CAPÍTULO DOIS

1953 Words
CAPÍTULO DOIS – Chester! – a recepcionista chamou. Lacey passou um breve – mas aflitivo – tempo de espera na recepção da melhor clínica veterinária de Wilfordshire, após ter corrido com Chester pelas ruas sinuosas de paralelepípedos em seu carro velho e usado. Levantou-se da cadeira plástica desconfortável da recepção e deu um puxão na coleira de Chester. Ele bufou, irritado – algo extremamente não-característico, Lacey notou, ansiosa –, e se arrastou lentamente atrás dela até a sala de tratamento. A veterinária, Lakshmi, ergueu os olhos quando entraram. Era uma mulher asiática baixinha, totalmente inundada por seu conjunto cirúrgico verde-escuro. Suas feições infantis a faziam parecer jovem demais para ter completado os anos de educação que sua profissão exigia. – Oh, minha nossa – ela exclamou depois de apenas uma olhada para a figura pesada de Chester. – Qual o problema aqui? Lacey engoliu em seco, apreensiva, enquanto Chester subia obedientemente na mesa de exames. – Ele não parece o mesmo – ela explicou. – Parece apático. Como se tivesse perdido seu brilho habitual. Lakshmi começou a examiná-lo, colocando um termômetro no ouvido e usando uma mini lanterna em seus olhos. Chester permitiu; ou estava confortável o bastante com Lakshmi para consentir, ou cansado demais do que quer que o afligia para resistir. – Acho que alguém está sofrendo de gripe canina – Lakshmi disse, desligando a lanterna com um clique e guardando-a no bolso de sua camisa. – Você tem outros animais em casa? – Em casa, não, mas ele passa quase todos os dias com a melhor amiga, Boudica – Lacey explicou. Depois, esclareceu às pressas: – Que também é um cachorro. – Bem, neste caso, talvez seja uma boa ideia deixá-lo aqui para que não transmita a infecção a ela. Posso mantê-lo em observação e prescrever diuréticos para prevenir a desidratação. Lacey sentiu seu coração partir em dois. Seu p***e cãozinho! – Mas eu nunca passei a noite sem ele desde que o adotei – ela disse, com pesar. As feições de Lakshmi se suavizaram em compreensão. – Você pode vir visitá-lo quando quiser. Na verdade, é o que eu recomendo. Ver um rosto familiar pode ajudar muito a reduzir o nível de estresse deles. Lacey mordeu os lábios. A ideia de Chester trancado em um canil nos fundos, completamente sozinho e confuso, fez com que começassem a tremer. – Por quanto tempo ele terá que ficar aqui? – ela perguntou. – Gripe canina parece um pouco com a gripe humana – Lakshmi explicou. – Então, pode chegar a duas semanas. – Duas semanas! – Lacey exclamou. Conseguia ouvir a tristeza alojada em sua garganta. – Sei que vai ser difícil – Lakshmi disse gentilmente. – Mas é para o melhor. Ele estará em boas mãos. Gostaria de dar entrada na internação? – Ela estendeu uma prancheta com um formulário de admissão cor-de-rosa, empurrando-o na direção de Lacey com expectativa. Apesar da dor agonizante em seu peito, Lacey pegou a caneta e assinou na linha pontilhada. Depois, abaixou a cabeça na curva do pescoço de Chester, deixando as lágrimas caírem no pelo dele discretamente. – Você vai ficar bem, garoto – ela murmurou. Chester choramingou com tristeza. Então, Lacey se endireitou e saiu da clínica veterinária depressa, antes que tivesse um colapso. Só quando estava a salvo em seu carro permitiu que as lágrimas caíssem livremente. Chester estivera a seu lado todos os dias desde sua mudança para Wilfordshire. Era sua sombra. Sua cara-metade. Seu parceiro de crime. Não, seu parceiro em solucionar crimes. Como suportaria duas semanas inteiras sem a presença reconfortante dele a seu lado? – Ah, não! – Lacey exclamou subitamente, arfando. Ela sairia da cidade por dois dias durante sua viagem secreta com Tom. Agora não poderia ir de jeito nenhum. Lakshmi tinha dito que visitas frequentes de alguém conhecido ajudariam Chester a lidar com o estresse. Ela não podia