Capítulo 2

2084 Words
Tentei não suspirar muito de tédio mas a julgar pelo tempo em que estava ali encarando a careca ensopada do meu supervisor eu não poderia estar de outra forma, eu até entendia que ex-condenados precisavam dessas babás para garantir que não voltassem ao crime, mas eu não precisava, viver naquele lugar imundo era motivação suficiente para que eu não quisesse cometer nem uma infração de trânsito. - Está tudo certo, você tem um endereço fixo, mas ainda falta o emprego... - assenti com a cabeça pegando o papel de sua mão. - Consiga isso em até duas semanas, e lembre-se que não pode trabalhar com nenhum outro ex-condenado senão será presa novamente. - Por causa do crime que ela cometeu? - ouvi a Alison questionar se inclinando na cadeira para bisbilhotar os papéis sobre a mesa. - Não, é uma norma da justiça aplicável a qualquer pessoa que esteve presa. - ele sorriu simpático após responder, revirei os olhos me levantando da cadeira para ir embora. - Te vejo quando conseguir um emprego, Alice. - Alice... - ignorei o chamado da Alison andando a passos largos para fora daquele prédio. - Desculpa ter feito você perder a manhã toda aqui, na próxima eu pego um ônibus. - falei assim que alcancei a calçada, ela parou ao meu lado cruzando os braços. - Não sabia que ia demorar. - Eu não me importo de trazê-la, ou de te levar onde desejar. - senti seu corpo se chocar levemente com o meu. - Ei... - ela murmurou me fazendo olhá-la nos olhos. - Eu sou sua irmã, estou aqui para o que precisar. Sorri em agradecimento mesmo que em meu coração eu soubesse que não era totalmente verdade, ela não me ajudaria a recuperar o Charlie, talvez até mesmo achasse que eu não era boa o suficiente para ser mãe dele, ou para conhecer a sua filha. - Te deixo em casa antes de ir para o trabalho. - ela comentou indo até seu carro estacionado ali na frente porém neguei a deixando confusa. - Eu quero caminhar um pouco e conhecer as coisas, irei para casa mais tarde. - ela não pareceu muito confiante em me deixar ali mas retirou as chaves da casa, um pouco de dinheiro do bolso e me entregou antes de partir. Esperei seu carro sumir na esquina antes de seguir pela rua em busca de uma padaria, assim que avistei a primeira comprei alguns bolinhos e segui com esta caixa em mãos, não era um plano elaborado e inteligente mas eu esperava muito que o universo me ajudasse naquele momento. Se a Sophia estivesse no trabalho com certeza iria para casa aquela hora almoçar a delegacia não ficava muito longe de sua residência, mas, se estivesse de folga eu teria que torcer para encontrá-la no parque brincando com meu filho ou no mercado próximo de sua casa fazendo compras. Para minha sorte, assim que cheguei a rua de sua casa me deparei com ela vindo distraidamente mexendo em seu celular, agarrei a caixa firmemente contra meu corpo e acelerei meus passos, ela sequer notou o que a atingiu e nós duas já estávamos no chão. - Droga! - a ouvir murmurar enquanto se levantava do chão recolhendo seu celular. - Não.. não! - falei tentando soar o mais desesperada possivel enquanto tentava salvar os bolinhos destruídos. - Me desculpe moça, eu não te vi. - a observei se abaixar e juntar-se a mim na missão de catar os bolinhos do chão. - Acho que estão arruinados. - ela murmurou com um sorriso sem graça, olhei em seus olhos notando pela primeira vez que ela não havia mudado tanto no decorrer dos anos, ainda possuía a mesma beleza. Seus olhos sempre tiveram tons claros que se assemelhavam a avelã, e quando sorria eles costumavam desaparecer dando espaço as covinhas em suas bochechas que acentuavam ainda mais o jeito fofo que ela possuía e que combinava tão bem com sua voz suave e gentil. - Eu... - tentei falar algo porém esqueci o que era, ela sorriu mas dessa vez não estava mais sem graça e sim sorrindo de