— Confiar? — Ela repetiu a palavra, saboreando as sílabas como se o conceito em si fosse uma piada de mau gosto, indigna do intelecto dela. — Avô, por favor. O senhor me ofende. Eu vou fazer essa montanha de músculos rústicos comer na palma da minha mão e rastejar aos meus pés em muito menos tempo do que isso.
Vittorio franziu a testa, o desconforto evidente diante da arrogância desmedida dela.
— Senhorita Beatriz, com todo o respeito à sua capacidade, o instinto de proteção desse homem é impenetrável. Ele não deixa estranhos se aproximarem da esposa ou do núcleo familiar. A segurança daquele morro é um cerco fechado, um estado paralelo. Se você tentar se infiltrar sorrateiramente, vai levar um tiro na cabeça antes de passar da primeira barricada.
Beatriz soltou uma gargalhada curta e gelada. Ela caminhou devagar até Vittorio, os saltos ecoando como marteladas no mármore n***o, encurralando o velho conselheiro apenas com a força da sua presença.
— É exatamente por isso que eu não serei uma estranha, Vittorio. E eu não vou precisar invadir p***a nenhuma sorrateiramente. Ele mesmo vai abrir os portões daquele inferno de favela para mim.
Voltei a me sentar em minha poltrona de couro pesado, entrelaçando os dedos enrugados sobre o colo. A mente da minha neta era um labirinto escuro que me fascinava profundamente.
— Explique o seu plano tático, Beatriz.
Ela se virou para mim, os olhos azuis faiscando com uma genialidade diabólica.
— Eu não vou entrar atirando, e não vou entrar tentando imitar os passos de santa daquela i****a logo de cara. Eu vou entrar na Muralha sendo exatamente o que eu sou perante o sangue: a irmã gêmea perdida. A herdeira rica, deslocada, assustada e fragilizada, que acaba de descobrir através de detetives particulares que a sua amada outra metade está viva.
Ela abriu os braços esguios, encenando a mentira ali mesmo, transformando a própria postura altiva em algo enganosamente dócil por um segundo, antes de voltar à sua postura de víbora.
— Vou fingir que estou desesperada por contato com a minha irmãzinha. Pense comigo, Don Alessandro. O que um homem extremamente territorial, primitivo e com um complexo de salvador doentio faz quando uma mulher com o exato rosto da esposa dele, mas vestida em seda, perfumada e aparentemente indefesa, pisa no território brutal dele?
Eu sorri. Um sorriso meticuloso e c***l, sentindo o orgulho venenoso escurecer meu peito.
— Ele não vai atirar — respondi, acompanhando o raciocínio dela. — Ele não vai te expulsar, porque você é sangue da mulher que ele venera.
— Exatamente! — Beatriz estalou os dedos. — Ele vai tentar me controlar. O ogro tem a síndrome do protetor. Ele vai me colocar sob a asa suja dele para monitorar cada passo meu, tentando proteger a santinha da Sara de qualquer impacto emocional ou decepção. Ele vai me manter perto para me avaliar.
— E você vai usar o instinto protetor da b***a contra ela mesma.
— Precisamente, avô. — Beatriz piscou lentamente, voltando a acariciar a borda da fotografia de Golias que ainda segurava na mão. — Eu serei a presa inofensiva no início. A irmã de berço de ouro que não entende as regras brutais da favela, que precisa ser guiada, instruída e protegida por um "verdadeiro homem". Vou me aproximar mansamente. Vou inflar o ego dele. Vou fazer com que ele se sinta o rei absoluto e indomável que ele acha que é. E enquanto ele estiver ocupado demais brincando de meu guarda-costas pessoal nas vielas... eu vou injetar o veneno.
Ela caminhou até a lareira. A luz fraca e dançante do fogo refletiu em seus olhos, revelando o abismo n***o de sua alma.
— Primeiro, eu me aproximo pela família. Depois, eu confundo os sentidos dele. Vou usar a mesma marca de perfume da minha irmã, mas em uma dose letal. Vou imitar os trejeitos dela de relance. Vou usar o mesmo tom de voz macio quando estivermos sozinhos no escuro. Vou deixá-lo clinicamente insano, sem saber onde termina a esposa sagrada que ele respeita e onde começa a fêmea predadora que ele quer f***r em segredo. Vou fazer com que aquele primata acorde no meio da madrugada suando frio, com o corpo duro de t***o pela irmã gêmea da mulher dele.
