitual tom de escárnio. Havia respeito.
Eu caminhei com a coluna reta, os ombros encaixados e o queixo paralelo ao chão de concreto. Cada passo que eu dava era uma declaração de guerra contra o destino que tentou me esmagar. Eu vestia roupas simples, as mesmas que usei quando entrei, agora levemente folgadas em um corpo que não era mais de uma adolescente de dezessete anos, mas de uma mulher forjada em ferro e cicatrizes.
Minhas mãos, escondidas nos bolsos do casaco gasto, estavam fechadas em punhos. As juntas dos dedos tinham calos que contavam histórias de sacos de pancada improvisados e rostos de detentas que tentaram tirar minha vida no primeiro ano. Elas aprenderam rápido: Valentina Ortega não sangra em vão.
Ao chegar no último portão, aquele que separa o inferno do asfalto frio de Chicago, parei. A sargento Hayes, uma mulher que já viu de tudo naquele presídio, estava lá. Ela não me revistou. Ela apenas acenou com a cabeça.
— Você está saindo, Ortega. Tente não voltar. — Ela disse, mas seus olhos diziam outra coisa. Ela sabia que eu era a única coisa que mantinha a ordem naquela ala.
— Eu não vou voltar, Hayes. Da próxima vez que eu ouvir um portão fechar, eu estarei do lado de fora trancando alguém lá dentro.
Ela soltou um riso seco e apertou o botão. O portão pesado de metal rangeu, revelando a luz pálida e o vento cortante de Chicago. O ar gelado chicoteou meu rosto, entrando nos meus pulmões como se fosse a primeira vez que eu respirava de verdade. Não tinha cheiro de desinfetante barato ou de medo. Tinha cheiro de fumaça, asfalto e oportunidade.
Eu atravessei a linha amarela. Um passo. Dois. O mundo era vasto demais, barulhento demais. Mas eu não tremi. Eu sou a Rainha das Sombras, e as sombras agora iam se expandir por toda essa cidade.
Meus olhos percorreram o estacionamento cinzento até pararem no homem encostado em um carro antigo, mas impecavelmente limpo. Gustavo. Meu irmão. A única ponte que sobrou entre a Valentina que amava flores e a Valentina que agora só conhecia a pólvora e o sangue.
POV – GUSTAVO ORTEGA
Meus dedos tamborilavam no teto do carro, um hábito nervoso que eu nunca consegui perder. Eu olhava para aquele portão como se ele fosse um monstro de metal que engoliu minha família inteira. Cinco anos. Sessenta meses. Mil oitocentos e vinte e cinco dias vendo minha irmã através de um vidro reforçado, vendo-a se transformar em algo que eu m*l reconhecia, mas que eu amava com cada fibra do meu ser.
Eu não luto mais. Abandonei os ringues no dia em que nosso pai se foi. A luta levou tudo de nós: nossa casa, nossa paz, o sorriso da nossa mãe e, finalmente, a liberdade da Val. Eu escolhi os livros, os números, o trabalho honesto e exaustivo. Trabalhei em dois empregos, fiz turnos dobrados na logística, tudo para pagar os advogados que finalmente conseguiram provar que a legítima defesa naquela noite de horror não deveria ter custado cinco anos da vida dela.
Quando o portão se abriu, meu coração disparou de um jeito que nenhum treino de cardio jamais conseguiu fazer.
Lá estava ela.
Valentina não caminhava; ela patrulhava o chão. A pequena Val de dez anos, que ria enquanto tentava me dar uma rasteira, tinha desaparecido por completo. Aquela mulher saindo dali tinha um olhar que poderia congelar o inferno. As tatuagens que subiam pelo pescoço dela eram como armaduras de tinta.
— Val... — minha voz saiu embargada, m*l audível contra o vento.
Eu não esperei que ela chegasse até mim. Eu corri. Eu ignorei o olhar duro dela, ignorei a postura de defesa que ela instintivamente assumiu quando alguém se aproximou rápido demais. Eu a envolvi em meus braços. Ela estava rígida no início, fria como o gelo de Chicago, mas então, senti o suspiro dela contra o meu ombro.
