O Caminho dos Saltos e dos Sonhos

1027 Words
— E aí, gente... estão gostando do estúdio? — perguntou Marcos, animado. — Sim! Muito grande, muito lindo! — respondi com brilho nos olhos. — Que bom que estão gostando. Mas ainda falta conhecer sua sala, a sala de gravação e a sala dos saltos. — Ai, tô nervosa... nunca andei de salto. — confessei, já com as mãos suando. — Não tem problema, Joana. Você vai ter tempo pra aprender com calma. Sua dama de companhia vai te ajudar com isso também. Continuamos a caminhada pelos corredores até que Marcos apontou: — À esquerda, banheiro dos homens. À direita, das mulheres. Vou aproveitar e ir um instantinho. Ele se afastou por alguns minutos e logo retornou, conduzindo-nos para uma nova porta. — Essa aqui é a sala número 6, seu camarim. Um espaço só seu, onde só entram pessoas autorizadas por você. Ele pegou o rádio e chamou: — Carla, por favor, venha até a sala número 6. Alguns instantes depois, uma moça elegante entrou. — Carla, essa é a Joana. Sua chefe. — Muito prazer, senhoras. — Prazer é meu. Essa é minha mãe, Gisele, e meu pai, Bled. Eles sempre estarão por aqui. — Muito prazer, senhora. — Não me chame de senhora, viu? Me sinto velha assim. — brincou minha mãe, rindo. — Bom, Carla, você vai ajudar nossa Joaninha em tudo. E durante os próximos 15 dias, vai ensiná-la a andar de salto. Comece com os mais firmes, depois os médios e por último, os de ponta de agulha. — Pode deixar, senhor. A senhorita Joaninha será uma excelente modelo de salto. Seguimos então até outra sala. — Essa é a sala número 7, a sala dos saltos. Assim que entramos, meu queixo caiu. Meus olhos brilharam feito luz de estrela. Eram dezenas de pares de salto alto, de todos os estilos e cores. Cada um mais deslumbrante que o outro. — Nossa... eu não sei nem como expressar. São... são perfeitos. Marcos olhava para mim com um sorriso nos lábios, encantado com minha reação. — Gostou? — Sim! Adorei! Super adorei! — Que bom... porque todos são seus. — Sério? — Sim, Joaninha. Todos. — Muito obrigada, de verdade! — Agora vamos para a última sala, número 8. Seguimos. — Aqui é onde acontecem os ensaios com todas as equipes. Quando estiver totalmente pronta, vamos retornar para a sala número 4, onde os meninos filmam tudo. Quando você se sentir segura, vamos gravar ao vivo, para o mundo todo ver você. — Ah, sim... tá bom! Respirei fundo. O frio na barriga misturava medo e alegria. — Agora, disse Marcos, vamos conhecer o trabalho do seu pai... e a nova casa de vocês. Saímos do estúdio. Entramos novamente no carro. Em silêncio, os três sentados no banco de trás e Marcos dirigindo com serenidade. Ao descer do carro, percebi a expressão do meu pai se transformar. Seus olhos brilhavam, como se fosse a primeira vez que visse o mundo de verdade. E era mesmo. Nunca tínhamos visto uma empresa de perto, ainda mais uma daquele porte — imensa, elegante, moderna. Tudo era tão chique, tão... distante da nossa realidade de antes. Entramos. Já havia uma pequena equipe nos aguardando com sorrisos cordiais. Marcos começou a nos apresentar, sempre gentil, sempre prestativo. Eu observava tudo, mas meu coração estava voltado para o rosto do meu pai. Ele estava emocionado, parecia tentar conter as lágrimas. Pela primeira vez, eu o via sendo tratado com respeito e prestígio. Era o que ele merecia. Sempre mereceu. Fomos até o departamento onde ele passaria o primeiro mês aprendendo. Marcos explicou: — Se o senhor Bled aprender tudo antes do prazo, ele já assume como encarregado do setor de operários de máquinas. Meu pai apenas assentiu, a voz embargada pela emoção. Minha mãe segurou sua mão discretamente, como quem diz "conseguimos, amor". Enquanto eles eram recebidos, eu, por dentro, agradecia a Deus. Eu tinha sido escolhida. E graças a isso, meus pais estavam vivendo o que sempre sonharam — ou melhor, algo que nunca nem ousaram sonhar. Meus olhos, sem querer, buscaram Marcos. Ele caminhava à minha frente, conversando com um dos diretores. Tão seguro. Tão bonito. Tão... bondoso. Eu admirava a forma como ele tratava a todos, como se cada pessoa fosse importante. Mas eu não podia me deixar levar. Ele era meu chefe. E eu, apenas a funcionária. Tentei desviar o olhar, mas quando virei o rosto... dei de cara com ele. Estávamos tão próximos... que bastava um suspiro para nossos rostos se tocarem. Meu coração acelerou. As mãos suaram. E minhas pernas... fraquejaram um pouco. Ele sorriu, gentil: — Você está tão quieta... aconteceu alguma coisa? Não gostou do estúdio? — Não é isso. — sorri, sem jeito. — É que... eu nunca tinha visto nada tão bonito antes. É tudo muito novo. Ele assentiu devagar. — Por um instante, pensei que tivesse se arrependido. — Jamais. — respondi, firme, com os olhos brilhando. — Eu estou imensamente feliz por ter sido escolhida... por estar aqui. E mais ainda por ver a alegria dos meus pais. Ele me olhou de um jeito diferente. Um olhar que escuta com o coração. — Dá pra ver... a felicidade dos seus pais vem sempre em primeiro lugar pra você, né? — Sim. Eu amo muito os dois. Minha mãe... minha mãe sofreu tanto. Engoli em seco, sentindo a garganta apertar. — Ela quase morreu quando fui nascer. Não tinha dinheiro pra médico. Quando ela chegou à emergência, o médico disse que só dava pra salvar uma das duas. E mesmo assim... ela escolheu me ter. Meus olhos marejaram. — Ela desmaiou, teve parada cardíaca... mas, com muita luta, os médicos conseguiram reanimá-la. Desde então, ela se tornou o meu milagre... e eu, o dela. Marcos parecia emocionado. Ele respirou fundo e falou com a voz baixa: — Que história linda... comovente. — Por isso eu faço tudo por eles. Todo sacrifício meu... ainda é pouco diante do que eles já fizeram por mim. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Um silêncio cheio de significado. E naquele momento, sem que ele dissesse nada, eu senti: ele me via.
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