CAPÍTULO SETE

2960 Words
No dia seguinte, na beira da cidade de Fhumnrig, alcançamos uma antiga, mas agora abandonada, estalagem velha de madeira onde Muaido me afirmou que estariam todos meus meios-irmãos e também bastardos de Tirários Qatel. O cavalo anão de Muaido puxava a carroça, coitado, já cansado e no seu limite. O cavalo de Ikiiki era mais resistente. Conseguia ser, já que era maior e carregava apenas um pequeno e magro ser sobre seu lombo ao invés de puxar uma carroça com um anão troncudo e uma griza humana. Achamos todos nossos pertences abaixo de uma árvore de ipê de flores vermelhas, cujas folhas verdes bem claras, quando secas, ficavam esbranquiçadas e cobriam todo o chão ao entorno da árvore. No dia anterior, fiquei boquiaberta com outra arte que ser griza despertada me proporcionava. Quando Ikiiki tirou os fragmentos congelados que perfuraram toda minha pele, foi questão de cinco minutos para coçar bastante e começar a se curar. Meio dia depois eu não tinha mais nem cicatrizes para contar história do que aconteceu em Guhji. Muaido conduziu seu cavalo direto até o estábulo e quando o anão, seus irmãos e seus primos cruzaram os olhos, correram um ao encontro dos outros. Muaido encostou sua testa nas testas dos outros anões, um por um, até o último. Por fim, me cumprimentaram num tradicional cumprimento humano, encaixando suas mãos na minha e balançando. Ikiiki parecia compartilhar da mesma vontade que os anões e sabia bem o cumprimentar deles, indo até eles e unindo sua testa com os dos anões, um por um. — Estão todos aqui? — Muaido perguntou. Um de seus primos deu um passo à frente. Sua expressão carregada. — Eu estava com três bastardos. Três cidades antes de Guhji perdi um deles num ataque dos soldados de Biermoni. Cerrei meu maxilar. Era um irmão a mais que perdi na vida por causa do rei bastardo. Muaido estendeu seu braço e os dois primos agarraram cada qual o cotovelo um do outro, com a palma da mão, unindo os antebraços um do outro. — Não se culpe, primo — Muaido disse. — Salvamos o máximo que pudemos. Um anão de cabelo loiro de dreads longos, amarrados para trás, numa tira de pano, me encarou. — Qual sua idade, vossa alteza? — Seu sotaque era pesado, diferente do sotaque de Muaido. — Tenho treze anos, quase quatorze — respondi. Outro anão, um mais ruivo agora deu um passo à frente. Enquanto isso, ouvi alguém comentar lá atrás: — Tem a idade dos maiores lá dentro. — Qual sua data de nascimento, vossa alteza? — o anão ruivo me perguntou. Olhei para Muaido. O que queriam com essas perguntas? Descobrir se eu realmente era filha do rei Tirários? — Minha mãe falou que sou filha do rei falecido — comentei. Muaido riu, abaixou sua cabeça e pousou sua mão em meu ombro. — Eles querem saber só sua idade — Muaido comentou. — Eu levei todas as mulheres ao rei. Sei que você é bastarda dele. Olhei para os lados. A testa franzia sozinha. Todos me olhavam como se esperassem aquela resposta com tanta importância que eu não entendia o motivo. — Nasci no dia oito de Nazesi de 495. Uma contemplação nasceu no rosto de alguns anões. Outros pareciam pensar profundamente, fazendo algum cálculo. O primeiro anão se curvou perante mim, outros foram logo atrás e alguns, tão perdidos quanto eu, se curvaram com hesitação. — É ela a... — É ela! — Muaido afirmou com tom sereno, curvando-se ao meu lado, Ikiiki fazia o mesmo e eu encolhi os braços até perto do b***o e olhava em volta. — Eu pedi para nã... — Que os deuses abençoem a rainha! — Muaido disse. Estatelei os olhos e mudei todas as expressões de estranheza para susto. Uma sensação estranha tomou conta de mim e todos os pelos do meu corpo se arrepiaram, subindo das costas até a nuca. — Que os deuses abençoem a ainda não nomeada rainha Alleumena Qatel, filha de Tirários Qatel — Muaido aumentou o tom. Todos repetiram o que ele disse. — A verdadeira herdeira do trono de cervo! A primeira na verdadeira linha de sucessão. A herdeira do reino de Estarim! Não existia uma reação adequada para aquilo, então me mantive paralisada, com as mãos abertas, alguns dedos levemente curvados, outros