>> Naya Hwang >>⠀ ⠀ ⠀
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— Mas que... — Olhei para a Thaís, tentando reforçar o meu psicológico para qualquer explicação que ela poderia me dar.
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Tem um homem ferido na minha porta e eu não faço a mínima ideia de quem é ele. Ele tem sobrancelhas grossas e pretas bem diferente do seu cabelo curto que estava tingido de platinado. Seus lábios avermelhados contrastam um pouco a sua pele com um tom "moreno claro" e o fato do lábio superior ser um pouco mais fino que o inferior faz com que eles se tornem ainda mais atraentes.
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— Essa daí que é a médica? — O homem perguntou curioso, me fazendo encarar seus olhos — Não parece.
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Completou e me olhou de cima a baixo, analisando cada pequena parte do meu corpo não tão coberto pelo baby-doll. Esse homem tem um ar de sinistro e perigoso sobre ele que acaba chamando a minha atenção mais do que deveria.
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— Por que eu não sou! — Deixei claro, tentando sair desse transe maldito que a beleza dele me fez entrar — Eu sou estudante de enfermagem. E a não ser que vocês queiram a minha ajuda só para achar o caminho de uma emergência... eu não tenho como te ajudar.
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Eu não estou em meu estado normal, talvez seja a presença desse homem ou o fato dele claramente ser um envolvido que me fez soar tão grossa e indiferente com a situação.
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— p***a, Thais. Tá me tirando? — Parece injuriado — Nem formada a guria é. E voce quer que eu deixe ela costurar a p***a do meu ombro?!
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— Quer que eu te leve para o hospital? Você aproveita o caminho até lá e já vai treinando o que dizer para os médicos quando eles perguntarem como você levou a droga desse tiro. — Ela ofertou em um tom irônico — Ela é o que tem pra hoje e agradeça a Deus por ainda ter essa opção. Agora, pega a merda da sua b***a e se senta na droga daquele sofá!
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“No meu sofá?”
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— Não, espera a… — Fui interrompida.
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— É melhor você fazer essa p***a direito! — Ele aponta para o meu rosto com um semblante m*l-humorado e depois empurra a porta com força, entrando na minha casa. Sem me dar tempo de falar alguma coisa.
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— Thaís, que merda é essa? Você tá ficando louca? — Perguntei, rangendo os dentes e encarando a minha amiga como se fosse pular no pescoço dela, por que era exatamente isso que eu queria fazer — Eu disse para você não me envolver nessas coisas e você trás a droga de um marginal na minha casa?!
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— É o meu irmão, Naya. Ele foi baleado na missão e eu tava desesperada. O que você queria que eu fizesse? — Ela tentou explicar e pegou as minhas mãos, apertando com força e me fazendo olhar para ela — Por favor. Eu sei o quanto você odeia envolvidos, sei que eu não deveria ter trazido ele aqui, que você quer manter essas coisas longe do Miguel... mas por favor, ajuda ele!
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Eu fiquei olhando os seus olhos desesperados por alguns segundos e o meu estômago se apertou dolorosamente ao ver o medo sem seu rosto. Me virei para o homem, que estava me encarando fixamente com a mão no ombro que foi atingido sentado no sofá amarelo claro que eu tinha comprado e parcelado dezenas de vezes no cartão que o meu pai me deu antes de voltar para a Coreia. Sinto uma onda de eletricidade percorrendo o meu corpo quando meus olhos encaram os deles e a necessidade de ajudar uma pessoa ferida começa a assumir o controle.
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— Tudo bem! — Me dei por vencida encarando a mulher que agora sorria aliviada. Respirando fundo, eu voltei a encarar o homem com a estrutura enorme e todo ensanguentado que estava manchando o meu sofá novinho — Você, tire a camisa.
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Ordenei enquanto caminhava para fora da sala e entrei no meu quarto, vasculhei pelo guarda-roupa o meu kit de primeiros socorros, quando voltei para sala encontrei o homem já sem camisa, praticamente deitado no meu sofá. Ele estava suando descontroladamente, a boca estava pálida e tinha careta de dor.