Vittorio permaneceu rígido, calado. Até mesmo o velho matador, acostumado a torturar contadores em porões, sabia que não havia blindagem militar no mundo contra aquele nível de manipulação sociopata.
— E quando ele estiver consumido pelo desejo doente e pela culpa... — Beatriz continuou, a voz baixando para um timbre macabro. — Eu começo a destruir as alianças dele. Vou fazer amizades com os generais do tráfico dele, sorrir para os inimigos. Ele vai achar que estou traindo a favela. Mas a Sara tem o meu rosto. A dúvida vai comer o cérebro dele vivo. Ele vai atirar nos próprios homens. A favela inteira vai assistir à própria queda, banhada em sangue e desconfiança, e o nosso gigante nem vai perceber que a faca que está cortando a garganta do império dele foi entregue delicadamente pelas minhas mãos.
Ela guardou a fotografia do brasileiro na bolsa e fechou o fecho de ouro maciço com um clique afiado.
— Eu vou pisar naquele morro fétido, avô. Vou encontrar a minha queridíssima irmã i****a. Vou abraçá-la na frente de todos, vou derramar lágrimas falsas e hollywoodianas de reencontro. E, pelas costas dela, rindo no escuro, vou roubar a sanidade, a alma e o marido ogro que ela escolheu.
Levantei-me lentamente da minha cadeira, arrastando o peso do poder absoluto, e caminhei até ela. Segurei o rosto esculpido da minha verdadeira herdeira com as duas mãos. A pele dela era fria. Uma máquina perfeita de destruição.
— Você é a minha obra-prima absoluta, Beatriz.
— Eu sou o seu legado, Don. O seu espelho. — Ela respondeu, inflexível e letal.
— Vá para o Brasil. Leve o tempo que precisar, esvazie as contas bancárias suíças se for necessário para subornar o país inteiro. Mas quando você terminar o serviço...
— Quando eu terminar, avô... — Ela me interrompeu, retirando minhas mãos de seu rosto com total delicadeza e altivez. — O poderoso Golias vai preferir meter uma bala na própria cabeça a ter que viver com o monstro que ele se tornou nas minhas mãos. E a Sara... a Sara vai perder o marido, a família, e vai chorar desejando ter morrido no mesmo dia em que a nossa fraca mãe sangrou naquela cama de hospital.
Ela deu um passo para trás, arrumou a lapela impecável do terno italiano, e caminhou em direção à saída. As costas retas. A postura de quem carrega a foice da morte.
— O jatinho já está abastecido e pronto para decolagem? — ela perguntou, sem sequer olhar para trás.
— Na pista um, área restrita. A tripulação aguarda apenas a sua presença.
— Excelente. — Beatriz agarrou a maçaneta dupla de mogno. — Prepare a melhor garrafa de uísque da sua adega pessoal para o meu retorno, avô. Eu trarei a coroa daquele ogro favelado completamente manchada de sangue na minha bagagem de mão. E o garoto, o pequeno Antônio... talvez eu o traga para ser criado como um dos nossos cães na Europa, só para quebrar de vez o espírito da mãe.
A porta se fechou com um baque surdo, engolindo a presença dela e deixando um rastro de destruição antecipada no ar.
O silêncio sepulcral voltou a reinar no quinquagésimo andar. A tempestade lá fora parecia ter perdido a força, acovardada pela tempestade muito pior, sombria e irreversível que acabara de descer pelo elevador e embarcar rumo à América do Sul.
Voltei para a minha cadeira de jacarandá, peguei meu copo de cristal e o ergui em um brinde solitário e macabro para as luzes frias da cidade de Milão.
O jogo, a partir de hoje, não era mais sobre armas pesadas, calibres ou invasões territoriais no Rio de Janeiro. Era sobre tortura mental. E naquela arte silenciosa de quebrar humanos ao meio... a família Moretti era e sempre seria a dona do inferno.