A tensão dela cedeu por apenas um segundo. O suficiente para ela me apertar de volta com uma força que mostrava que, por baixo daquela casca de guerreira, minha irmã ainda estava lá.
— Eu disse que tiraria você daí, não disse? — eu sussurrei, sentindo meus olhos arderem.
Ela se afastou um pouco, segurando meus ombros. Suas mãos eram firmes, seguras. Ela me analisou, de cima a baixo, como se estivesse verificando se eu estava inteiro, se alguém tinha me machucado enquanto ela estava fora.
— Você está magro, Gustavo. — Ela disse, a voz rouca e sem emoção, mas eu conhecia o brilho nos olhos dela. Era carinho. — Você trabalhou demais.
— Eu fiz o que precisava ser feito. A família Ortega não desiste, lembra? — tentei sorrir.
Valentina olhou para trás, para o presídio, e depois para os prédios distantes de Chicago que arranhavam o céu cinza. O olhar dela mudou. A suavidade momentânea foi substituída por uma determinação predatória.
— O tempo de apanhar acabou, Gustavo. — Ela disse, e eu senti um arrepio na espinha. — Eles tiraram cinco anos de mim. Eu vou tirar o resto da vida deles. Chicago vai descobrir que você não precisa de um terno para ser dono do mundo. Você só precisa saber onde bater.
Eu abri a porta do carro para ela. Eu sabia que ela não queria ouvir sobre paz ou sobre esquecer o passado. Valentina não queria uma vida comum. Ela queria o trono que nos foi roubado, e eu, mesmo odiando a violência, estaria ao lado dela para garantir que ninguém chegasse perto o suficiente para feri-la novamente.
POV – VALENTINA ORTEGA
Entrar no carro do Gustavo foi como entrar em uma cápsula do tempo. O cheiro de estofado e do aromatizante barato de baunilha que ele sempre gostou me atingiu com força. Ele começou a falar sobre o apartamento que conseguiu, sobre como a nossa mãe estava estável, embora ainda perdida em seu próprio mundo de sombras.
Eu o ouvia, mas minha mente já estava traçando rotas.
Enquanto passávamos pelos subúrbios em direção ao centro, eu via os cartazes, os carros de luxo e as pessoas caminhando apressadas. Elas não faziam ideia da sorte que tinham. Mas elas também eram cegas. Elas não viam quem estava nas sombras.
— Gustavo, onde estão as outras? — perguntei, interrompendo sua explicação sobre o novo emprego dele.
Ele suspirou, as mãos apertando o volante. Ele sabia de quem eu estava falando. As mulheres que saíram antes de mim. Bia, Marta e Sofia. Minhas generais. As mulheres que o sistema cuspiu e que eu recolhi.
— Estão em um galpão na zona industrial. Elas estão esperando por você, Val. Elas não aceitaram nenhum trabalho desde que saíram. Estão guardando cada centavo, treinando... esperando a Rainha delas.
Um sorriso de canto, o primeiro em anos, surgiu no meu rosto.
— Ótimo. Leve-me até lá primeiro.
— Você não quer ver a mamãe? Tomar um banho quente?
— Eu vou vê-la. Mas primeiro, eu preciso colocar meu plano em movimento. O crime organizado de Chicago se sente muito confortável ultimamente. Eles acham que ter dinheiro e armas é o suficiente para ter poder. — Olhei para minhas próprias mãos, abrindo e fechando-as. — Eles vão aprender que o verdadeiro poder é não ter nada a perder.
Eu não era mais a adolescente que foi presa por se defender. Eu era a mulher que ia construir um império de segurança tão impenetrável que até os demônios da máfia teriam que pedir permissão para passar.
O mundo dos Vitale, dos herdeiros arrogantes e dos homens que acham que podem comprar tudo, estava prestes a colidir com a realidade das ruas. E eu seria o impacto que eles não veriam chegar.
Chicago estava fria, mas eu era o incêndio que estava apenas começando.