maneira amigável. - Eu sinto muito, sou uma desastrada. - ela se levantou me dando sua mão para que com sua ajuda eu fizesse o mesmo. - Eu moro bem ali, quer entrar para se lavar? Contive o sorriso ao ouvir aquilo, nem dava para acreditar que foi tão fácil assim ser chamada para entrar na casa dela, para uma policial, a Sophia era péssima em detectar o perigo, e eu me aproveitaria ao máximo disso. Sendo guiada pela ruiva que continuava numa tentativa patética de se desculpar pelos bolinhos amassados adentrei o covil do inimigo, digo, a casa da Sophia. - O banheiro fica no segundo andar no fim do corredor. - concordei com a cabeça mantendo meus olhos vidrados em todas as fotos que havia espalhadas na sala. - Esse é o Theodore, meu filho de 10 anos. - contive o nojo ao ouvir a forma como ela o chamou, ele jamais seria seu filho mesmo. - Ele adora dinossauros. - ela pegou um porta retrato me mostrando uma foto dele com pijamas de dinossauro e uma cara de bravo. Desejei chorar ao ver o quanto o meu menino havia crescido mas eu não podia fazer isso naquele momento, seria extremamente estranho. - Ele é lindo. - me limitei a dizer aquilo para não denunciar o quanto havia ficado desestabilizada. - Onde fica o banheiro mesmo? - ela apontou para as escadas e eu assenti em concordância. Ao chegar no banheiro lavei rapidamente minhas mãos e sai sorrateiramente pisando devagar, eu não sabia se ela subiria as escadas então me apressei a entrar na primeira porta que vi me deparando com paredes em tons de azul cheias de estrelinhas e muitos brinquedos espalhados pela cama e pelo chão, o lugar exalava o cheiro do meu filho dando-me ainda mais vontade de encontrá-lo e abraçá-lo, mas eu ainda não podia fazer isso, então me abaixei pegando um pequeno dinossauro e o enfiando no bolso da jaqueta sai do seu quarto de fininho, olhei para a minha esquerda encontrando outra porta, deduzi ser o quarto da Sophia então empurrando devagar a porta para não fazer barulho me esgueirei para dentro notando que era tudo muito organizado. O bom das pessoas que amam organização é que você consegue saber seus próximos passos facilmente porque eles simplesmente anotam tudo e deixam fixo em algum canto, e para minha sorte, lá estava um papel anexado na parede perto de sua cama. Rotina escolar, de trabalho e principalmente os planos para os dias de folga, Sophia facilitou muito a minha vida. Peguei meu celular tirando algumas fotos daquilo antes de sair do seu quarto. Assim que coloquei o pé no primeiro degrau a vi parada lá embaixo me observando, espero que ela não tenha me visto engolir a seco ao ser pega de surpresa. - Conseguiu limpar as mãos? - ela perguntou em um tom amigável, assenti com a cabeça terminando de descer os degraus. - Percebi agora que eu lhe conheço de algum lugar... - Tenho um rosto comum. - comentei tentando soar tão amigável quanto ela, mas era uma missão impossível visto que eu estava de frente a mulher que me infernizou por anos no colégio e ela sequer se lembra. - Eu sou a Sophia Hastings, trabalho como policial aqui em Hope Garden, mas acho que já sabia. - ela apontou para a sua própria farda sorrindo sem graça. - Posso te servir um suco... - ela fez uma pausa esperando que eu dissesse meu nome. - Alice. - respondi enquanto a acompanhava até a cozinha analisando tudo a minha volta. - Tinha minhas suspeitas de que era você, mas está tão diferente desde o colégio, fazem o que... - ela murmurou pensativa sem abandonar aquele sorrisinho do rosto. - Uns 14 anos? - 11. - corrigi sorrindo falsamente, aceitei o copo de suco me sentando próximo dela na mesa. - Fico feliz por te ver, sempre me perguntei o que houve com você depois de tudo. - ela colocou a mão debaixo do queixo me olhando atentamente. - O que andou fazendo? - esculpindo sabonetes na cadeia era o que eu queria responder