Capítulo 6: Ficada no Beco

1432 Words
PECKO Meu nome é Filipe, mas ninguém me chama assim. No morro, sou Pecko, e meu nome é conhecido em cada viela, cada esquina. Não é só porque eu sou filho do Sherek, o dono do pedaço. Meu velho tá no comando há quinze anos, liderando com mão de ferro. É um cara feio, ogro, e o apelido combina direitinho com ele, mas também é um homem que ninguém ousa desafiar. Respeito e medo são as moedas dele. Eu não pareço nada com meu pai, sou baixo, magro mas definido, moreno e as meninas piram em mim por que sou bonitão. Sendo o filho do Sherek, é claro que eu cresci com tudo o que quis. No morro, eu sou tratado como um reizinho. Todo mundo sabe que mexer comigo é o mesmo que assinar a própria sentença. E eu uso isso a meu favor. Sempre usei. Eu conheci a Lavínia na escola. Eu tinha 17 e ela 14. Era uma nerdzinha, sempre com os livros na mão e a cabeça baixa. Não era o tipo de garota que chamava atenção naquela época, mas tinha algo nela que me deixava curioso. Era quieta, mas firme, e inteligente pra c*****o. Foi ela que me ajudou a aprender a ler e escrever direito. Eu era o burro da classe, repetente, e ela teve a paciência que ninguém mais tinha, nem mesmo as professoras. Mas escola não era pra mim. Eu sabia disso. Depois de um tempo, larguei tudo e fui viver a vida que meu velho planejou pra mim. Enquanto eu crescia, Lavínia também crescia, e, de repente, aquela nerdinha magrela virou um mulherão. Eu lembro bem da última vez que vi ela antes disso. Eu tava sentado na escadaria, enrolando um baseado, quando ela passou. Cabelão loiro, shorts curto, e aquele corpo que parecia ter sido desenhado pra provocar. Não dava pra não mexer. — Tá bonita, hein, nerd? Tá virando gente grande! — Falei, rindo, enquanto soltava a fumaça do baseado. Ela parou na hora, virou pra mim e jogou o cabelo de lado, com aquele olhar furioso que era tão dela. — Cala a boca, Pecko! Não preciso de elogio de playboyzinho de morro. A voz dela era firme, mas o cheiro dela... p***a, o cheiro dela era diferente. Doce e forte ao mesmo tempo, me deu um baque. Enquanto ela falava, eu me levantei, sem nem pensar direito, e fui me aproximando. — Ah, é assim? — Murmurei, já bem perto. Ela deu um passo pra trás, mas era tarde. Antes que pudesse falar qualquer coisa, eu a agarrei pela cintura e colei minha boca na dela. Foi um beijo intenso, desesperado, mas cheio de vontade. Ela tentou resistir no começo, mas logo se entregou, mesmo que com raiva. A boca dela era quente, e eu só conseguia pensar em como ela tinha mudado tanto. Quando me afastei, ela me olhou com um misto de raiva e confusão, mas não disse nada. Só virou e saiu andando, o cabelo loiro balançando enquanto eu ficava parado, com o gosto dela ainda nos lábios. Aquele beijo mexeu comigo mais do que eu queria admitir. Desde então, Lavínia não saiu da minha cabeça. E eu sabia que, gostando ou não, ela ia acabar voltando pra mim. Porque, no final das contas, ninguém diz não pro Pecko. Uns dias depois, tava eu de novo na escadaria, fazendo nada, quando vi Lavínia passar com a amiga dela, a Patrícia. As duas tavam rindo de alguma coisa, mas, quando ela me viu, o sorriso dela morreu na hora. Não resisti. — E aí, nerd! Tá me devendo outro beijo gostoso daquele, hein! Ela parou de andar no mesmo instante. Patrícia olhou pra ela, confusa, mas Lavínia nem piscou. Só virou, com aquela expressão cheia de atitude, e veio andando até mim, enquanto Patrícia chamava: — Lavínia, bora! Ela ignorou a amiga e chegou bem perto, o suficiente pra eu sentir aquele perfume doce dela. Chegou no meu ouvido e cochichou: — Me encontra no beco 12, daqui a uma hora. Fiquei sem reação por um segundo, mas ela já tinha virado e continuado a caminhada, o cabelão balançando. Meu coração disparou. "É agora, p***a!" pensei. Nem perdi tempo. Fui pra casa, tomei banho, passei perfume, coloquei a melhor roupa que eu tinha