CINCO
Juliana percebeu que já tinha acabado com uma garrafa de vinho, mas não estava bêbada, nem mesmo o torpor que buscava para aliviar a dor nos finais de semana. Sempre se obrigava a ser a menina responsável e estudiosa e agora trabalhadeira que os pais queriam. De segunda a sexta feira não bebia nada, não saía, só era responsável. Sorriu enquanto se levantava pra buscar outra garrafa de vinho. Talvez fosse esse comportamento discreto que aquele homem que se aproveitou de sua fragilidade pediu quando ela assinou a certidão de casamento.
Aos finais de semana, se desligava do mundo. Bebia, m*l saia de casa. A não ser as vezes pra comprar algo no mercado. Mas só ficava lá. As vezes pensando em como se vingaria do tio Thomas. Não, do nojento Thomas. E tudo o que ele fez com ela e com as memórias dos pais . As vezes trabalhando no salvamento das informações do notebook do pai e da mãe, destruídos no acidente. Ela sabia que foi tudo o que lhe restou deles, e se conseguisse, poderia recuperar o projeto e limpar a memória dos seus pais e de quebra, acabar com um bom dinheiro. Por isso, trabalhar na Psy também era muito importante. Usaria tudo o que aprendesse para recuperar o que estava salvo ali. Ela já tinha procurado em todas as nuvens possíveis, e não encontrou nem menção ao projeto. O que lhe fazia pensar que talvez os pais tivessem ciência de que Thomas poderia traí-los.
As vezes apenas ficava ali, sentada bebendo e se lembrando de tudo o que aconteceu do momento que soube do acidente até o seu casamento...
Se lembra que Laila dirigiu feito uma louca, nem se preocupando de causar outro acidente e enquanto ela fazia em 35 minutos um percurso que levaria 1:20 no mínimo, Ju só ia pensando no final de semana que perdeu de receber carinho de mãe. Quando chegaram no hospital, souberam que um motorista furou o farol vermelho e que seus pais atingiram ele em cheio. Os dois carros estavam em alta velocidade e o carro dos pais virou uma bola de ferro retorcido e eles morreram no local.
Laila ligou para Thomas para cuidar do enterro enquanto Juliana se livrasse do choque. Thomas fez tudo direito, providenciou o translado dos corpos para Mairiporã. Depois de uma semana, foi até a casa deles. Laila tinha ido embora naquela manhã e Juliana estava dormindo na cama dos pais, abraçada a camisola preferida da mãe e do pijama do pai, sem nem lágrimas para chorar mais.
A visita deveria ser agradável, por isso Ju o recebeu. Achou que a dor dele seria próximo a dor dela, por ele ser o melhor amigo do pai há uns 30 anos.
_ Minha pequena Ju, como você está?
_ Destroçada, mas vida que segue, não é? Você precisa da minha assinatura em alguma coisa da empresa?
_ Não. Vim aqui para a difícil missão de lhe comunicar as besteiras que seus pais fizeram no final da vida.
_ Como assim?
_ Desculpe, Juliana. Mas seu pai se envolveu em alguma coisa muito errada e como consequência, perdeu muito dinheiro. Sua mãe e eu, fizemos todo o possível para livra-los da miséria, mas não teve jeito.
_ Meus pais na miséria? Não sei do que você está falando, tio Thomas. Papai e mamãe estavam felizes, bem. Tinham essa casa no condomínio Beverly Hills, tenho um apartamento de cobertura na capital, a empresa sempre foi muito bem e eles estavam com um projeto milionário.
_ Entenda, minha querida. Seu pai vendeu a empresa e colocou essa casa a venda. Eles foram pra São Paulo pra morar com você lá. E ainda bem que quando ele comprou, colocou diretamente em seu nome, ou então já teria vendido também.
_Vendeu a empresa? A casa deles?
Juliana desabou no sofá não entendendo nada Seus pais pareciam calmos e serenos. Estavam felizes. A mãe até estava falando em biquínis, nunca deixaram de mandar dinheiro, as despesas da cobertura estavam em dia. Como assim estavam falidos e desesperados?
_ Se essa casa está a venda, quer dizer que eu tenho que sair?
_ Sim, você tem até semana que vem pra desocupar a casa. Ela está vendida com tudo o que tem dentro. Você pode tirar seus pertences pessoais e os de seus pais, mas só. Não pode nem tirar a louça ou utensílios.
_ Como você deixou chegar nessa situação?
_ Não fiz nada, Ju. Seu pai quem fez.
_ Não entendo como meu pai pode ter se envolvido em nada que colocaria a segurança das finanças deles em cheque. Menos ainda como minha mãe permitiu chegar nessa situação ou como eles não me deixaram perceber nada. Eu fiz Lockdown aqui com eles, estava tudo normal. Papai não deixou de pagar um único mês do salário dos colaboradores, eu mesma fiz muitas transferências e chequei o serviço deles de home office. A pandemia cobrou altos preços de todo empresário no mundo todo, mas papai tinha margem para não quebrar. E como a maioria dos funcionários dele trabalham em home mesmo antes da pandemia, não foi um grande problema.
_ Não sei no que ele estava envolvido, mas perdeu tudo.
_ E você, tio Thomas? Ele te ajudou a se levantar quando você se envolveu com coisa errada...
_ Ele me deixou ir preso e ficar 6 anos naquele lugar imundo.
_ Ele te deixou? Como assim?
Juliana não era tão inocente a ponto de não perceber a sutil mudança no tom de voz dele. Ouviu raiva, ódio. E sua cabeça automaticamente largou o luto e começou a trabalhar na auto defesa.
_ Eu estou muito cansada. Você pode ir agora e voltar amanhã?
_ Claro, meu bem. Amanhã cedo eu volto com tudo o que precisarmos conversar.
Quando ele saiu, Juliana ligou o computador do escritório do pai. Aquele era o equipamento que usava para resolver muitas coisas da empresa.
Percebeu que não tinha mais acesso a nada, nem a folha de pagamento, nem os projetos, nem as fichas dos funcionários. Absolutamente nada. Tentou hackear os acessos, como o pai a ensinou em caso de assalto cibernético, pra descobrir que estavam ainda mais protegidos.
Alguma coisa em seu cérebro deu um estalo. Aquele computador era pessoal dos pais, ela não tinha acesso a nenhuma informação da empresa, mas deveria ter algo ali para ela se estavam nessa situação.
Procurou incansavelmente, cada arquivo, cada cantinho e não achou nada. Entendeu que qualquer coisa que pudesse salvar, seria dos notebooks que os policiais lhe entregaram com os pertences dos pais. Estavam em seu apartamento na capital, e ela iria no dia seguinte mesmo começar a trabalhar neles. Viajaria de volta depois do almoço, agora tinha duas coisas pra resolver ali ainda. A primeira tinha que ser procurar Alícia, a secretária dos pais. E só depois conversar com tio Tomas.