SEIS

1272 Words
Seis Juliana desligou o computador do pai , e viu que já eram 5 horas da manhã. Passou a noite inteira acordada e não encontrou nada que a ajudasse. Subiu, encaixotou algumas coisas do pai e da mãe e suas também. Colocou os pertences pessoais deles no porta malas e pegou as três caixas do tesouro. Quando era pequena, a mãe a levou no quarto dela e abriu a grande caixa de tesouro. Mostrou a ela fotos antigas, seu cordão umbilical, a pulseirinha da maternidade e falou pra ela que naquele dia ela ganharia uma caixa também. Pra ela guardar ali tudo o que ela achasse que não tinha preço, mas se perdesse seria como arrancar uma parte de seu coração. Mostrou a caixa do papai, mas disse que aquela não poderia abrir até que ele quisesse lhe mostrar, e o mesmo respeito teriam com a caixa dela. Que só ela abriria, não importa o que acontecesse , quando ela tivesse pronta para mostrar seu tesouro a eles. Teve vontade de abrir, mas sabia que naquele momento, com a perca tão recente dos pais, não conseguiria espiar o tesouro deles, nem mesmo os seus, onde tinham tantas lembranças de uma família feliz. Colocou as caixas do tesouro no banco de trás, como se fossem passageiros, como se ali tivesse carregando seus pais. E sabia que tudo o que restou de seus pais estava ali. Dirigiu até a casa de Alicia, e parece que ela a estava esperando, pois não se mostrou surpresa em vê-la. A secretária a abraçou apertado e com os olhos cheios de lágrimas perguntou o que ela faria dali pra frente. _ Eu não sei, Alicia. Tio Thomas disse que a empresa e a casa dos meus pais foi vendida. E eu não sei porque e não sei onde está esse dinheiro. As contas pessoais dos meus pais estão zeradas, minha poupança também. Não sei se eles tinham aplicações, não consigo movimentar isso pelo aplicativo do banco, mas suponho que estejam zeradas também. Achei que você poderia me dizer o que aconteceu para meus pais fazerem isso e eu não saber de nada. _ Também não sabemos, Juliana. Tudo o que sei é que depois do enterro dos seus pais, o Sr. Thomas decretou o fim do luto e disse que ele era o atual dono da empresa. Seus pais não tinham um testamento, sua mãe sempre disse que isso era desnecessário pelo fato de você ser a única herdeira. Quando fui checar as informações, tudo estava em nome dele. _ Então o tio Tomas quem comprou tudo? _Sim. E não entendo porque seus pais fizeram isso. _ Alicia, você acha possível ele ter hackeado tudo e dado um golpe? _ Não sei. Eu chequei. Os recibos de compra e venda e transferência estão datados de antes da morte de seus pais. _ Se ele hackeou então, foi antes de eles morrerem? _ Ou ele deu um p**a golpe nas instituições do governo como a Receita Federal. E eu acho que até pra ele, isso é impossível. _ Nada é impossível, Alícia. Eu achava impossível meus pais me esconderem qualquer coisa ou problema. Ou morrer os dois juntos e me deixar sem nada, na miséria. _ O Thomas sempre foi muito ligado a você, talvez ele te devolva alguma coisa, se não foi um golpe, ele pode ter tomado pra si pra defender seu patrimônio de qualquer coisa que seu pai tenha feito. _ É, estou indo pra empresa agora conversar com ele. Quer uma carona? Quando Alicia entrou no carro, Juliana recebeu uma mensagem de Thomas, perguntando onde ela estava. Ela disse que ia pra empresa pra eles conversarem, e ele disse pra ela ir pra casa. Alicia saiu do carro e aconselhou ela a falar com calma com ele e não acusa-lo de golpe. Quando ela chegou em casa, ele estava dentro do carro parado na porta. Juliana sentiu um frio na espinha e os dois entraram em silêncio. Ela tentou se lembrar dos conselhos de Alícia, mas não conseguiu. Assim que estavam na sala, ela explodiu. _ Não sei o que você fez pra tomar tudo dos meus pais e não esperava isso de você, mas quero que me diga agora o que quer pra me devolver o que tirou deles. - Ah, Juliana. Você costumava ser mais dócil. _ O que quer, Thomas? _ Você! - O que? _ Exatamente isso, docinho. Esperei 19 anos pra ter você. Esperei você completar maioridade para não ser p*******a. Agora você já é uma adulta e pode tomar suas decisões. E eu quero você. _ Você está louco! _ Não estou. Eu assisti de camarote seu pai se apaixonar, encontrar o amor da vida dele e me abandonar. Ele era meu melhor amigo e não ligou para meus sentimentos e as coisas que estávamos fazendo juntos. Então se casou e eu fiquei esperando ele enjoar dessa vidinha mais ou menos, mas eles eram sempre apaixonados e fundaram essa empresa. _ Empresa que chamaram você pra fazer parte e você não quis. _ Sim. Eu nunca fui de trabalhar, docinho. Fundar uma empresa do nada dá muito trabalho. Quando eles começaram a crescer, tiveram você. E eu não me afastei deles por achar que você seria meu troféu, minha bonificação por aturar tanta melação. Por aturar sua mãe me tirar tudo. _ Minha mãe não te tirou nada. Vocês eram amigos e meu pai te amava e fazia tudo por você. Como você pode ter esses pensamentos com uma criança pequena, seu pervertido? _ Você estava tirando meu sono. Um dia quase te toquei. Perdi a concentração e acabei sendo preso. Foram anos difíceis. Depois que sai, você já era uma mocinha, não sentava mais em meu colo. Tive que aguentar a humilhação de trabalhar pra sua mãe na minha empresa! _ A empresa era dela! Eles fundaram juntos, ela quem trabalhou com meu pai por isso. _ Se ela não tivesse aparecido, pra começo de conversa, quem teria feito tudo isso com seu pai? _ Você é um psicopata! _ Pode ser, docinho. Você já ouviu falar que psicopatas são muito inteligentes? Nesse momento, tenho tudo o que você acha que te pertence. E você pode ter acesso a tudo, se casar comigo _ Você passou uma vida desejando o que meu pai tinha! Não era ciúmes do meu pai ou ódio da minha mãe. Era inveja. Você pode ser muito inteligente, mas não passa de um inútil incapaz. Não teve capacidade de construir nada em sua vida e escolheu roubar o que meu pai teve. Mas tenho uma surpresinha pra você. Eu sou filha deles, tenho o caráter e honra deles. Você nunca vai ter uma filha tão bacana como eu. E eu, você nunca terá. _ Como quiser, docinho. Deixei uns trocados em seu cartão para você abastecer seu carro pra voltar para seu apartamento. Você tem meu número. Quando não puder mais se sustentar, me ligue e eu vou te buscar pessoalmente. Juliana não acreditou que estava passando por aquilo. Ele disse pra ela não se preocupar com as chaves da casa que os novos donos trocariam a fechadura. Depois que ele saiu, ela se jogou no sofá e chorou. Chorou pela morte dos pais, chorou pela traição da pessoa que ela considerava um tio. Chorou por ter perdido o patrimônio da vida deles. Chorou por cada colaborador da empresa que os pais tratavam como família e que teriam uma nova política agora. Depois, enxugou as lágrimas, passou por cada cômodo da casa tendo lembranças deles, se despediu e foi embora sem olhar pra trás.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD