A viagem começou em silêncio.
Nenhuma palavra foi dita enquanto eu entrava no carro. Além do nosso, havia mais dois veículos, todo ocupados por homens.
Evitei olhar para Vittorio. Ele por sua vez, observava tudo ao redor com a calma perigosa de quem controla cada detalhe.
O moto ligou e, naquele instante, eu entendi, não estava deixando apenas Portugal. Estava voltando para uma vida que nunca deixou de me pertencer. Seguimos direto para um aeroporto particular.
Por fora, nada chama atenção. Por dentro, tudo respirava poder.
Homens armados, olhares atentos, movimentos calculados, Vittorio não precisava levantar a voz. bastava sua presença para que todos obedecessem.
No jato, sentei-me distante. Ele permaneceu de pé por alguns minutos, conversando em italiano com um dos homens, não precisei ouvir para entender, negócios e negócios.
Quando finalmente se sentou à minha frente, seu olhar já não carregava raiva- era estratégico.
- Você precisa entender uma coisa Siena - Disse, calmo. - Eu não sou apenas o homem com quem você foi prometida.
Não respondi.
- Eu não costumo repetir as mesmas coisas - continuou - o que aconteceu esta manhã não pode se repetir. Se não estou com você, a forma de se vestir, até mesmo para dormir, precisa ser adequada.
Eu não compartilho o que é meu. Nem olhares.
Ele fez uma breve pausa.
- E mais uma coisa, eu jamais vou machucá-la, mas alguém sempre paga por você, cada passo seu, cada escolha, tera consequências para outra pessoa.
Engoli em seco.
- Eu não pedi isso - Murmurei.
- Nenhum de nós pede - respondeu ele. - Aprendemos a cumprir nossos deveres.
A viagem seguiu longa. Vittorio falou pouco, mas cada frase parecia cuidadosamente escolhida para me lembrar o lugar que agora eu ocupava. Além de sua futura esposa, seria sua posse.
Quando pousamos na Itália, o ar precisa mais pesado, carros nos aguardavam. Mais homens, mais armas, mais certeza que não havia retorno.
A casa para onde eu fui levada não era o lar da minha infância. Era maior, mais fria, mais escura e feita para impor respeito.
Assim que desci do carro, Vittorio disse:
- Vou levá-la até o seu quarto. Até o casamento, teremos quartos separados. E depois disso teremos nosso quarto juntos!
- Obrigada… Ainda não estou preparada para dividir a cama com você.
- Eu sei - respondeu - Apesar de ser uma casamento arranjado, não quero me deitar com alguém que não me queira. Podemos viver dessa maneira.
- Obrigada mais uma vez. Farei o possível para não incomoda-lo.
Ele pediu para os homens levassem as malas ao meu quarto e dispensou todos da casa. Antes de subir, mostrou-me o lugar, uma cozinha ampla e equipada, integrada à sala de jantar e estar, um escritório reservado.
No andar de cima, nossos quarto e dois de hóspedes.
A decoração era sóbria, bonita, havia câmeras por toda parte.
Do lado de fora, uma piscina, um jardim bem cuidado, área de churrasqueira e uma lavanderia pequena.
Meu quarto ficava ao lado do dele. Era grande, claro, uma janela ampla, closet e banheiro exclusivo. Suspirei aliviada por não precisar dividi nem isso.
- Você pode decorar tudo nessa casa como quiser, ela é sua agora - disse ele. - Esse cartão não tem limite, Use como achar melhor.
Se precisar sair, avise com antecedência. Meus homens irão acompanhá-la.
Temos uma cozinheira na casa e uma camareira somente para você.
E lembre-se, estamos cercados de soldados. Para vivermos em paz, evite chamar atenção. Não circule descoberta, mantenhas as continhas do seu quarto fechadas.
Era informação demais, regras demais.
- Obrigada Vittorio. Acho que preciso de um tempo sozinha. Arrumar as coisas, tomar um banho e descansar. Tudo bem?
- Estarei no escritório, se precisar.
Ele já estava saindo, quando parou à porta.
- O casamento será em três semanas.
Meu corpo gelou.
- tempo suficiente para os preparativos. - disse ele.
Fiquei parada, sentindo o peso daquelas palavras esmagarem qualquer resquício de esperança.
Três semanas.
Era tudo o que me restava antes de me tornar, oficialmente, aquilo que sempre dividiram por mim.