Capítulo 1 - ele
"I was your favorite in another life
It was you and me
Maybe there we loved each other right
In that life, you were my friend
You were my love"
Baseado em fatos que eu gostaria que fossem reais
– Mamãe, tô indo, tchau! – avisei minha mãe que estava saindo.
– Não quer que eu te leve?
– Não precisa, obrigada.
– Tá bom então, tchau e bom treino!
Eram as últimas semanas antes do campeonato estadual de tênis. Eu havia conquistado o título no regional, e o estadual era agora a meta inegociável, um degrau indispensável para provar a mim mesma que era capaz de voar ainda mais alto. Com treinos intensificados e sessões exclusivas marcadas pelo treinador, cada gota de suor se transformava numa promessa silenciosa de vitória.
Na quadra, quando deixei minhas coisas no banco, ele se aproximou com aquele sorriso maroto que sempre me fazia esquecer o nervosismo.
– E aí, campeã, como vai?
Eu, ajeitando a faixa de cabelo com dedos trêmulos, respondi:
– Oi, chefe... Tô um pouco apreensiva com esse estadual, mas fora isso, tudo certo.
Ele arqueou as sobrancelhas e, num tom brincalhão, mas com um fio de seriedade, replicou:
– Relaxa, depois vai piorar, principalmente na semana do torneio, quando você enfrentar seus oponentes.
O comentário soou como uma provocação c***l para meu coração, aquele mesmo coração que, em momentos de tensão, começava a bater tão forte que eu m*l conseguia respirar. Meus olhos se arregalaram e, por um instante, pensei que ele realmente sabia dos meus problemas. Era disso mesmo que eu estava precisando, de um ataque catastrófico do coração bem próximo do torneio.
– Calma, calma, tô te zoando, ele disse, rindo alto, como se não houvesse consequências.
– Ai, ai... Muito engraçado, né? Acho que não te falei que tenho problemas de coração! –respondi, tentando disfarçar a ansiedade que subia.
Mas, apesar do susto, havia algo nessa relação leve e cheia de provocações que me acalmava, como se o jeito brincalhão dele conseguisse, de alguma forma, suavizar todos os riscos.
O treino se estendeu por quatro horas intensas, e quando finalmente chegou ao fim, meu corpo clamava por descanso.
– Mas você já cansou? A gente m*l treinou hoje, menina! – ele brincou.
– Olha... não vou... gastar o pouco fôlego... que ainda tenho... pra te responder...
E entre risadas cúmplices, ele concluiu:
– Poupa o fôlego pra amanhã, então, tá? Tchau, bom descanso!
– Tchau... pra você também.
Eram quase 8 da noite e a fome apertava. Decidi passar no mercadinho perto de casa, o único lugar que abrigava algumas opções de jantar, já que minha mãe detestava cozinhar.
Mas hoje, além de saciar a fome, minha mente divagava em pensamentos que iam além do campeonato: meus pensamentos sempre retornavam a ele, o Carlos.
Carlos era um funcionário discreto, quase invisível aos olhos dos clientes, mas para mim, ele era impossível de ignorar. Ele era extremamente tímido, sempre com o olhar pra baixo e só falava quando era muito, mas muito necessário. Ele sempre mantinha seus olhos fixos nas mercadorias que ele incessantemente repunha todos os dias. O que era uma pena, porque ele possuía os olhos mais lindos que eu já havia visto. Como eu sabia disso? É uma história muito vergonhosa que não vem ao caso agora e espero que ele não se lembre disso.
Minha mãe, por sua vez, odiava ele justamente por trabalhar no mercadinho. Dizia que ele era um sem futuro, fracassado e atrasado mental. Ela nunca perdia a chance de criticar.
– Veja só, ali está aquele sem futuro, fracassado... Saiba que nunca quero te ver seguindo o mesmo caminho!
A verdade é que eu não queria ser apenas como ele, eu ansiava por ele. Queria entender o homem por trás daquele olhar tímido e desvendar os mistérios que o envolviam.
Até então, minhas interações eram sempre desculpas esfarrapadas: perguntar "onde fica o extrato de tomate?" ou "onde está a gelatina sem sabor?" apenas para ouvir sua voz suave, sendo que eu sei exatamente onde fica cada coisa nesse mercado. Eu queria. Não. Eu precisava dar um passo à frente, precisava conhecê-lo melhor, precisava saber quem é ele fora do mercado e sem esse uniforme ridículo. Hoje, porém, decidi que era hora de ir além dos clichês.