deixá-lo quando ele mais precisava. Estava amargamente desapontada; realmente estava ansiosa para a viagem romântica com Tom. Com um suspiro profundo de tristeza, Lacey pegou o celular na bolsa para ligar para ele e dar a notícia. Mas, antes que tivesse a chance, notou que tinha uma mensagem de Xavier Santino. Ela hesitou, torcendo os lábios, consternada. O espanhol era um contato de Lacey do mundo das antiguidades. Ele alegava ter conhecido seu pai desaparecido, Francis. No entanto, justamente quando Lacey decidiu que ele tinha segundas intenções românticas para estar em contato com ela, sugerindo que eles encerassem a comunicação entre eles, Xavier havia respondido, afirmando que sabia onde Francis estava. Lacey havia ponderado por horas se devia ou não responder. Não podia ter certeza se ele estava usando seu pai como isca para fisgá-la. No fim, o atrativo se provou difícil de resistir. O mistério do desaparecimento de seu pai era como uma enorme nuvem escura pairando sobre ela por onde fosse. Qualquer pista parecia uma tábua de salvação, mesmo se ela estivesse potencialmente atraindo problemas para sua vida. E, assim, ela havia reestabelecido contato com Xavier, que lhe dera a próxima peça enigmática do quebra-cabeças: Canterbury. Aparentemente, seu pai tinha sido avistado recentemente na cidade inglesa de Canterbury... Ela não sabia como processar aquilo. Durante anos havia repassado centenas de diferentes cenários em sua mente. Às vezes, reconfortava-se com a ideia de que ele havia falecido logo após abandonar a família de forma inexplicável, e que ele nunca tinha escolhido partir, ou talvez até mesmo estivesse a caminho de casa quando aconteceu. Então, assim que ela fazia as pazes com a ideia de que ele estava morto, sua mente mudava de direção, dizendo que ele optara por fugir porque não suportava sua esposa, Shirley, e suas filhas, Naomi e Lacey. A verdade era que, por mais que nenhuma resposta fosse satisfatória, qualquer resposta seria melhor do que não ter resposta alguma. Antes de abrir a mensagem de Xavier, Lacey tentou se lembrar que pergunta tinha enviado. Recentemente? Quando? – Sim, aquela era a última mensagem que tinha enviado. Porque havia uma grande diferença entre um avistamento de um ano ou de uma década atrás, ainda que ambos fossem deixá-la em parafuso, um estado do qual ela não tinha certeza se sairia. Ela se preparou e clicou no símbolo de envelope. As palavras “eu não sei” preencheram a tela. Lacey murchou. Parecia que Xavier estava enrolando, afinal. Amargurada com a decepção, Lacey saiu da tela e viu que o g***o que dividia com sua mãe e sua irmã no aplicativo de mensagens estava agitado. Dezenas de alertas de exclamação em vermelho-vivo piscaram para Lacey, exigindo atenção. Sua mãe e sua irmã eram conhecidas por seu melodrama, mas isso não impediu que Lacey imediatamente temesse o pior. Ela abriu o aplicativo de mensagens e viu que todos os alertas vinham de Naomi. Ao que parecia, ela enviara um bombardeio de perguntas. Perguntas muito estranhas... A que distância Wilfordshire fica da Escócia? A Inglaterra tem uma estação de monções? Tem muitos mosquitos no verão? Lacey estreitou os olhos, seus cílios ainda víscidos com as lágrimas. Estava completamente perplexa. Qual o motivo do interesse tão estranho e repentino de Naomi pelo Reino Unido? Ela respondeu: A Escócia fica a 800 km de distância. Não temos monções, mas chove bastante. Sim, tem mosquitos. Então, finalmente adicionou: Está tudo bem? A resposta de Naomi foi imediata. Era como se sua irmã mais nova estivesse literalmente de olhos grudados no celular, aguardando as respostas de Lacey para sua lista de perguntas bizarra. Tem montanhas em Wilfordshire? Lacey jogou as mãos para o ar em frustração. O que raios Naomi estava aprontando? Por que a súbita curiosidade? Não, Lacey respondeu. Tem penhascos. Por que está perguntando? Lacey