Capitulo 1
A chuva sobre Milão não caía.
Ela golpeava.
Relâmpagos rasgavam o céu noturno enquanto o vento fazia as enormes janelas de vidro blindado do edifício Moretti Holdings estremecerem. No quinquagésimo andar, porém, a tempestade não tinha a menor permissão para entrar.
Ali, o silêncio era absoluto, denso e sepulcral.
Meu escritório é uma extensão da minha própria alma. Don Alessandro Moretti.
Luxuoso. Frio. Imponente e letal.
O mármore n***o cobria o piso, refletindo as sombras de um império construído sobre ossos. As paredes eram revestidas da mais fina madeira italiana. Quadros avaliados em dezenas de milhões de euros decoravam o ambiente, enquanto a lareira queimava de forma controlada, espalhando um calor completamente incapaz de aquecer o sangue de quem quer que pisasse ali dentro.
De costas para a porta, eu observava a minha cidade. Milão rastejava aos meus pés.
Na minha mão direita, um copo de cristal pesado contendo uísque puro. Na esquerda, nada. Homens do meu nível e da minha estirpe não precisam carregar armas. Nós não sujamos as mãos com pólvora. Nós assinamos documentos, damos sentenças em sussurros e mandamos que outros puxem os gatilhos que dizimam famílias inteiras.
A pesada porta de mogno se abriu sem emitir um único ruído. Vittorio entrou e parou a exatos três passos de mim. Esperou em silêncio, como um cão de guarda treinado para só latir quando o mestre permite.
— Demorou — minha voz grave ecoou pelo salão, cortando o ar gelado.
— Peço perdão, Don.
— Eu não pedi desculpas, Vittorio. Pedi explicações.
Vittorio respirou discretamente, mantendo a postura de granito.
— Encontramos o que o senhor procurava há sete longos anos.
O silêncio aumentou, tornando-se quase asfixiante. Continuei olhando a chuva castigar os prédios menores lá fora.
— Encontraram... ou perderam mais do meu tempo com rastros inúteis?
— Encontramos a herdeira, Don.
Virei apenas o rosto, olhando-o por cima do ombro.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Se você estiver errado, Vittorio, sabe muito bem que a sua cabeça e a de toda a sua linhagem rolam hoje mesmo para os cães.
— Não estou errado, Don.
Virei o corpo inteiro. Caminhei lentamente, arrastando o peso de décadas de poder absoluto, até a enorme mesa de jacarandá. Vittorio já havia colocado uma pasta preta de couro sobre a madeira polida.
— Aqui está o dossiê completo. Tudo.
Abri o arquivo. A primeira fotografia jogada na minha mesa me causou um asco imediato, uma repulsa que embrulhou meu estômago.
Sara.
O sangue do meu sangue, vestida com roupas simples, quase trapos de feira. Sorrindo como uma i****a, com o rosto suado, enquanto carregava uma caixa de medicamentos baratos no meio de uma rua de terra e esgoto a céu aberto. Encarei a imagem. Nenhuma emoção de alívio ou saudade atravessou meu rosto, além do mais puro e requintado desprezo.
— Então... a filha daquele rato realmente sobreviveu.
— Sim, Don.
— Onde ela está se escondendo?
— No Brasil. Rio de Janeiro. Em uma comunidade chamada Muralha.
Arqueei a sobrancelha, o nojo pingando de cada palavra.
— Uma favela... O meu DNA chafurdando no lixo sul-americano.
— Sim.
Fechei os olhos por um segundo. Dei um riso baixo, seco e completamente desprovido de qualquer calor humano.
— Que ironia repugnante. O sangue da mãe sempre foi uma doença fraca. A necessidade de ser boa é uma patologia que destrói impérios.
Virei a página. Mais fotos amadoras tiradas de longe. Sara atendendo doentes de graça em uma sala mofada, abraçando velhos sujos, sorrindo para crianças miseráveis que não têm e nunca terão nenhum futuro além da vala comum.
Passei os olhos pelas imagens até que Vittorio colocou um envelope separado sobre a mesa.
— A sua neta não vive sozinha, Don.
— E com quem essa i*****l divide a cama na lama?
Vittorio retirou a imagem de dentro do envelope. A fotografia impressa em alta resolução, extraída diretamente dos arquivos de inteligência e catalogada.
No exato instante em que meus olhos focaram na imagem, meu maxilar travou.
A fotografia mostrava um homem colossal.
Não era apenas um homem; era uma aberração da natureza, um colosso de músculos esculpidos na brutalidade crua. O tronco largo, os braços grossos como troncos de árvores, veias saltando sob a pele que estava quase inteiramente submersa em tinta escura. Uma espessa barba n***a e perfeitamente desenhada cobria o maxilar quadrado, e uma cicatriz atravessava a lateral do rosto, gritando violência.
Ele não usava camisa na imagem, exibindo o corpo de um marginal de alta periculosidade. No centro do peitoral imenso, uma coroa coroava a palavra "KING". No abdômen trincado, a face hiper-realista e assustadora de um tigre rugindo. Tatuagens subiam pelo pescoço grosso e marcavam até mesmo o rosto dele pequenas cruzes e símbolos perto dos olhos, a marca registrada de alguém que vive e mata nas sombras. Ele vestia apenas uma calça de moletom camuflada em tons de branco e cinza e munhequeiras pretas envolvendo os pulsos e parte das mãos tatuadas.
Mesmo através de um pedaço de papel, o homem exalava predação. A postura de quem esmaga crânios no asfalto quente e dorme em paz logo depois.
Ergui a foto.
— Quem é esse animal? — minha voz saiu carregada de nojo e incredulidade.