Capitulo 2

917 Words
— O nome dele é Gabriel. Conhecido nas ruas como Golias — Vittorio respondeu de imediato, em tom tático. — Ele é quem comanda a Muralha. É o chefe supremo do tráfico e de todas as operações ilegais da região. — Um traficantezinho de rua. Um rato de esgoto com músculos inflados. — Eu sugiro que não o subestime, Don. — A voz de Vittorio foi séria. — Ele não é um traficante comum. Ele administra aquela comunidade como um monarca ditador. Paga médicos, financia escolas clandestinas, resolve conflitos internos com execuções sumárias. A polícia do estado evita a área dele. Facções rivais são decapitadas e massacradas quando tentam invadir. Ele tem um contingente de trezentos soldados de linha de frente, todos com armamento militar pesado, fuzis e explosivos. E o principal fator de risco: a fidelidade daquele povo a ele é cega. Absoluta. Sorri de lado, girando o anel de ouro no meu dedo. — Fidelidade... — Ele vai na frente na guerra, Don. Ele come depois dos moradores. Ele sustenta as viúvas dos soldados que caem por ele. A favela inteira morre por ele de bom grado. Joguei a foto na mesa com desprezo. — Todo homem inteligente, por mais bestial que seja, pode ser quebrado, Vittorio. Todo império rui. Basta achar o tendão de Aquiles e cortá-lo bem devagar. Vittorio retirou outra fotografia da pasta e deslizou suavemente na minha direção. Um menino. Correndo descalço numa laje de concreto suja, rindo enquanto chutava uma bola murcha. — Antônio — a voz de Vittorio foi cirúrgica, como um atestado de óbito. — Filho de Sara e Golias. O exame de DNA coletado pelos nossos infiltrados confirmou a pureza de 99,99%. É o seu bisneto biológico. Passei a ponta do polegar sobre o rosto da criança sorridente. Meu sangue. A p***a do meu sangue puro misturado com a escória criminosa do Brasil. — Ele sabe quem é? — perguntei. — Não. Sara nunca contou nada sobre a Europa ou sobre a nossa família. O garoto acha que é apenas o filho de um criminoso poderoso. Fechei a pasta de couro com um baque seco que ressoou pelo escritório. — Isso termina hoje. — Qual é a ordem, Don? Mandamos uma equipe tática de limpeza? Varremos o morro? Caminhei lentamente até o bar, enchi meu copo novamente, o som do líquido ecoando no silêncio mortal. — Matar é um favor covarde, Vittorio. Um tiro de fuzil no peito, o corpo cai, o luto acontece, as lágrimas secam e a vida continua. Eu não faço favores aos meus inimigos. Eu quero que esse primata do Golias continue respirando. Quero que ele veja tudo o que construiu desmoronar como cinzas nas mãos dele. Quero descobrir como ele dorme, como negocia, qual o limite da dor dele. Quero rachar o império dele de dentro para fora, apodrecer a mente dele. A fraqueza dele é a família. — Ele é extremamente paranóico e desconfiado, Don. Não abaixa a guarda por um segundo sequer. O homem dorme armado. — Todo cão de rua abaixa a guarda quando acha que está seguro dentro de casa, ao lado da fêmea. Vittorio hesitou, um comportamento raro. — Relatórios confirmam que ele mataria e morreria pela Sara sem pensar meia vez. A devoção dele beira a loucura. — Isso o torna previsível. E maravilhosamente fácil de se destruir. Abri a gaveta de segurança da minha mesa e tirei uma pasta mais fina. Couro n***o maciço. Apenas um nome cravado em prata pura na capa: BEATRIZ MORETTI. — Está na exata hora — murmurei, sentindo o gosto da vitória. Vittorio endureceu a postura, um lampejo de apreensão cruzando seus olhos frios. — Don, tem certeza absoluta disso? A senhorita Beatriz... o senhor a conhece. Ela não obedece a limites territoriais ou morais. Ela vai transformar essa missão em um esporte sádico, c***l e estritamente pessoal. Ela não vai poupar nem a irmã, e muito menos a criança. Ela vai queimar tudo. Olhei no fundo dos olhos do meu conselheiro, revelando o poço escuro da minha alma. — É exatamente e perfeitamente por isso que eu a escolhi. Peguei o telefone n***o, altamente criptografado. Digitei os números em silêncio. Três toques depois, a voz gélida, cortante e letal atendeu do outro lado do mundo. — Don. — Onde você está? — Em Londres. Fechando o acordo de controle das docas com o cartel local. — Aborte absolutamente tudo. Encontrei a sombra da sua irmã. Um silêncio sepulcral reinou do outro lado da linha. Depois, uma risada baixa, afiada como vidro estilhaçado cortando a garganta. — Então o fantasma favelado realmente existe e respira... — Quero você em Milão agora. — Qual o meu prazo? — O tempo do meu jatinho cruzar as fronteiras e chegar até você na pista. — Estarei no seu escritório antes dessa tempestade patética acabar. A ligação caiu secamente. Virei novamente para a janela blindada, sentindo a chuva bater no vidro. Lembrei perfeitamente do dia em que minha filha morreu no leito manchado de sangue. O parto duplo. O lixo medíocre do pai delas fugiu na calada da noite com Sara nos braços. Mas Beatriz ficou comigo. Eu a criei. Eu a moldei com as minhas próprias mãos no meio da Máfia. Arranquei do coração dela toda e qualquer fraqueza, extirpei a empatia, queimei a piedade. Fiz dela uma arma de destruição em massa, disfarçada de alta costura e diamantes. E agora, as duas metades da moeda finalmente se encontrariam para uma colisão fatal.
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