não pôde evitar se perguntar se Naomi tinha descoberto alguma pista a respeito do pai delas – uma foto em uma montanha chuvosa, por exemplo –, mas provavelmente era querer demais. Naomi preferia fingir que o pai delas nunca tinha existido. Era muito mais provável que sua irmã estivesse participando de uma noite de quiz em algum bar. Seu celular continuou vibrando e apitando conforme mais perguntas estranhas de Naomi chegavam. Lacey suspirou e guardou o celular. Foi uma breve distração de sua tristeza por conta de Chester, mas não poderia ficar parada no estacionamento da clínica veterinária o dia todo; tinha uma loja para administrar. Lacey dirigiu até a loja e entrou. Com um só olhar para seu rosto manchado de lágrimas, Gina exclamou – Chester foi sacrificado! – Não! – Lacey refutou. – Ele está doente. Precisa ficar no veterinário por um tempo, em observação. Gina colocou uma mão no peito. – Graças a Deus. Você me assustou. Lacey soltou o corpo no assento diante do balcão, afundando a cabeça nas mãos. Só então percebeu que as mensagens de Naomi haviam a distraído completamente de ligar para Tom e cancelar a viagem a Dover. Ela olhou através da vitrine para a confeitaria no outro lado da rua, observando-o enquanto ele se movimentava habilmente pela loja, e deu um sorriso triste. Ela estava tão ansiosa para a viagem romântica com ele. – Terei que cancelar a viagem a Dover agora – Lacey disse com um longo suspiro. – Não posso deixar Chester sozinho enquanto está doente. Lakshmi disse que as visitas farão bem a ele. – Eu posso visitá-lo – Gina lhe disse. Lacey fez uma pausa. Ergueu a cabeça para encontrar o olhar de Gina. Depois, sacudiu-a. – Não posso te pedir isso. Você já faz muito. – Exatamente. O que é mais um afazer na minha lista? Lacey estava reticente. Às vezes, sentia que colocava exigências demais nos ombros de Gina. Recusava a ideia de se tornar uma daquelas chefes que esperava que os empregados se comportassem como assistentes pessoais, como sua antiga chefe em Nova Iorque fazia. Lacey meneou a cabeça. – Não. Não seria justo. Você n******e tomar conta da loja, cuidar de Boudica e, além disso, visitar Chester todos os dias. – E você n******e continuar trabalhando dia após dia sem descanso – sua amiga contestou. Ela colocou as mãos nos quadris e a encarou severamente. – Quando foi a última vez que tirou um dia de folga? Lacey começou a calcular em sua mente, mas Gina a parou antes que chegasse à resposta. – Exatamente! – Gina exclamou. – Você nem consegue se lembrar, de tanto tempo que faz! Olhe aqui, mocinha, estou te ordenando a ir viajar. Se você não for, eu me demito. Lacey sentiu os lábios começando a se curvar para cima. O que seria dela sem Gina? – Vou te trazer um presente de agradecimento – ela disse, mansa. – Não precisa! – Gina floreou. – Seu presente pode ser voltar relaxada e feliz. – Estou bem tensa ultimamente, não é? – Lacey disse. Gina assentiu enfaticamente. Muita coisa tinha acontecido desde que se mudara para a Inglaterra, Lacey ponderou. Embora a maior parte fosse positiva, as coisas boas tinham se misturado às ruins. Todas deixaram sua marca. Lacey precisava apertar o botão de reinício, arejar sua mente. – Se você realmente não ligar – Lacey disse. – Sinceramente, eu não ligo. Cem por cento. – Gina colocou a mão sobre o coração. Lacey sentiu uma onda de euforia. Deu um pulo de seu assento, chamando Gina por cima do balcão para um abraço. Mas, antes que tivesse a chance, o sino acima da porta tocou, anunciando a entrada de alguns clientes. Vozes altas com sotaque americano preencheram a loja. Vozes altas com sotaque americano e muito familiares... A cabeça de Lacey girou para a porta. Entrando em sua loja de antiguidades de forma espalhafatosa estavam ninguém menos que sua irmã, Naomi, seu sobrinho, Frankie... e sua mãe.
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