Lá estava ele, como sempre, sentado num banquinho de madeira, concentrado em organizar uma prateleira de biscoitos. Eu poderia deixá-lo em paz e seguir meu caminho, mas ele era a razão do meu coração disparar, das minhas borboletas no estômago, então eu precisava falar com ele. Era quase uma obrigação vir ao mercado todos os dias só pra ver ou falar com ele, me sentia realizada sempre que isso acontecia. Meu coração acelerava a cada passo que me aproximava, e, em um misto de nervosismo e determinação, fui em direção a ele.
– Bo-boa... boa tarde... ou melhor, boa noite? Onde é que... onde ficam os platos de copo? – gaguejei, inventando um produto do nada e rezando para que ele entendesse.
Carlos levantou a cabeça lentamente, seus olhos serenos revelando uma curiosa mistura de confusão e paciência. Além de ter problemas de coração, eu gaguejava quando ficava nervosa. Mas que maravilha, hein, pra não dizer o contrário. Meus pais devem ter me feito com pressa pra eu vir toda errada desse jeito.
– Boa noite. Você está precisando de quê mesmo? – indagou, com uma voz que soava como uma melodia suave.
Respirei fundo, tentando ordenar os pensamentos.
– Vo-você sabe onde ficam os copos de plástico?
– Sei sim. Pode me acompanhar, por favor.
Caminhamos juntos pelo corredor estreito do mercadinho, onde as prateleiras pareciam sussurrar histórias de dias antigos. Ao chegarmos, lá estavam os copos, no mesmo lugar que sempre estiveram desde que o local inaugurou.
– Tem esse pequeno, de café, e esse maior – explicou ele, apontando com delicadeza.
– Perfeito. Obrigada – respondi, com um misto de alívio e arrependimento por ter demorado tanto para dizer algo mais.
– Por nada – ele replicou, como se a simples troca de olhares bastasse para quebrar a barreira do silêncio.
Mas eu ainda sentia que algo faltava – uma palavra, um gesto, uma chance de revelar o que realmente se passava no meu coração.
– Ei, espera!
Carlos, que já começava a se afastar, voltou com os olhos fixos nos meus, tão intensos que me fizeram esquecer momentaneamente de tudo.
Num impulso incontrolável, minhas palavras saíram atropeladas:
– Seus... seus olhos... são os mais lindos que já vi em toda minha vida.
O tempo pareceu congelar. Meu rosto se incendiou num rubor profundo, e o silêncio que se seguiu foi tão ensurdecedor quanto a batida acelerada do meu coração. Sem conseguir suportar o constrangimento, agarrei o pacote de copos e, num reflexo nervoso, fugi do mercadinho como se minha vida dependesse disso.
Ao chegar em casa, a adrenalina ainda pulsava em minhas veias. Me sentei na beira da cama, revivendo cada segundo daquele encontro em looping. Eu sabia que, ao sair tão precipitada, havia deixado algo por dizer, ou melhor, havia roubado mais do que palavras. O pacote de copos, comprado por impulso e agora roubado sem querer, era a prova física do turbilhão que Carlos despertava em mim.
Horas se passaram, e o dilema se transformava em uma decisão inevitável: eu precisaria voltar ao mercadinho amanhã para consertar aquele deslize. Mas, além disso, sabia que tinha que enfrentar meus medos e encontrar as palavras certas para, quem sabe, transformar aquele momento embaraçoso em algo mais.
Na penumbra do meu quarto, entre suspiros e pensamentos acelerados, tracei planos e ensaiei diálogos. A ideia de encarar Carlos novamente me enchia de uma estranha mistura de desejo e terror. Eu não podia encará-lo de novo. Nunca mais. Mas, ao mesmo tempo, queria vê-lo mais do que tudo. E já que amanhã eu teria que voltar lá pra pagar os copos que eu roubei por impulso, decidi planejar mais alguma coisa pra dizer a ele:
— Amanhã – pensei – vou me preparar melhor, vou contar sobre minhas inseguranças, meu coração acelerado, e talvez até arriscar perguntando se ele gostaria de um café depois do trabalho. Quem sabe possa florescer algo bonito entre nós?
E assim, entre a expectativa de um novo dia e a possibilidade de transformar um tropeço em um passo decisivo, minha mente vagava pelas incertezas do amor e do destino. Afinal, não é todo dia que a vida nos desafia a sair da zona de conforto, seja nas quadras de tênis ou nos corredores de um pequeno mercadinho – onde, por trás de um uniforme simples, um coração tímido espera ser descoberto.