CAPÍTULO UM
CAPÍTULO UM
– O que está acontecendo aí em cima? – Lacey exclamou, aflita, espiando entre os degraus da escada de metal sob os pés de Gina.
As duas mulheres estavam na loja de antiguidades de Lacey, expondo um monte de marionetes feias que Gina havia encontrado no depósito, insistindo que venderiam como água. E, apesar de ser mais de vinte anos mais velha que Lacey, Gina também insistira em subir na escada até o vão das vigas no teto para pendurá-las.
– Tenho sessenta e cinco anos, mocinha – ela berrou para Lacey, desamparada embaixo da escada enquanto a segurava. – Ainda não sou uma velha frágil.
De repente, uma marionete de madeira assustadora saltou em suas cordas, assustando Lacey. O homem de aparência grotesca tinha um nariz adunco e chapéu de bobo da corte, e pairou sobre a cabeça de Lacey com um sorriso maligno. Ela estremeceu, questionando silenciosamente o bom senso de Gina. Quem no mundo iria querer comprar algo de aparência tão desagradável?
– E então? – a voz vibrante de Gina veio do topo das escadas. – Já descobriu onde Tom vai te levar na viagem romântica?
As bochechas de Lacey esquentaram com a menção de seu namorado. Tom havia anunciado recentemente que a levaria em uma viagem romântica, enviando pistas fotográficas da localização todos os dias desde então. A última imagem era de um penhasco branco escarpado com um lindo céu azul ao fundo.
– Algum lugar à beira-mar – Lacey respondeu, sonhadora.
Onde quer que fosse, parecia absolutamente idílico. Porém, no que dizia respeito a Lacey, poderia ser o local mais desolado da Terra e ela ainda ficaria ansiosa para o descanso. Dizer que já tinha passado da hora de tirar uma folga seria um eufemismo. Desde que abriu sua loja de antiguidades na cidade litorânea de Wilfordshire, as únicas vezes em que teve ao menos dois dias consecutivos de folga tinha sido enquanto investigava assassinatos pavorosos. Aquilo não contava como descanso na opinião de Lacey!
Naquele momento, outra marionete pulou em suas cordas sobre a cabeça de Lacey, tirando-a de seu devaneio. Esta retratava uma copeira corpulenta com gorro e avental. Ela tinha o mesmo rosto grotesco da primeira. Lacey torceu o nariz em desgosto.
– De quem foi mesmo a ideia de pendurar estas coisas horríveis no teto? – ela disse. – Não sei se vou gostar que elas fiquem me olhando o dia todo.
Do alto, Gina gargalhou.
– Eu te prometo que irão vender rápido. Marionetes Punch e Judy são uma instituição aqui na Inglaterra. Não posso acreditar que você os manteve escondidos em uma caixa por tanto tempo! Ao menos os tiramos a tempo para o movimento do verão.
Lacey não conseguia entender o apelo de marionetes feias, mas confiou em Gina dessa vez. Como uma nova-iorquina nascida e criada, as esquisitices da cultura inglesa muitas vezes não entravam em sua cabeça.
– Então, quais foram as outras pistas? – Gina exclamou. – Quero desvendar esse mistério!
Segurando a escada com uma mão, Lacey usou a outra para pegar o celular no bolso de sua calça jeans. Deslizou pelas imagens com o polegar.
– Um castelo – ela declarou. – Um pássaro... talvez um pássaro azul? Um sanduíche! Uma foto em preto e branco de uma mulher segurando um daqueles microfones estilo anos 40. E um imperador romano.
– Um imperador romano? – Gina repetiu, surpresa. – Talvez ele vá te levar para a Itália!
– Itália? Não é exatamente famosa por seus sanduiches, é? – Lacey gracejou antes que outra marionete caísse, tirando o sorriso de seu rosto. Esta era um palhaço assustador com cachos laranjas espantosos. Sua pintura rachada o fazia parecer ainda mais sinistro. Ela tremeu.
– Cuidado com esse sarcasmo, mocinha – Gina chiou. – Vejo que nosso humor britânico está pegando em você.
– Serão férias para descanso, de qualquer maneira – Lacey continuou. – Então, será em algum lugar na Inglaterra... AH!
Gina tinha soltado mais uma de suas marionetes, só que essa havia acertado bem na cabeça de Lacey. Ela a empurrou para longe e se viu encarando o rosto de um policial, sorrindo de forma ameaçadora e segurando um cassetete em sua mão boba de marionete. Ela imediatamente pensou no Superintendente Turner do Departamento de Polícia de Wilfordshire, um homem com o qual ela certamente esperava não ter de lidar novamente tão cedo.
– Quantas dessas coisas horrorosas você tem aí? – Lacey exclamou, esfregando sua cabeça dolorida.
– Esta é a última – Gina declarou, alegre em sua ignorância. A escada rangeu sob seu peso conforme ela desceu de costas. Ao chegar ao chão em segurança, ela encarou Lacey. – Infelizmente, você não tem a marionete do cachorro e o cordão de salsichas caiu.
Ela levantou as salsichas falsas. Lacey nem queria saber do que se tratava.
– Mostre as fotinhas, então – Gina disse, esticando a cabeça para espiar a imagem de ponta-cabeça na tela do celular de Lacey.
Lacey passou o dedão por elas.
– Oh! – Gina exclamou de repente. – Por que não me disse que eram penhascos brancos? Querida, vocês vão para Dover!
E, com isso, ela começou a cantar. Sua voz vibrante e estridente ecoou por toda a loja até as vigas do teto. Lacey franziu o rosto em uma careta.
– Haverá pássaros azuis acima... A ironia, é claro, é que pássaros azuis não são nativos da Inglaterra – ela acrescentou o comentário apressado antes de cantar a próxima linha da música. – Dos penhascos brancos de Dover – ela retomou sua fala. – Você deve conhecer a música? É clássica dos tempos de guerra.
– Eu conheço a música – Lacey disse. Então, estalou os dedos. – A foto em preto e branco da cantora com o microfone antigo! – Ela deslizou a tela até a foto e mostrou à Gina.
– Ah, sim. Essa é a Vera Lynn mesmo – Gina confirmou com um aceno de cabeça.
Os pássaros azuis. Os penhascos. O imperador romano.
– Tom vai me levar para Dover – Lacey disse, admirada e sem fôlego.
– Muito charmoso – Gina exclamou, cutucando as costelas de Lacey de forma brincalhona.
Uma onda de empolgação percorreu todo o corpo de Lacey. Ela já estava contente com a viagem romântica secreta antes. Então, Tom tinha começado a enviar pistas, como uma trilha de migalhas de pão, e ela ficou cada vez mais animada. Agora que tinha descoberto para onde realmente iria, estava completamente deslumbrada.
Rapidamente enviou uma mensagem a Tom – Descobri! – e olhou através da vitrine da loja para a confeitaria dele, observando-o abrir o celular e começar a rir.
Contudo, justamente enquanto Lacey contemplava seu namorado pela vitrine, uma figura moveu-se de repente em sua linha de visão, estragando a vista. Ao perceber quem estava a encarando, a empolgação que sentia há poucos momentos escoou dela de uma só vez, como uma vela sendo apagada. Por sua vez, um sentimento sinistro de pavor tomou seu lugar. Taryn.
A dona da boutique ao lado estava sempre se metendo na vida de Lacey, tentando forçá-la a ir embora da cidade. Lacey nunca havia desvendado completamente o porquê de tamanha hostilidade, além do fato de ela ter namorado Tom brevemente, muitas luas atrás. Era mais provável que tivesse inveja de seu sucesso, ou que tivesse preconceito com uma americana estragando o que, não fosse por ela, seria uma rua alta perfeitamente britânica. Provavelmente era um pouco dos dois.
O sino da loja chocalhou furiosamente quando Taryn forçou sua entrada e cruzou o assoalho em seus saltos finos pretos e seu habitual vestido preto básico. Seus ombros ossudos e pontiagudos estavam totalmente à mostra.