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— Thaís, você pode ficar observando o Miguel para ter certeza de que ele não vai acordar? — Perguntei séria enquanto me colocava de joelhos em frente ao sofá e ela assentiu com a cabeça, caminhando em direção a porta do quarto do meu filho — Eu não tenho anestesia. Isso pode doer.
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Ele assentiu com a cabeça como se não ligasse para o fato de eu estar prestes a costurar sua pele sem usar uma gota de anestesia. Não me surpreenderia se ele me disse que já estava acostumado a tomar tiros e ser costurado nessas circunstâncias. Engoli em seco, nervosa e um pouco trêmula por tá fazendo essa loucura bem na minha sala e ter seus olhos sobre mim o tempo todo como se ele tivesse só esperando o momento para tirar minha vida não me ajudava em nada.
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— Como isso aconteceu? — Perguntei como quem não queria nada, tentando diminuir a pressão que sentia nos meus ombros e ele ficou alguns segundos me observando antes de responder:
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— Não vai querer saber. Só costura essa p***a, já é? — Ele resmunga, com um tom m*l-humorado e eu dou risada com a narina, colocando as luvas.
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— Você praticamente invadiu minha casa, se não for ao menos um pouco simpático, não posso garantir que vou ser carinhosa com o seu ombro — Alertei e encarei o homem que parecia não conseguir tirar os olhos de mim. Todas as vezes que eu o olhava, ele já estava olhando para mim. Chega a ser desconcertante.
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— É burra o suficiente para ameaçar um bandido? — Indagou parecendo incrédulo e, ao mesmo tempo, intimidador. Levantou uma das suas sobrancelhas como se estivesse aguardando pela minha resposta.
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— Não foi eu que vim pedir socorro para uma guria que ainda nem é formada. — Retruquei e ele ficou me encarando como se não estivesse acreditando na minha ousadia. Ele riu com a narina.
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— É melhor você fazer essa p***a sem avacalhar! — Ele falou sério quando comecei a examinar seu ombro e eu respirei fundo. — Por que eu já fiz pessoas conhecerem o capeta por muito menos que isso.
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Eu ri, mas foi de nervoso. ⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀
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“Depois de hoje, vou repensar melhor as minhas amizades.”
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— A bala tá alojada... — Informei na tentativa de mudar o assunto ao mesmo tempo em que começava esterilizava a pinça com álcool — Eu consigo vê-la e, para sua sorte, acho que consigo tirar. Parece que não atingiu nada importante.
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— Só tira logo essa p***a e... — Enfio a pinça sem aviso prévio e ele geme de dor — p***a, eu disse pra não avacalhar. Sua filha da p**a!
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Esbravejou impaciente se afastando de mim e eu revirei os olhos. Ele invadiu minha casa, me ameaçou e está manchando o meu sofá, não tenho que ser tão cuidadosa com ele.
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— Não era nem para eu estar fazendo isso aqui, você precisava ir para um lugar apropriado e esterilizado. Não vou me responsabilizar se essa ferida inflamar — Informei para o homem que agora estava me olhando irritado e com a mão no ombro — Mas posso garantir que vou fazer o meu melhor como enfermeira se você ficar quieto e me deixar fazer o meu trabalho.
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Ficou me olhando por mais alguns segundos, com o seu semblante fechado e a forma como seus olhos me analisavam deixava bem claro que ele desconfiava das minhas intenções, mas, mesmo assim, ele tirou a mão lentamente do lugar. Continuou olhando fixamente para o meu rosto enquanto eu fazia o meu “trabalho” com atenção.
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— Tá feito! — Avisei assim que terminei de enfaixar o seu ombro e comecei a guardar as coisas dentro da malinha. Ele colocou a mão por cima do curativo e mexeu um pouco o ombro enfaixado. — Agora, por favor, vá pra casa!
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— Foi mal... — Começou e eu olhei para ele curiosa. — Sem condições de voltar para a quebrada essa hora.
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Seu comentário me deixou um pouco mais nervosa do que eu já estava. Eu juro que eu mato a Thaís se esse homem estiver insinuando o que eu acho que ele tá…
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— Os tiras devem tá cobrindo as entradas. — Explicou como se fosse o óbvio e se virou para mim, encarando olho no olho — Vamos ter que dormir aqui... então espero que você tenha feito janta o suficiente para quatro, princesa.
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