esticados, os braços encolhidos, olhando estranhada e assustada para tudo aquilo. Só querendo correr para a minha vida normal outra vez. A imagem que me veio à cabeça ali foi vendo o rei Tirários Qatel, meu... pai, andando na rua e vendo toda aquela reverência a ele e ele apenas sorrindo, enquanto cavalgava e olhava para todos. Agora, na memória, por algum motivo, me destaco e parece que tem apenas ele e eu naquele dia. Diferente da realidade, na imaginação, consigo vê-lo me olhando e me reconhecendo na multidão e, eu que reverenciava, me levando como sua igual no meio da multidão. Pisquei rápido quando todos voltaram a ficar de pé. Se meu sangue fosse vermelho, eu ficaria ruborizada agora. — Têm certeza que sou a mais velha? — perguntei. Eles assentiram com a cabeça. — Seus irmãos estão no sótão da estalagem — um anão me informou. — Quer ir até lá conhecer eles? Olhei para Ikiiki e Muaido. Eles assentiram com a cabeça, mas ao invés de me deixarem ir sozinha, me conduziram para dentro da construção e subimos os lances de escadas até nos depararmos com a porta do sótão. O lugar era mais velho do que dava a imaginar, o vendo só pelo lado de fora. Algumas paredes de madeira faltavam madeiras, outras estavam quebradas e esfareladas. Atrás da porta, sons denunciavam que realmente várias crianças estavam ali, mas parte de mim não queria atravessar aquela batente, independentemente de ver crianças do meu sangue ou não. Quando pensava na palavra irmão, me vinha Derla, Nola, Jebal, Neau, Feliori e especialmente Urnelo na cabeça. Estes nunca serão substituídos e, sabendo que nenhum chegará ao nível do que eles representaram na minha vida, eu me negava a viver numa fantasia que me faria desejar colocar aqueles pirralhos no lugar dos meus seis irmãos mortos. — Eles querem conhecer a irmã mais velha — Muaido articulou. — Dê uma chance a eles. Esses pobres garotos e garotas também perderam suas famílias e tudo o que têm agora são uns aos outros. Ele parecia que lia minha cabeça. Se fosse Ikiiki a falar isso eu desconfiaria, já que ela faz coisas... impossíveis acontecerem. Olhei para Muaido. A relutância doía no meu peito. — Por que, afinal, vocês estão fazendo isso? Por que os anões estão nos ajudando? O que ganham com isso? Muaido e Ikiiki se entreolharam. Imagino que não era a pergunta que eles esperavam receber agora. Nem eu sabia que estava com essa pergunta tão na ponta da língua. — Nunca ouviu que gostamos de nos intrometer em assuntos alheios? — ele perguntou. — Gostamos de ordem. Bufei, sem perceber, fazendo Muaido arquear as sobrancelhas grossas e ruivas. Não bufei por duvidar da lealdade dele e do que disse sobre os anões serem enxeridos; bufei por ele afirmar que gostam de ordem. Isso é tudo o que eles não são. Organizados. — Não entendo por que mentiríamos o nosso motivo de estar ajudando os principados de Estarim — ele me questionou, sério, imaginando eu que o tenha ofendido. — Não tenho dúvida de sua intenção, Muaido — respondi. — Então não ria de um homem na cara dele, sendo você ou não a herdeira de um trono, princesa. — Eu não sou a rainha? — perguntei. — É a legítima rainha, mas enquanto não é legitimada, continua sendo uma princesa — Ikiiki explicou. Olhei para Muaido outra vez e o peguei me encarando sério e, sem desviar os olhos levou a mão até a porta, girou a manivela e escancarou a porta, me forçando a olhar aquelas pobres crianças que pararam imediatamente de brincar ao me perceberem. Tinha pelo menos umas doze ou mais ali. Olhei para eles. Um sorriso nasceu no meu rosto e analisei cada rosto ali dentro. Meus ombros tensos se soltaram e todos os nós de preocupação no meu rosto se desfizeram. — Agora entra e diz aos seus irmãos que tudo ficará bem — ele exigiu em baixo som. Virei e olhei para Muaido. Minha mão alcançou a maçaneta e puxei a porta até quase a fechar por inteiro. — Nada vai ficar bem — retruquei. — Podemos estar em outro reino, mas não me sinto segura ainda. — E porque você acha isso? — ele exigiu a resposta. — Por que vocês estão sonhando com o dia que me colocarão num trono que será impossível de eu