A casa nunca tinha sido tão leve.
Não havia mais silêncio entre eles, só risadas abafadas atrás de portas fechadas, olhares que demoravam demais, mãos que sempre encontravam o caminho de volta uma para a outra.
Siena acordava com Vittorio já observando.
— O quê? — ela murmurava, voz rouca de sono.
— Nada — ele dizia. — Só confirmando que você é real.
Ela ria e escondia o rosto no travesseiro, mas o sorriso durava o dia inteiro.
A convivência deles tinha virado uma dança fácil. Natural. Quente. Íntima de um jeito que não precisava ser explicado. As brincadeiras entre eles estavam cada vez mais frequentes. O toque entre eles era constante, uma mão na cintura ao passar, um beijo demorado na cozinha, sussurros que faziam Siena perder o raciocínio no meio de frases, uma chupada sem pretensão.
E Vittorio adorava isso.
Adorava o efeito que tinha nela.
Mas o que ele não sabia… era que Siena estava contando os dias.
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O aniversário dele se aproximava em silêncio.
Ela não comentou.
Não insinuou.
Não deixou escapar nada.
E isso, por si só, já era suspeito.
Vittorio conhecia a esposa o suficiente para saber que silêncio demais significava plano demais.
— Você está escondendo alguma coisa — ele disse uma noite, encostado na porta do closet enquanto Siena fingia organizar roupas.
— Não estou.
— Está.
— Não estou.
Ele cruzou os braços.
— Está.
Ela virou devagar.
— Vittorio… confia em mim.
O sorriso que veio depois foi doce demais.
Perigoso demais.
Ele estreitou os olhos.
— Eu confio. Mas estou com medo.
Ela riu e empurrou ele para fora do closet.
— Vai trabalhar.
A porta fechou na cara dele.
Vittorio saiu sorrindo.
Se fosse uma armadilha… ele iria feliz.
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Os preparativos eram um caos secreto.
Beatrice virou cúmplice imediata.
— Você vai m***r esse homem — a irmã murmurou, olhando a lista de convidados.
— É só uma festa.
— Siena… isso não é uma festa. Isso é um evento diplomático.
E era.
Aliados.
Famílias.
Negócios.
Respeito.
Tudo em uma única noite.
A casa estava um caos bonito.
Flores na mesa.
Caixas abertas.
Fitas espalhadas pelo sofá.
Siena segurava uma vela sem saber onde colocar.
— Bea… — suspirou — isso parece um casamento.
— É o aniversário de um mafioso rico e apaixonado. É praticamente a mesma coisa.
Siena riu nervosa.
Beatrice parou de arrumar e olhou pra irmã com atenção demais.
— O que foi?
— Nada.
— Siena.
Silêncio.
Siena sentou no braço do sofá, torcendo os dedos.
— Eu quero… fazer uma coisa hoje pra ele.
Beatrice ergueu uma sobrancelha.
— Isso pode significar muitas coisas.
Siena corou.
— Eu quero… estar pronta.
O silêncio que veio não era julgamento.
Era compreensão.
Beatrice sentou ao lado dela.
— Você tem certeza?
Siena demorou pra responder. Não por dúvida, mas porque queria dizer certo.
— Eu amo ele, Bea. E não é pressão. Não é medo de perder. Eu quero dar isso pra ele… porque é dele. Nosso casamento merece isso.
A irmã segurou a mão dela.
— Então não é sobre agradar ele. É sobre você escolher.
Siena assentiu.
— Eu só… não sei como fazer. E isso é humilhante de admitir.
Beatrice riu baixo.
— Bem-vinda ao clube de todas as mulheres da história.
Siena escondeu o rosto nas mãos.
— Eu vou morrer.
— Não vai. E deixa eu te contar um segredo — Beatrice inclinou pra perto — homem apaixonado não está avaliando desempenho. Ele está feliz por estar ali.
Siena respirou, absorvendo aquilo.
— E se eu travar?
— Então você ri. Ele ri. Vocês continuam. i********e não é coreografia perfeita, é confiança.
Siena ficou em silêncio.
Depois sorriu.
Um sorriso pequeno… mas decidido.
— Hoje é o presente dele.
Beatrice apertou a mão dela.
— Não. Hoje é o presente de vocês dois.
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A decoração tomava forma como um palácio improvisado. Luzes douradas, música planejada, comida impecável. Nada podia falhar. Não era só o aniversário de Vittorio.
Era a reafirmação de quem ele era.
E Siena queria que fosse perfeito.
Porque o presente real…
não era a festa.
Era depois.
⸻
O aniversário começa no fim da tarde.
Casa cheia.
Aliados.
Música.
Risos.
O vestido que ela usava era simples.
Mas o olhar…
não era.
Havia uma decisão ali.
Uma promessa.
Ela se aproximou devagar, ajeitou a gola da camisa dele, como se fosse a coisa mais inocente do mundo.
— Feliz aniversário.
O beijo foi curto.
Mas carregado.
Vittorio segurou o pulso dela antes que ela se afastasse.
— Siena…
Ela encontrou o olhar dele.
Sustentou.
O coração batendo alto demais no peito.
— Aproveita sua festa — ela sussurrou. — O presente vem depois.
E saiu.
Deixando ele parado.
Imóvel.
Com a mente em guerra.
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A festa foi grandiosa.
Homens importantes.
Mulheres impecáveis.
Sorrisos calculados.
Brindes longos.
Vittorio estava perfeito no papel que o mundo esperava dele.
Mas os olhos…
sempre procuravam Siena.
E toda vez que encontravam…
ela estava olhando de volta.
O vestido que ela escolheu naquela noite parecia feito para provocar incêndios silenciosos. Elegante. Seguro. Cada movimento dela era consciente. Cada sorriso, uma promessa privada.
Ela não se afastava.
Mas também não se aproximava demais.
Era tortura calculada.
Beatrice percebeu.
— Você vai acabar com ele — murmurou ao passar.
Siena sorriu.
— Essa é a ideia.
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Quando o último convidado foi embora, a casa finalmente respirou.
Silêncio.
Portas fechando.
Passos ecoando.
A noite caindo de verdade.
Vittorio tirou o paletó sem tirar os olhos dela.
— Então…
A voz saiu baixa.
Perigosa.
— Onde está meu presente?
Siena sentiu o estômago revirar.
Era agora.
Ela caminhou até ele.
Parou a um passo de distância.
A mão tremia quando subiu até o peito dele.
Mas o olhar…
estava firme.
— No quarto — sussurrou. — Me encontra lá.
E subiu as escadas.
Sem correr.
Sem olhar para trás.
Sabendo que ele viria.
Cada passo dela era uma contagem regressiva.
E naquela noite…
Siena não estava fugindo.