A Despedida da Casa dos Sonhos Antigos

1065 Words
Poder abrir o guarda-roupa e ver roupas lindas, novas, dobradinhas e cheias de cor. Sandálias alinhadas, acessórios brilhando, maquiagem delicada, perfumes suaves... tudo que eu sempre sonhei. Coisas que, como qualquer menina da minha idade, desejei por anos. Mas nunca pude ter. E agora... tudo estava ali. Meu. Nosso. Dois dias depois, logo cedo... — Filha? — chamou minha mãe da cozinha. — Oi, mãe! Já estou pronta. Daqui a pouco o Marcos chega. — Bled, amor? — — Sim, querida. Estou pronto também. Toc, toc. — Quem é? — Sou eu, dona Gisele. Marcos. Bom dia, tudo bom? — Tudo sim. Pode entrar. — Filha, vem! Assim que entrei na sala, Marcos sorriu com os olhos. — Nossa... vocês estão lindas. — Ah, muito obrigada! — dissemos, tímidas. — Bom, estou vendo que não terei muito trabalho. Vocês já sabem muito bem como se arrumar. Vanessa, sempre elegante, sorriu de lado. — De nada, Vanessa. Temos muito o que aprender com você ainda. E foi assim, dia após dia... Marcos e Vanessa vinham até nós. Ensinavam com paciência como falar melhor, como nos portar em eventos, como combinar roupas, como usar maquiagem com leveza e elegância. Aos poucos, aquilo que era estranho foi virando rotina. O novo deixou de assustar. Marcos sempre separava um tempinho só para mim. Conversávamos sobre a vida, ele me elogiava com tanta naturalidade que às vezes eu me perdia no olhar dele. Íamos juntos ao shopping, ao centro da cidade, experimentávamos novos mundos. E então... o grande dia chegou. O dia de ir embora. De recomeçar. Estávamos nervosos. Mas também empolgados, ansiosos por conhecer o novo capítulo que nos esperava. Preparamos nossas malas. Vestimos nossas melhores roupas — aquelas que, há poucos meses, pareciam inalcançáveis. Eu, confesso, só pensava nele. Marcos. Ai... que homem lindo. Mas é claro que ele jamais olharia pra mim desse jeito. Eu sou só... uma funcionária. Uma ajudada. Melhor parar de sonhar alto, pensei. 2h10 da tarde. Dlim-dlom. A campainha tocou. Meu pai foi atender. Já sabíamos quem era. — Boa tarde! — disse Marcos, sorridente. — Meus parabéns, seu Bled. O senhor está muito apresentável. — E vocês, meninas... estão impecáveis. — Muito obrigada, Marcos. Estamos apenas tentando fazer como você nos ensinou. — Então estão indo muito bem. Com as malas prontas, saímos pela porta da frente. A vizinhança toda estava lá fora, nos observando com sorrisos sinceros e olhos cheios de emoção. Demos tchau, abraçamos alguns. Cada olhar parecia dizer: "Estamos torcendo por vocês." Meu pai já havia vendido nossa casinha. A nova família estava esperando no portão. Eles pareciam felizes. Mas mesmo assim... Ao entregar a chave, meu coração apertou. Aquela casa era mais que paredes e móveis. Era o lugar onde aprendemos a ser fortes. Onde a alegria morava mesmo com a barriga vazia. Onde o amor foi o único luxo que tivemos. Entregar aquela chave foi como deixar pra trás uma parte da alma. Mas estávamos prontos. Prontos para viver uma nova história. Entramos no carro, e logo Marcos, com aquele olhar sereno e sincero, nos disse: — Eu sei que não é fácil deixar tudo para trás. Sei o quanto aquela casinha significava pra vocês. Mas é necessário, porque o que espera por vocês daqui pra frente... é algo novo. Ficamos em silêncio, ouvindo com atenção. — A partir de hoje, tudo mudou. Vocês são outras pessoas agora. Requintados, refinados, preparados. Seguimos viagem. Do banco de trás, meus olhos não paravam. Cada rua parecia ter saído de um sonho. Homens e mulheres bem vestidos, lojas enormes e brilhantes, prédios que pareciam tocar o céu. Era tudo novo... e encantador. — Marcos, perguntei, curiosa. — Qual é o nome desse lugar? Ele sorriu. — Miami. — Nossa... é lindo! — E em uma das folgas de vocês, eu trago vocês aqui para passear com calma, conhecer melhor, tá bom? — Tá bom! — Mas agora já estamos chegando em Las Vegas. — Ah, que bom! — dissemos todos, empolgados. Alguns minutos depois, estacionamos diante de um grande prédio espelhado. O letreiro em dourado brilhava como ouro. — Vamos primeiro ao estúdio, tudo bem? — Claro. Descemos do carro. Tudo era novo. Tudo brilhava. Logo na entrada, uma moça muito elegante sorriu e nos cumprimentou: — Olá, sejam bem-vindos! Eu sou Juliana, a recepcionista. — Prazer! — disse estendendo a mão. — Sou Joana. E esses são meus pais, Gisele e Bled. — Muito prazer, senhores. Sejam bem-vindos. Marcos então nos guiou pelos corredores reluzentes do estúdio. — À frente, temos a sala número 1: a sala de maquiagens. Entramos. Lá dentro estavam quatro profissionais prontos para nos receber com sorrisos calorosos: — Esses são Jorge, Bruno, Kayla e Breno. Os nossos maquiadores. — Muito prazer! — disse, sorrindo. — O prazer é todo nosso, querida. Continuamos o tour. — Sala número 2: o salão de cabelo. Lá dentro, mais rostos amigáveis: — Esses são Julia, Ana Carlos, Fernando, Ana Brenda e Igleson. Cuidarão dos seus penteados. — Prazer em conhecê-los! — O prazer é nosso, linda moça. Avançamos mais alguns metros. — Sala 3: figurinos. Meus olhos brilharam. — Nossa... que roupas lindas! — Esses são Amanda, Kelly, Debra, Julian, Mara, Jéssica e Mayos. São os figurinistas. — Prazer! — Prazer é nosso, Joana. Seguimos. — Sala número 4: é aqui que tudo é filmado. Na sala escura, cheia de telas e equipamentos, estavam os operadores: — Esse é o Jonathan, o Caio, o Gabriel, o Michael e o Eric. — Muito prazer, meninos. — O prazer é nosso. Com todo o respeito, é uma honra conhecer uma moça tão linda. — Ah, muito obrigada! Marcos riu de leve e prosseguiu. — Sala número 5: o refeitório. Quando sentirem fome, é só vir aqui e comer o que quiserem. O ambiente era amplo, com mesas brilhantes, frutas frescas, lanches e sucos à disposição. — Os atendentes são: Caique, Daniel, Mariano, Geraldo, Bernardo, Carlos, Thiago e Felícia. — Prazer! — Sejam muito bem-vindos. Marcos parou no centro do salão e olhou pra gente: — Mas antes... vocês querem alguma coisa? — Ah, eu gostaria de um suco, por favor. — respondi. — Eu também. — disseram meus pais. Felícia prontamente nos serviu, sorrindo com gentileza. Naquele momento, tomando um simples suco gelado, em um lugar que mais parecia um cenário de filme, percebi... A nossa nova vida tinha começado.
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