ter. — Olhei para os lados. — Por que você está comprando esta briga? As coisas simplesmente não encaixam. Vocês me explicaram, mas não entendo. — O seu pai pediu — outro anão, este com o cabelo e a barba ainda mais vermelha que de Muaido, de menor estatura, disse, se aproximando. — Rei Tirários sabia que os filhos legitimados que ele tinha poderiam não ser dele, mas doente, na cama, pediu a Muaido que cuidasse das crianças bastardas que ele sabia serem dele, e pediu para que se alguma coisa acontecesse, nós os ajudássemos. Como somos leais à casa Qatel, prometemos que todo o clã Zerckatrum cuidaria de vocês. Quis reclamar com o fato de que Tirários Qatel sabia da minha existência e me reconhecia como filha, mas nunca teve o interesse em me reconhecer publicamente como tal. No entanto, me calei e engoli esse pensamento para outro momento. Suspirei, vencida pela situação. — Obrigada — agradeci. Dei um passo à frente e abri um pouco mais a porta, mas Muaido me parou, segurando firme no meu braço direito com a sua mão calosa de dedos curtos. — O que dirá a eles? Fixei os meus olhos nos dele e no momento certo disse: — Que tudo ficará bem, ué. Ele abriu os dedos em volta do meu braço e avancei mais na direção da porta, a abrindo. Suspirei o mais sutil possível e voltei a olhar nos olhos de cada um. Percebi que tinham alguns grandes, mais ou menos da minha idade. Alguns estavam deitados, mas olhando para mim. Dentre todos, havia um que era a pessoa que eu menos imaginei que fosse do meu sangue. O menino, cara de porco, da padaria da Barra estava ali. O mesmo que gritara para que os soldados me pegassem no mesmo dia do ataque aos principados de Nestta. Ele parecia estar tão perdido quanto todos os outros e quanto a mim. Afastei qualquer pensamento a respeito dele e foquei no mais importante. Fiquei no meio do quarto, olhando para os lados, girando em volta de meu próprio corpo. Não era difícil conversar com eles. Eu sempre fui a mais velha das filhas mulher de mamãe, por isso, acabava cuidando até de Urnelo, que era mais velho do que eu. Era parte do meu dia a dia saber levar os meus irmãos a fazerem o que eu queria que fizessem, sem que soubessem que eu queria que fizessem. Eu os encorajava, os instigava, mesmo sem eles perceberem, como mamãe havia me ensinado a fazer. E aqui eu só precisava repetir o que era comum para mim durante praticamente toda a minha vida. — Olá — eu disse, e as crianças me responderam mais do que rápido, como num coro. O restante dos mais velhos foram me respondendo de pouco em pouco, cada um no seu tom, no seu ânimo ou na falta dele. — É estranho estar aqui, todos juntos. Eu sei. — Apontei para os menores. — Talvez seja menos estranho para vocês. Mas para os maiores... — Procurei olhar rapidamente nos olhos de cada um, me perguntando os seus nomes e achando graça de olhar para aquelas crianças e pré-adolescentes e não saber o nome deles; os nomes dos meus irmãos, embora alguns me sejam conhecido de vista. São meus irmãos. Todos eles, contextualizei — Para os maiores chega até a ser aterrorizante. — Ri, ao mexer com a cabeça. — Somos príncipes e princesas, mas vivemos na miséria por tanto tempo que ter sangue real é impossível de se acreditar. Mas é o que somos. Temos o sangue do cervo real passando em nossas veias. — Bati no meu antebraço duas vezes, lembrando que já vi Tirários fazer isso durante um discurso perto de onde eu e mamãe fomos para comprar alguns metros de tecido para fazer roupas para nós, cerca de dois anos atrás. — Que belo começo de discurso, irmãzinha — um garoto alto e forte se levantou de sua cama e veio até mim. Semicerrei os olhos por não reparar o quão velho ele aparentava ser. Ele parecia ter uns quinze anos. — Mas você não parece estar aterrorizada. — Despojou um sorriso no rosto. Um malvado. — Você acha que eu queria estar aqui? — perguntei a ele. — Acha que eu não daria a minha vida se preciso para não estar conhecendo nenhum de vocês? Ele ergueu as sobrancelhas ao arregalar os olhos, à medida que eu ouvia pegadas vindo atrás de mim. — O que você acha que está fazendo? — Muaido interpelou