— E aí, gente... estão gostando do estúdio? — perguntou Marcos, animado.
— Sim! Muito grande, muito lindo! — respondi com brilho nos olhos.
— Que bom que estão gostando. Mas ainda falta conhecer sua sala, a sala de gravação e a sala dos saltos.
— Ai, tô nervosa... nunca andei de salto. — confessei, já com as mãos suando.
— Não tem problema, Joana. Você vai ter tempo pra aprender com calma. Sua dama de companhia vai te ajudar com isso também.
Continuamos a caminhada pelos corredores até que Marcos apontou:
— À esquerda, banheiro dos homens. À direita, das mulheres. Vou aproveitar e ir um instantinho.
Ele se afastou por alguns minutos e logo retornou, conduzindo-nos para uma nova porta.
— Essa aqui é a sala número 6, seu camarim. Um espaço só seu, onde só entram pessoas autorizadas por você.
Ele pegou o rádio e chamou:
— Carla, por favor, venha até a sala número 6.
Alguns instantes depois, uma moça elegante entrou.
— Carla, essa é a Joana. Sua chefe.
— Muito prazer, senhoras.
— Prazer é meu. Essa é minha mãe, Gisele, e meu pai, Bled. Eles sempre estarão por aqui.
— Muito prazer, senhora.
— Não me chame de senhora, viu? Me sinto velha assim. — brincou minha mãe, rindo.
— Bom, Carla, você vai ajudar nossa Joaninha em tudo. E durante os próximos 15 dias, vai ensiná-la a andar de salto. Comece com os mais firmes, depois os médios e por último, os de ponta de agulha.
— Pode deixar, senhor. A senhorita Joaninha será uma excelente modelo de salto.
Seguimos então até outra sala.
— Essa é a sala número 7, a sala dos saltos.
Assim que entramos, meu queixo caiu. Meus olhos brilharam feito luz de estrela. Eram dezenas de pares de salto alto, de todos os estilos e cores. Cada um mais deslumbrante que o outro.
— Nossa... eu não sei nem como expressar. São... são perfeitos.
Marcos olhava para mim com um sorriso nos lábios, encantado com minha reação.
— Gostou?
— Sim! Adorei! Super adorei!
— Que bom... porque todos são seus.
— Sério?
— Sim, Joaninha. Todos.
— Muito obrigada, de verdade!
— Agora vamos para a última sala, número 8.
Seguimos.
— Aqui é onde acontecem os ensaios com todas as equipes. Quando estiver totalmente pronta, vamos retornar para a sala número 4, onde os meninos filmam tudo. Quando você se sentir segura, vamos gravar ao vivo, para o mundo todo ver você.
— Ah, sim... tá bom!
Respirei fundo. O frio na barriga misturava medo e alegria.
— Agora, disse Marcos, vamos conhecer o trabalho do seu pai... e a nova casa de vocês.
Saímos do estúdio. Entramos novamente no carro. Em silêncio, os três sentados no banco de trás e Marcos dirigindo com serenidade.
Ao descer do carro, percebi a expressão do meu pai se transformar. Seus olhos brilhavam, como se fosse a primeira vez que visse o mundo de verdade. E era mesmo. Nunca tínhamos visto uma empresa de perto, ainda mais uma daquele porte — imensa, elegante, moderna. Tudo era tão chique, tão... distante da nossa realidade de antes.
Entramos. Já havia uma pequena equipe nos aguardando com sorrisos cordiais. Marcos começou a nos apresentar, sempre gentil, sempre prestativo. Eu observava tudo, mas meu coração estava voltado para o rosto do meu pai. Ele estava emocionado, parecia tentar conter as lágrimas. Pela primeira vez, eu o via sendo tratado com respeito e prestígio. Era o que ele merecia. Sempre mereceu.
Fomos até o departamento onde ele passaria o primeiro mês aprendendo. Marcos explicou:
— Se o senhor Bled aprender tudo antes do prazo, ele já assume como encarregado do setor de operários de máquinas.
Meu pai apenas assentiu, a voz embargada pela emoção. Minha mãe segurou sua mão discretamente, como quem diz "conseguimos, amor".
Enquanto eles eram recebidos, eu, por dentro, agradecia a Deus. Eu tinha sido escolhida. E graças a isso, meus pais estavam vivendo o que sempre sonharam — ou melhor, algo que nunca nem ousaram sonhar.
Meus olhos, sem querer, buscaram Marcos. Ele caminhava à minha frente, conversando com um dos diretores. Tão seguro. Tão bonito. Tão... bondoso. Eu admirava a forma como ele tratava a todos, como se cada pessoa fosse importante. Mas eu não podia me deixar levar. Ele era meu chefe. E eu, apenas a funcionária.
Tentei desviar o olhar, mas quando virei o rosto... dei de cara com ele.
Estávamos tão próximos... que bastava um suspiro para nossos rostos se tocarem.
Meu coração acelerou. As mãos suaram. E minhas pernas... fraquejaram um pouco.
Ele sorriu, gentil:
— Você está tão quieta... aconteceu alguma coisa? Não gostou do estúdio?
— Não é isso. — sorri, sem jeito.
— É que... eu nunca tinha visto nada tão bonito antes. É tudo muito novo.
Ele assentiu devagar.
— Por um instante, pensei que tivesse se arrependido.
— Jamais. — respondi, firme, com os olhos brilhando.
— Eu estou imensamente feliz por ter sido escolhida... por estar aqui. E mais ainda por ver a alegria dos meus pais.
Ele me olhou de um jeito diferente. Um olhar que escuta com o coração.
— Dá pra ver... a felicidade dos seus pais vem sempre em primeiro lugar pra você, né?
— Sim. Eu amo muito os dois. Minha mãe... minha mãe sofreu tanto.
Engoli em seco, sentindo a garganta apertar.
— Ela quase morreu quando fui nascer. Não tinha dinheiro pra médico. Quando ela chegou à emergência, o médico disse que só dava pra salvar uma das duas. E mesmo assim... ela escolheu me ter.
Meus olhos marejaram.
— Ela desmaiou, teve parada cardíaca... mas, com muita luta, os médicos conseguiram reanimá-la. Desde então, ela se tornou o meu milagre... e eu, o dela.
Marcos parecia emocionado. Ele respirou fundo e falou com a voz baixa:
— Que história linda... comovente.
— Por isso eu faço tudo por eles. Todo sacrifício meu... ainda é pouco diante do que eles já fizeram por mim.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Um silêncio cheio de significado. E naquele momento, sem que ele dissesse nada, eu senti: ele me via.