mas me contive. - Eu estive fora da cidade. - me limitei a responder, se ela fosse um pouco esperta investigaria minha vida e acharia uma ficha criminal mesmo que o motivo da minha longa prisão fosse confidencial por conta da minha menor idade na época em que ocorreu aquilo ainda sim poderia me prejudicar. - E você, está tendo a vida que sempre quis como mãe e policial? - tomei um gole de suco mantendo meus olhos fixos nos seus. - Vamos nos poupar disso. - ela suspirou se levantando de repente. - Alice, eu te conheço, sei porque está aqui. - engoli a seco olhando para os lados a procura de uma saída rápida, não achei que as coisas dariam errado tão rápido, eu não era boa de correr mas poderia tentar. - Não precisa fingir que está aqui interessada na minha vida de mãe... - ela se aproximou parando a minha frente, talvez daquele ângulo ela pudesse ver que eu estava suando de nervoso. - Não sei do que está falando. - murmurei baixinho me fingindo de desentendida enquanto erguia meu queixo para olhá-la melhor. - Está aqui porque temos um passado e você quer que eu me desculpe com você. - então ela se lembrava do que aconteceu. - Eu nunca me retratei com você por tudo o que fiz, e agora que somos adultas eu acho incrível que tenha me procurado para que nos acertemos, mesmo que seu modo não tenha sido muito convencional já que ao invés de falar comigo derrubou bolinhos em mim. - sorri assentindo lentamente enquanto me perguntava se aquela mulher era muito burra ou o que? - Você acertou em cheio! - me levantei dando um soquinho no seu ombro. - Vim para que façamos as pazes. - menti descaradamente seguindo sua linha de raciocínio. - Eu sabia, não cai muito naquela de que não me viu na rua e derrubou seus bolinhos. - deixei um riso escapar deixando-a acreditar no que queria. - Eu fico feliz em poder tirar esse peso dos meus ombros, sempre ensino o meu filho a ser gentil com as pessoas e eu não fui com você, o que me torna uma tremenda hipócrita. - senti suas mãos tocarem meus braços, engoli a seco ignorando a sensação estranha que sua proximidade me causou. - Éramos adolescentes, está no passado. - me forcei a dizer no tom mais sereno possível, ignorei a raiva raiva me causava em ter que diminuir toda a minha dor somente para me aproximar dela, após ouvir aquilo Sophia deu um passo se aproximando me fazendo dar um passo para trás em cautela. - Eu... - Me deixe compensá-la Alice, posso lhe fazer um jantar amanhã a noite. - eu queria não ficar enojada com o fato dela achar que poderia me comprar com comida. - Farei lasanha. - talvez não seja má idéia comer com ela, e eu poderei ver o Charlie. - Claro, eu aceito. - me desvencilhei de suas mãos passando por ela. - Eu preciso ir agora, tenho coisas a fazer, e acho que você tem que voltar ao trabalho ou algo assim. - Sabe Alice... - ela coçou a nuca olhando para os próprios pés parecendo envergonhada.- Obrigada por vir aqui me procurar, eu acho que nunca teria coragem de fazer isso depois de... - Transformar a minha vida num inferno? - completei deixando meu rancor falar mais alto. - Não se preocupa, podemos recomeçar de novo. - sorri indo de encontro com cada sentimento horrível que nutria por aquela mulher. Sai de sua casa o mais rápido possível antes que tivesse um surto e a estrangulasse, aquela mulher teve a audácia de achar que eu queria fazer as pazes com ela, e talvez fosse bom que ela continuasse pensando assim, eu precisava me aproximar dela para poder estar perto do Charlie. Talvez não fosse tão difícil fingir que gosto dela e manter as coisas tranquilas, era só ignorar toda a raiva que ela me causa cada vez que abre a boca ou me olha com aqueles olhinhos cor de mel brilhantes. Eu esperava muito que não fosse tão difícil quanto estava começando a parecer que era.
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