em meus ouvidos, sussurrando. — Eu sei o que estou fazendo — sussurrei a ele de volta, levando o meu rosto para o lado. — Então você se mataria para não precisar nos ver? — o garoto voltou a me questionar, tentando inverter o sentido do que eu tentava dizer. — Sim. Eu preferiria morrer a estar aqui — confirmei, olhando nos olhos de cada um, até continuar. — Eu preferiria morrer a ver a minha família morrer. Eu preferiria que a minha mãe e os meus irmãos estivessem vivos a eu estar aqui e ter descoberto a existência dessas lindas pessoas na minha frente, só porque a minha outra família morreu. Vocês não desejariam isso também? Não desejam voltar atrás quando tudo estava certo na nossa vida? — Abri os braços na direção de meu irmão rebelde, acrescentando: — Eu não tenho pelo que mentir. É a verdade! É o que está no coração de todos. Todos queriam estar mortos a terem as suas famílias mortas. Ou queriam, no mínimo, que isso tudo não estivesse acontecendo. — Isso, continua — Muaido pediu sussurrando bem baixinho no meu ouvido. — Você está ganhando a confiança deles sendo sincera. — Mas está! — acrescentei por cima das últimas palavras sussurradas de Muaido. — E por isso, devemos começar a olhar para o futuro. Por mais que o passado nos pese na consciência. — Respirei fundo, olhando para aquelas crianças que por mais que estivessem com sorriso no rosto, estavam tão destroçadas quanto eu. Me lembrei de ver as camas dos meus irmãos derramando sangue até o chão e os meus olhos se encheram de lágrimas. Acrescentei enquanto chorava: — Eu sinto muito, irmãos, por tudo o que passaram. Eu realmente sinto muito. Eu não conheço vocês, eu não amo vocês ainda, mas tenho certeza que em apenas um dia estando ao lado de vocês e eu daria minha vida para não perder vocês do jeito que agora eu daria para ter tudo o que perdi, de volta. Vi alguns dos meus desconhecidos irmãos levantando o tronco da cama e prestando mais atenção em mim. Olhei para eles, para exibir que eu também sofria, tentando transmitir que não tinha problema se eles quisessem chorar também. — Mas eu quero que saiba que tudo vai ficar bem de agora em diante. — Apontei para Muaido ao me distanciar um pouco dele. — Os anões do clã Zerckatrum vão nos ajudar, vão nos dar um teto e vão nos tornar guerreiros para termos de volta o que é nosso por direito. E Daqui um tempo. — Dei de ombros. — Não sei quanto: alguns meses, alguns anos ou uma década. Talvez até em duas, voltaremos à Estarim e juntos derrubaremos quem quer que esteja lá. Quem quer que esteja no nosso trono. — Vi que alguns sorriram, mas sorrisos não era o suficiente para mim. Eu queria barulho. Eu sabia que é mais fácil ganhar uma criança pela euforia do que por um discurso chato que não servirá de muita coisa. — Estão comigo? — praticamente gritei, erguendo um pouco o meu braço esquerdo, na altura da minha cabeça. — Estamos! — alguns disseram. — Sim! — outros responderam. — Estou! — a minoria disse. — Mais alto! — gritei e olhei para Muaido com um sorriso no rosto, fazendo o anão rir também. — Estão comigo?! — Estamos! — quase todos gritaram em uníssono, menos o que tentava me desmoralizar na frente dos outros e o padeirozinho cara de porco, que continuou sentado na cabeceira da cama dele, me olhando sério, mas pelo menos não ria debochadamente da minha cara como uma loira que era magricela e alta, de cabelo amarelo vivo, com olhos azuis como a água do mar. Depois daquilo, nos conhecemos um por um, e durante o anticlaro, antes de partirmos, Muaido e Ikiiki nos separaram. Cada um dos irmãos e amigos de Muaido ficaram com uma dupla nossa, e eu acabei fazendo dupla com o padeiro. Pelo menos não fiquei com Titus, que era o que tentava me destruir enquanto eu falava, e nem com Calize, que ria debochada da minha tentativa de motivar todos eles. No fim, por estarmos em dezessete, uma das duplas se transformou em trio e cada um seguiu para um destino do mundo. Era mais seguro assim. Pois se formos achados, não morreremos todos de uma vez, sobrando sempre um herdeiro para o trono.
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