Dois dias se arrastaram em silêncio.
O céu de Milão agora estava limpo e ensolarado, mas a atmosfera rarefeita no meu escritório cheirava a enxofre e morte iminente.
As portas duplas de mogno se abriram de solavanco, sem nenhum pedido de licença. Os saltos agulha de Beatriz bateram no mármore n***o num ritmo militar, arrogante e extremamente elegante.
Ela usava um terno de alfaiataria escuro feito sob medida que abraçava seu corpo escultural, os cabelos negros soltos caindo como uma cascata noturna, e aqueles olhos azuis idênticos aos meus, idênticos aos da praga da Sara transbordavam uma frieza letal e incontrolável. Ela caminhou até a minha mesa, parou, cruzou os braços e, como esperado, não abaixou a cabeça.
— Mandou me chamar de volta das minhas caçadas.
— Sente-se.
— Prefiro ficar em pé. Facilita a visão do abate.
Sem piscar, empurrei a grossa pasta preta na direção dela.
Beatriz a abriu lentamente. Seus olhos desceram para a primeira foto: Sara. Sua irmã gêmea biológica. A sua cópia idêntica no mundo.
Beatriz encarou o próprio rosto impresso em papel fotográfico, mas vestido em roupas de pobre suadas. Não houve um único milissegundo de comoção. Nenhuma lágrima nublou seus olhos. Nenhuma saudade fraternal. Apenas um olhar clínico, enojado e profundamente sádico.
— Passei a minha vida inteira ouvindo as lendas tristes dos velhos sobre a herdeira perdida e sofredora. — Ela pegou a foto com a ponta dos dedos, como se tocasse em uma doença contagiosa. — Eu, sinceramente, nunca achei que a assombração familiar fosse tão... medíocre. Tão inofensiva e sem brilho. Uma plebeia nojenta.
Ela jogou a foto de Sara de lado com total desprezo.
Continuou folheando o dossiê. Lendo os relatórios táticos de Vittorio.
Até que parou de repente.
Beatriz puxou a fotografia do Golias. Seus dedos de unhas vermelhas e afiadas seguraram a imagem.
Os olhos azuis dela varreram cada milímetro do corpo daquele homem colossal. Ela estudou o tamanho descomunal dos ombros, as veias saltadas que contornavam os braços, as tatuagens grosseiras que manchavam a pele dele de forma caótica. O tigre no abdômen, a palavra 'KING' coroada no peito largo. O olhar hostil, primitivo, e a cicatriz marcante na sobrancelha.
O silêncio no escritório tornou-se pesado enquanto Beatriz dissecava visualmente a carne que estava prestes a rasgar e manipular.
— E o que é exatamente essa aberração da natureza? — a voz dela soou baixa, um misto de repulsa aristocrática e um choque visceral. — O marido?
— O nome de batismo é Gabriel. Conhecido pelos seus soldados como Golias — eu respondi, observando a reação dela de perto.
Beatriz não soltou a fotografia. Ela aproximou a imagem do rosto, estudando as cruzes tatuadas perto dos olhos dele. Um sorriso lento, perverso e altamente perigoso repuxou os cantos dos seus lábios vermelhos.
— Um gorila rabiscado — ela sussurrou, a voz carregada de um escárnio c***l. — Olhem para isso. Ele é absolutamente grotesco. Um verdadeiro ogro. Um primata que se veste com trapos de moletom sujos de sangue e ostenta tatuagens feitas em algum porão imundo de cadeia. Um monstro que deveria estar acorrentado em uma jaula, não respirando o mesmo oxigênio que nós.
Vittorio ia falar, mas ela ergueu uma mão, exigindo silêncio absoluto, ainda com os olhos cravados na figura de Golias.
Ela traçou o contorno do peitoral largo do homem com a unha, o sorriso sádico se aprofundando, a respiração mudando quase imperceptivelmente. O desprezo inicial começou a se misturar com uma fascinação sombria, um instinto predador que reconhecia uma força brutal.
— Mas... — Beatriz continuou, a voz mudando de tom, tornando-se mais gutural, como se o veneno nela estivesse fervendo. — Mas olhe bem para a postura inquebrável dele, avô. Ao mesmo tempo que ele me enoja, ele é estupidamente fascinante. A Europa está infestada de herdeiros bilionários e meninos perfumados que andam de Ferrari, vestem ternos de Armani de trinta mil euros, mas que choram e tremem feito frouxos covardes quando ouvem o estalo de uma arma.
Ela ergueu a fotografia para que eu e Vittorio víssemos o alvo.
— Esse animal não... — Os olhos dela brilhavam com uma malícia devoradora, uma luxúria corrompida pela ânsia de destruição e poder. — Esse bastardo das ruas não precisa de um exército ou de um terno caro para dominar uma sala. Ele impõe o medo só de respirar. Ele é um homem de verdade. Violento. Uma fera feita de testosterona pura, pólvora e sangue coagulado. Um macho alfa em seu estado mais primitivo, letal e incontrolável. Alguém que arrastaria uma mulher para as sombras e a consumiria com a mesma facilidade e fúria com que esmaga os ossos de um rival.
— Ele domina muito mais que apenas uma sala, senhorita Beatriz — Vittorio interveio, cauteloso diante do delírio dela. — Ele comanda um exército de trezentos soldados armados. A polícia não ousa cruzar as fronteiras dele. O povo lá o idolatra como a uma divindade intocável.
A risada de Beatriz estalou alto no escritório, quebrando a tensão com puro deboche e arrogância.
— Um reizinho do lixo brincando de imperador. Que charme exótico e patético. Agora eu entendo perfeitamente o delírio da minha santinha de irmã. Ela se deitou com a fera para se sentir protegida da própria fraqueza.
— Não subestime o homem e não se perca na sua obsessão por jogos físicos, Beatriz — alertei, cruzando minhas mãos enrugadas sobre a mesa, puxando-a de volta para a razão. — Sua missão oficial é desembarcar no Rio de Janeiro. Infiltre-se na vida dele como um parasita invisível. Quero saber exatamente quem tem o preço e a ambição para trair esse ogro. E mais do que isso: quero que ele confie cegamente em você.