e fui pro beco com antecedência. Fiquei lá, encostado na parede, tentando disfarçar a ansiedade. Quando vi ela chegando, parecia um sonho. Lavínia tava linda, com um shortinho e uma blusa que deixava a barriga à mostra. O jeito que ela andava, confiante, me deixou maluco. — Achei que não vinha mais, nerd. — Falei, com aquele sorrisinho safado. — Eu nunca prometo nada que não vou cumprir. — Ela respondeu, parando na minha frente. Sem pensar duas vezes, puxei ela pela cintura e colei a boca na dela. Foi um beijo quente, cheio de desejo. Minhas mãos começaram a explorar o corpo dela, descendo pela cintura, pelas coxas, e ela não fez nada pra impedir. Na verdade, parecia que ela tava curtindo. — p***a, Lavínia, você é um perigo. — Murmurei contra os lábios dela, minha voz rouca de tanta vontade. Mas, do nada, uma voz grave ecoou pelo beco: — TIRA ESSA MÃO DELA, PECKO! Virei rápido e vi ele: Tavão, ou Gringo, como o pessoal do morro chama. Alto, loiro, com aquele olhar de quem vai matar alguém. Ele veio andando direto pra gente, o rosto vermelho de raiva. — Que p***a é essa, Lavínia? — Ele perguntou, segurando o braço dela. — Não é da sua conta, Tavão! — Ela retrucou, mas ele nem ligou. Tavão me olhou como se quisesse me matar ali mesmo. — Se encosta nela de novo, Pecko, eu te arrebento. Ele puxou Lavínia pelo braço e a arrastou pra longe, enquanto ela olhava pra trás com um misto de raiva e arrependimento. Fiquei parado no beco, o gosto do beijo dela ainda na minha boca, enquanto a raiva subia. Ninguém mandava em mim, nem mesmo o Gringo. Isso tava longe de acabar. Tavão era outra história. No morro, ele era chamado de Gringo, e todo mundo sabia quem ele era de verdade, menos a família. Pra eles, ele era só o Gustavo, motoboy que trabalhava à noite, mas na real, o cara era o braço direito do meu pai, o Sherek. O Gringo era sangue frio. Não falava muito, mas quando agia, era pra resolver. E, no código do meu pai, resolver geralmente significava apagar alguém. Ele tinha aquele jeito calmo que deixava todo mundo desconfortável, porque, quando ele começava a bater, não parava até o serviço estar feito. Eu? Eu tinha respeito por ele, claro, mas também tinha medo. Não era vergonha admitir. Até os caras mais casca-grossa no morro mantinham distância. Mas dessa vez ele tinha passado dos limites. Empatar minha f**a com Lavínia? Na moral, isso era pessoal. E eu não ia deixar barato. Cheguei em casa puto da vida, joguei a camisa no sofá e sentei no degrau da varanda pra pensar. O gosto do beijo da Lavínia ainda tava na minha boca, e a lembrança do corpo dela encostado no meu me deixava maluco. Por que ele tinha que aparecer justo naquele momento? Meu pai entrou na sala, já com aquele jeito imponente. O Sherek não era de rodeios, e a cara dele dizia que ele sabia que algo tinha rolado. — Que cara é essa, moleque? — Ele perguntou, acendendo um baseado. — Gringo. — Respondi, bufando. — O cara me arrastou do beco, pai. Eu tava quase me dando bem com a Lavínia, e ele chegou empatando tudo. O velho deu uma tragada longa e soltou a fumaça devagar, me olhando com aquele olhar que podia cortar uma parede. — E você tá aqui reclamando? Tá com medo do Gringo? — Não é medo, pai... mas o cara é seu braço direito, e tá me desrespeitando. Ele riu, seco, quase debochado. — O Gringo é o Gringo, Pecko. Você sabe como ele é. E Lavínia... — Ele pausou, olhando pra mim. — Não brinca com fogo, moleque. Aquela garota é não é pra você, esquece ela. — Não é pra mim? Como assim? Ele não respondeu. Só deu mais uma tragada e saiu da sala, me deixando sozinho com meus pensamentos. Era óbvio que tinha mais coisa nessa história do que eu sabia. E agora, além de lidar com a raiva do Gringo, eu tinha que descobrir o que diabos tava acontecendo com Lavínia. Mas uma coisa era certa: eu não ia desistir dela. Nem agora, nem nunca.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD