Henrique entrou feito um furacão na empresa matriz. Todos ao seu redor corriam para fazer alguma coisa, viam no rosto do chefe que ele estava de péssimo humor.
Henrique se jogou na cadeira de seu escritório massageando as têmporas.
- Mas que inferno! - Esmurrou a mesa, enquanto olhava para aquela mala preta idêntica a sua. Pegou-a novamente e abriu. O pouco que revirou, só mostrava umas poucas roupas femininas, de péssima qualidade por sinal. Segurou uma calcinha fio dental vermelha e maneou a cabeça. Nada naquela mala fazia sentido. Abriu um zíper lateral, onde encontrou uma pasta de papelão, de um amarelo queimado, parou na escrita: CONFIDENCIAL. Jogou a pasta em cima da mesa e bufou.
Alguns minutos pensando que tinha sido vítima de um golpe e tinham lhe roubado, o telefone do escritório toca. Atende bravo. - O que é?
- S-senhor Rodrigues, tem uma ligação para o sen...
- Não quero falar com ninguém Rita! E vê se consegue cancelar a próxima reunião, não estou com humor. - E desligou na cara da secretária.
Rita sentia a voz do chefe bradar e estremecia de medo, seu salário era muito bom, ela não podia correr o risco de perder esse emprego.
Henrique jogara a cabeça para trás tentando lembra-se onde poderia ter sido roubado, não largara sua mala para nada... O telefone recomeça a tocar. - Mas que m***a! - Pega o telefone. - Eu já não lhe disse...
- Senhor me desculpe, mas a moça insiste em falar com o senhor, ela disse que esta com uma coisa que é sua e o senhor está com algo que é dela, e que não vai parar de ligar até atendê-la. - Henrique ouve o silêncio por um momento. Claro, o esbarrão com aquela desastrada.
- Pode passar. - Ele fala se endireitando na cadeira.
Safira revirara a maleta até encontrar algo que lhe dissesse de quem era. Era óbvio que era daquele homem que a atropelou no aeroporto, foi uma troca acidental, uma pequena confusão. Devido ao notebook de última geração, imaginava que o homem precisasse para trabalho, daquelas coisas. Encontrou o logo da empresa em umas pastas com documentos, pesquisou rapidamente no google e encontrou uma foto do homem. Henrique Leonardo Rodrigues. Bonito nome, pensou Safira, enquanto tentava encontrar um telefone que pudesse entrar em contato e falar com ele. Ele era o CEO da mais bem conceituada empresa de Publicidade da América Latina. Safira ficou preocupada, ele era realmente importante, devia entrar em contato logo. Mas por um momento perdeu-se na pesquisa, avaliando o belo rosto, as feições sérias, a barba bem feita, o cabelo sem um fio fora do lugar. Com certeza era um belo homem, ela m*l tinha o notado quando esbarraram, estava tão ansiosa com sua volta para casa.
Depois de muita insistência conseguiu que a secretária passasse a ligação para o tal Henrique, o qual ela já estava achando antipático.
- Alô? - Ouviu a voz áspera e aparentemente zangada.
- Olá, Henrique Rodrigues?
Henrique fechou os olhos, já imaginando que o golpe não era roubar sua mala, mas conseguir sua atenção. As mulheres estavam ficando cada vez mais ousadas. Ele não conseguia um minuto de paz, que tinha alguma querendo seu telefone.
- Sim! - Respondeu seco.
- Então, acho que nos esbarramos no aeroporto, lembra-se? - Safira aguardou o que pareceu uma eternidade até ouvir o homem responder.
- Esbarramos, aham...
Safira não entendeu o tom de voz dele, mas não questionou, só queria suas coisas, e se livrar das coisas dele. - Então, acho que trocamos as malas, estou com suas coisas aqui...
- E o que você quer? - Henrique estreitava os olhos enquanto focalizava na mala da mulher em cima de sua mesa.
- Oras! Quero minha mala de volta! - Que homem louco, pensou franzindo o cenho. - Podemos nos encontrar no aeroporto, para fazemos a troca?
- Olha só garota, eu não pretendo voltar ao México tão cedo. - Henrique ainda sentia o estômago ardendo devido a comida apimentada.
- Ok, então mande alguém para buscar a sua e trazer a minha! Afinal, você que me atropelou no aeroporto! - Safira estava perdendo a paciência com esse cara.
- Eu não posso confiar qualquer pessoa para buscar minhas coisas, tem documentos confidenciais aí? Peraí... você mexeu nas minhas coisas? - Henrique se levantara de sua mesa, caminhando de um lado para o outro.
- Eu abri pensando que eram as minhas coisas, e graças ao mexer na sua mala descobri quem é você e quero devolver as coisas. Você é maluco por acaso?
Henrique sentia que iria explodir a qualquer momento. - Eu estou com reuniões em todos os horários, por pelo menos duas semanas. - Ele travou os maxilares. - Mas preciso do meu notebook urgente! - Passou as mãos nos cabelos desajeitando-os. - Vou pagar sua passagem e você vem para o Brasil para fazermos a troca. - Ele disse categórico, sem deixar margem para questionamentos. Ele imaginou que ela ficaria contente, afinal era sua intenção, conseguir sua atenção, não é mesmo?
- Mas de jeito nenhum que eu vou pro Brasil! - Safira bradou no telefone, fazendo Henrique franzir o cenho.
- Como assim? Eu vou pagar sua passagem...
- Não tô nem aí, eu poderia pagar minha passagem, não preciso que pague para mim, mas não gosto do Brasil. - Safira estava exasperada com aquele homem, grosseiro e mandão.
- Não gosta do Brasil? - Henrique falava com ela em português, então ela não devia ser mexicana, como podia não gostar do Brasil? - Mas do México você gosta? - Ele fala sarcástico.
- Oras! Eu amo meu país senhor. E isso não é da sua conta!
Henrique já não aguentava mais a discussão, só queria acabar logo com a confusão. - Seguinte, eu preciso muito desse notebook e desses documentos. Não tenho como ir ao México, se pudesse vir aqui ficaria muito agradecido e posso lhe dar uma gratificação... - Henrique realmente precisava de suas coisas, e não estava entendendo qual era a daquela mulher.
Safira não o respondeu de imediato, estava respirando fundo para não desligar na cara do abusado, ou mandar ele longe e vender aquele notebook e fingir que nunca viu. Mas se continha pois queria suas coisas de volta também.
Ele revirou mais um pouco a mala enquanto ela falava, encontrou um pequeno estojo e abriu. Tinha uma pequena e delicada pulseira de brilhantes, ele olhou de perto, eram verdadeiros... mas o restante das coisas pareciam de uma pessoa que não poderia ter uma pulseira daquelas. Virou a cabeça para a pasta a qual não tinha aberto e abriu.
Na primeira página tinha uma foto e um nome. Safira. Era a foto do rosto de uma mulher. E por Deus, Henrique chegou a sentar-se. Era um rosto perfeito, uma pele branca, olhos azuis turquesa, tão profundos como uma pedra de ... Safira.
- Qual o seu nome? - Henrique questionou ainda preso por aquela imagem.
- Safira Angeliqué Pérez. - Ela respondeu com a voz séria e controlada, era palpável a irritação dela.
Uau... era ela mesmo. Henrique ficou em silêncio por um momento, esquecendo-se do que realmente falavam. Hesitou em folhar as próximas páginas, a pasta dizia confidencial e parecia ser de um processo policial. Além do mais, a moça da foto apesar de linda parecia abatida. Talvez ela não estivesse atrás dele, e fora só uma troca acidental. Recompôs-se e falou um pouco mais calmo.
- Ok, Safira, que tal nos encontrarmos no aeroporto aqui do Brasil e realizarmos a troca? - Ele esperou por um momento, mas não obtendo resposta continuou. - Fazemos a troca rapidamente, eu não perco tempo, e você nem entra no Brasil. - Ele aguardou sentindo uma certa ansiedade, de repente sentiu-se interessado em vê-la pessoalmente. Se ela não estava atrás dele, já era um bom sinal.
Safira suspirou, pensando em como explicar para sua família que iria ao Brasil, mesmo que rapidamente. - Ok. Amanhã pela manhã pego um avião. - Ela respondeu sentindo-se exausta, mas não pelo telefonema, mas por ter de voltar ao país que tanto a machucara.
Henrique assentiu. - Me avise quando sair daí, para eu lhe esperar.
- Tchau. - Safira encerra a ligação sem mais delongas, e olha para seu aparelho celular. Ela só se metia em confusão, m*l botara o pé em casa e já tinha que resolver pepino.
Henrique teve de ir para a próxima reunião, mas já não estava mais tão irritado, estava mais tranquilo por encontrar suas coisas, claro. Mas era a sua curiosidade sobre a mulher que o fez melhorar o humor.