O silêncio densamente cortante do quarto permaneceu estalado, pesado como chumbo derretido, quebrado apenas pela respiração compassada e quente da Sara e pelo zumbido baixo, quase imperceptível, do ar-condicionado central. Fiquei ali, estático na cama, deitado com o meu peito nu e inteiramente tatuado firmemente colado nas costas dela, sugando com desespero a paz e a calmaria inexplicável que ela me transmitia, tentando atrasar de forma inútil o relógio do inferno que já tinha começado a rodar a nossa roleta russa. Mas a neurose e a malícia de um cria que lidera uma favela sitiada e jurada de morte não desliga nunca, nem deitado ao lado de quem ama. A tensão esticada no meu corpo era tanta, tão violenta, que os meus músculos pareciam blocos de pedra bruta, e não demorou absolutamente nada

