— O nome dele é Gabriel. Conhecido nas ruas como Golias — Vittorio respondeu de imediato, em tom tático. — Ele é quem comanda a Muralha. É o chefe supremo do tráfico e de todas as operações ilegais da região.
— Um traficantezinho de rua. Um rato de esgoto com músculos inflados.
— Eu sugiro que não o subestime, Don. — A voz de Vittorio foi séria. — Ele não é um traficante comum. Ele administra aquela comunidade como um monarca ditador. Paga médicos, financia escolas clandestinas, resolve conflitos internos com execuções sumárias. A polícia do estado evita a área dele. Facções rivais são decapitadas e massacradas quando tentam invadir. Ele tem um contingente de trezentos soldados de linha de frente, todos com armamento militar pesado, fuzis e explosivos. E o principal fator de risco: a fidelidade daquele povo a ele é cega. Absoluta.
Sorri de lado, girando o anel de ouro no meu dedo.
— Fidelidade...
— Ele vai na frente na guerra, Don. Ele come depois dos moradores. Ele sustenta as viúvas dos soldados que caem por ele. A favela inteira morre por ele de bom grado.
Joguei a foto na mesa com desprezo.
— Todo homem inteligente, por mais bestial que seja, pode ser quebrado, Vittorio. Todo império rui. Basta achar o tendão de Aquiles e cortá-lo bem devagar.
Vittorio retirou outra fotografia da pasta e deslizou suavemente na minha direção.
Um menino. Correndo descalço numa laje de concreto suja, rindo enquanto chutava uma bola murcha.
— Antônio — a voz de Vittorio foi cirúrgica, como um atestado de óbito. — Filho de Sara e Golias. O exame de DNA coletado pelos nossos infiltrados confirmou a pureza de 99,99%. É o seu bisneto biológico.
Passei a ponta do polegar sobre o rosto da criança sorridente. Meu sangue. A p***a do meu sangue puro misturado com a escória criminosa do Brasil.
— Ele sabe quem é? — perguntei.
— Não. Sara nunca contou nada sobre a Europa ou sobre a nossa família. O garoto acha que é apenas o filho de um criminoso poderoso.
Fechei a pasta de couro com um baque seco que ressoou pelo escritório.
— Isso termina hoje.
— Qual é a ordem, Don? Mandamos uma equipe tática de limpeza? Varremos o morro?
Caminhei lentamente até o bar, enchi meu copo novamente, o som do líquido ecoando no silêncio mortal.
— Matar é um favor covarde, Vittorio. Um tiro de fuzil no peito, o corpo cai, o luto acontece, as lágrimas secam e a vida continua. Eu não faço favores aos meus inimigos. Eu quero que esse primata do Golias continue respirando. Quero que ele veja tudo o que construiu desmoronar como cinzas nas mãos dele. Quero descobrir como ele dorme, como negocia, qual o limite da dor dele. Quero rachar o império dele de dentro para fora, apodrecer a mente dele. A fraqueza dele é a família.
— Ele é extremamente paranóico e desconfiado, Don. Não abaixa a guarda por um segundo sequer. O homem dorme armado.
— Todo cão de rua abaixa a guarda quando acha que está seguro dentro de casa, ao lado da fêmea.
Vittorio hesitou, um comportamento raro.
— Relatórios confirmam que ele mataria e morreria pela Sara sem pensar meia vez. A devoção dele beira a loucura.
— Isso o torna previsível. E maravilhosamente fácil de se destruir.
Abri a gaveta de segurança da minha mesa e tirei uma pasta mais fina. Couro n***o maciço. Apenas um nome cravado em prata pura na capa: BEATRIZ MORETTI.
— Está na exata hora — murmurei, sentindo o gosto da vitória.
Vittorio endureceu a postura, um lampejo de apreensão cruzando seus olhos frios.
— Don, tem certeza absoluta disso? A senhorita Beatriz... o senhor a conhece. Ela não obedece a limites territoriais ou morais. Ela vai transformar essa missão em um esporte sádico, c***l e estritamente pessoal. Ela não vai poupar nem a irmã, e muito menos a criança. Ela vai queimar tudo.
Olhei no fundo dos olhos do meu conselheiro, revelando o poço escuro da minha alma.
— É exatamente e perfeitamente por isso que eu a escolhi.
Peguei o telefone n***o, altamente criptografado. Digitei os números em silêncio. Três toques depois, a voz gélida, cortante e letal atendeu do outro lado do mundo.
— Don.
— Onde você está?
— Em Londres. Fechando o acordo de controle das docas com o cartel local.
— Aborte absolutamente tudo. Encontrei a sombra da sua irmã.
Um silêncio sepulcral reinou do outro lado da linha. Depois, uma risada baixa, afiada como vidro estilhaçado cortando a garganta.
— Então o fantasma favelado realmente existe e respira...
— Quero você em Milão agora.
— Qual o meu prazo?
— O tempo do meu jatinho cruzar as fronteiras e chegar até você na pista.
— Estarei no seu escritório antes dessa tempestade patética acabar.
A ligação caiu secamente.
Virei novamente para a janela blindada, sentindo a chuva bater no vidro. Lembrei perfeitamente do dia em que minha filha morreu no leito manchado de sangue. O parto duplo. O lixo medíocre do pai delas fugiu na calada da noite com Sara nos braços. Mas Beatriz ficou comigo. Eu a criei. Eu a moldei com as minhas próprias mãos no meio da Máfia. Arranquei do coração dela toda e qualquer fraqueza, extirpei a empatia, queimei a piedade. Fiz dela uma arma de destruição em massa, disfarçada de alta costura e diamantes.
E agora, as duas metades da moeda finalmente se encontrariam para uma colisão fatal.