– Ah, veja, é a Ceifadora – Gina murmurou bem baixinho enquanto as duas mulheres observavam Taryn tomando distância da coleção f**a de marionetes, com nojo no rosto, e quase pisando em Chester, o cão. O pastor inglês soltou um pequeno resmungo de dor com a súbita intromissão em seu sono. Depois, baixou a cabeça e a cobriu com as patas, algo que Lacey também faria se a convenção social permitisse.
A mulher carrancuda parou abruptamente diante de Lacey e Gina.
– Como posso te ajudar, Taryn? – Lacey perguntou fracamente, com uma expectativa irônica.
– Você está ciente – Taryn começou, altiva – de que um POMBO fez um NINHO em cima da sua porta? O barulho constante está me enlouquecendo! Você precisa chamar um exterminador. AGORA.
– Primeiramente, não é um pombo – Lacey retrucou.
– O nome dela é Martina – Gina adicionou, fingindo estar ofendida.
O olhar duro de Taryn passou de uma mulher para a outra. Ela cruzou os braços.
– Vocês deram nome a um pombo?
– Eu já falei – Lacey disse. – Não é um pombo. Ela é uma andorinha.
– E Martina é um nome belo e apropriado para uma andorinha – Gina disse, assentindo junto com Lacey.
– Ela veio voando da África para criar seus filhotes em cima da entrada da minha loja – Lacey acrescentou.
– E estamos honradas em tê-la aqui – Gina finalizou, encerrando o ato de comédia em dupla.
Lacey m*l conseguia segurar o riso.
Taryn parecia furiosa. Suas narinas dilataram.
– Se não se livrar dessa coisa, eu mesma vou chamar o exterminador – ela ameaçou entre os dentes.
– Acho que irá descobrir que não existe isso, minha querida – Gina zombou. – Ninguém mexe nos ninhos durante a época de reprodução!
Taryn parecia prestes a estourar uma veia sanguínea.
– Quando a época de reprodução termina? – ela perguntou com os dentes cerrados.
– Novembro. Por aí – Gina disse.
Taryn cerrou o maxilar, furiosa.
– Típico! – ela berrou antes de girar os calcanhares e esbarrar direto nas marionetes. Ela gritou e as afastou do rosto. Com um último olhar fixo por cima do ombro para Lacey e Gina, ela saiu por onde havia entrado.
No momento em que ela saiu, Lacey e Gina explodiram em gargalhadas. Lacey riu tanto que lágrimas começaram a rolar em suas bochechas.
– Nenhum momento de tédio – ela disse quando o riso acabou, limpando as lágrimas. Em seguida, fez uma pausa. – Espere um minuto. Chester não rosnou para Taryn.
Normalmente, seu pastor inglês emitia um ronco baixo durante todo o tempo em que Taryn ficava em sua linha de visão. Já que ele tinha vindo com a loja, na verdade ele conhecia Taryn há muito mais tempo do que Lacey, e havia mais animosidade entre eles do que entre Taryn e Lacey! Chester tratava Taryn como se ela fosse a própria Cruella De Vil.
– Talvez agora ele não ligue para ela? – Gina sugeriu, passando sua manga debaixo dos óculos vermelhos para enxugar as próprias lágrimas.
Lacey não pareceu convencida. – Duvido muito. Quero dizer, ela literalmente quase pisou nele! Não, é outra coisa.
Ela se dirigiu até Chester e gentilmente removeu as patas da cabeça dele. Ele m*l pareceu notar, então Lacey levantou a cabeça dele pelo queixo. Estava pesada, como se ele estivesse fraco demais para levantá-la sozinho. Quando seus olhos se encontraram, Lacey viu que os dele estavam lacrimejados e um pouco avermelhados. Ele soltou um pequeno gemido.
– Oh, querido – Lacey disse, seu coração pulando várias batidas. – Está doente?
Chester gemeu, como em confirmação, e o estômago de Lacey se apertou de preocupação.
– Gina, é melhor eu levá-lo ao veterinário – ela disse apressadamente, olhando para a amiga. – Você pode cuidar da loja?
– É claro – Gina disse, espantando suas preocupações com um aceno de mão. – Eu sempre posso.
Lacey colocou a guia em Chester com um clique e cuidadosamente saiu com ele da loja, sua mente agitada e preocupada com seu p***e cãozinho adoecido.