O coração do monstro.

1124 Words
Helena acordou com a luz suave do sol atravessando as cortinas. Por alguns segundos, não soube onde estava. A cama era grande demais, os lençóis macios demais, e o travesseiro parecia abraçar seu rosto de um jeito que ela jamais havia sentido. Naquele instante, percebeu: não havia mais o colchão duro do orfanato, nem o cheiro mofado do quarto em que cresceu. Aquela cama — o toque, o conforto, o silêncio — era o descanso que ela nunca teve na vida. Ainda sonolenta, esticou o corpo sob o lençol e, por um momento, quis se permitir acreditar que merecia estar ali. Mas a lembrança da noite anterior veio como uma rajada: o vestido rasgado, a chuva, o olhar frio de Dante, a humilhação no altar. Ela se sentou, abraçando os joelhos. O silêncio da mansão era pesado. E em algum lugar, lá embaixo, o som do metal contra a porcelana denunciava que Dante já estava acordado. Na cozinha, Dante observava o café preto fumegar dentro da caneca. Aquela manhã estava errada — ele sabia. Trazer Helena para sua casa tinha sido o pior erro que podia cometer. Ele mesmo era o perigo. Seu amor por ela era algo doentio, reprimido por anos, e agora que ela estava ali, debaixo do mesmo teto, o autocontrole parecia escorrer por entre seus dedos. “Ela não devia estar aqui”, pensou. Mas o pensamento seguinte foi inevitável: “e ainda assim, não consigo mandá-la embora.” Olhou pela janela. O jardim estava florido. Flores brancas, amarelas e rosadas — ele odiava flores, nunca entendeu por que haviam tantas ali. Talvez fosse ironia do destino: o contraste entre a beleza viva e o coração morto que batia dentro dele. O som leve de passos o fez se virar. Helena surgiu na porta da cozinha, ainda com a camisa preta dele, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. A visão foi o suficiente para acender algo nele — um fogo contido, mas feroz. Ela caminhou até a cafeteira, mexendo-se com naturalidade, embora o sentisse observá-la. — Posso mexer nas suas coisas? — perguntou sem olhá-lo. — São suas, Helena. Faça o que quiser. Ela franziu o cenho, confusa, mas ignorou o comentário. Abriu a geladeira e começou a separar ingredientes, preparando um café da manhã simples, mas delicioso. Dante se aproximou devagar, parando do outro lado do balcão. Seu olhar seguia cada movimento dela, o modo como mexia a colher, a forma como mordia o lábio enquanto pensava. Mesmo sob aquele olhar pesado, Helena continuou. Sentia-se pequena, como se ele a cercasse com a mera presença. Mas havia algo estranho: por mais tensa que estivesse, não sentia medo. Era algo diferente, perigoso, inquietante. Serviu a mesa e, por um momento, o ar pareceu menos denso. Os dois comeram em silêncio. Dante observava, mas dessa vez não falou nada. — Por que continua me encarando como se eu fosse uma obra rara? — ela quebrou o silêncio, cansada daquilo. — Isso me faz sentir pequena. Ele pousou o garfo devagar, sem pressa. — E você é pequena, Helena. — disse em tom baixo, quase um sussurro. Ela revirou os olhos. — Não vai me contar o porquê disso tudo? Por que eu tô aqui? — Eu não tenho um porquê. — ele respondeu, sem emoção aparente. — Só quis te trazer. — Sempre foi tão arrogante assim? — E você, sempre foi tão insistente? O silêncio que seguiu foi diferente. Dessa vez, não era incômodo. Era denso, cheio de algo que nenhum dos dois ousou nomear. Depois que terminaram, Helena pegou a louça e colocou tudo na máquina. Precisava se ocupar, qualquer coisa era melhor do que sentir o olhar dele sobre si. Quando terminou, decidiu sair para conhecer o lugar. A propriedade era imensa. Nos fundos, uma piscina refletia o céu cinza. Árvores altas cercavam o terreno, e o vento fazia as folhas dançarem num som quase hipnótico. Ela seguiu o caminho de pedras, tocando o corrimão de ferro antigo. A mansão parecia viva — mas viva de um jeito sombrio, como se respirasse lembranças. “Eu me sinto deslocada aqui”, pensei. Tudo era bonito demais, silencioso demais. Eu era uma peça perdida num quebra-cabeça caro demais pra pertencer. Quanto mais eu andava, mais percebia a loucura disso tudo. Eu estava morando na casa do meu ex-sogro. Isso era completamente insano. E talvez… talvez eu realmente tivesse enlouquecido. Lá de cima, Dante a observava da varanda. A xícara de café já estava fria em sua mão. Ele a seguia com o olhar como um homem que observa o próprio vício, sabendo que deveria se afastar, mas incapaz de fazê-lo. Helena caminhava entre as árvores como se não fizesse ideia do que ele via nela. O vento balançava seus cabelos e Dante sentiu o peito apertar. “Eu devia tê-la deixado lá. Na chuva, sozinha. Eu devia.” Mas ele não conseguiu. A verdade é que Dante Ferraz não era um homem de gestos impulsivos. Ele planejava, calculava, previa. Mas com Helena, tudo fugia ao controle. Ela sempre foi o amor proibido que ele jamais admitiu, nem para si mesmo. Quando ainda era noiva de Lucas, Dante evitava olhá-la por mais de alguns segundos, temendo que alguém notasse o desejo que escondia atrás dos olhos frios. E agora… ela estava ali. Sozinha, frágil, dentro da sua casa. Ao alcance das suas mãos. E isso o aterrorizava. Porque Dante sabia o que o desejo fazia com ele, o tipo de homem que se tornava quando amava. E Helena não merecia ser arrastada para o abismo junto com ele. Mas o coração dele não ouvia a razão. O coração apenas batia, descontrolado, toda vez que ela passava. Helena voltou para dentro alguns minutos depois. Encontrou Dante ainda na varanda, olhando o horizonte. — O jardim é lindo — ela disse, tentando soar natural. — É. — respondeu ele, sem virar o rosto. — Mesmo que eu nunca tenha gostado de flores. Ela sorriu de leve. — Então por que tem tantas? — Porque alguém, um dia, achou que elas fariam essa casa parecer viva. — fez uma pausa. — Mas algumas coisas estão mortas demais pra isso. Helena não soube o que responder. Sentiu a dor escondida nas entrelinhas daquelas palavras. E por um instante, percebeu que Dante não era apenas arrogante — ele era um homem quebrado. O vento soprou entre eles, trazendo o cheiro da chuva que ainda ameaçava cair. Ela o olhou com curiosidade, e ele finalmente virou o rosto. Os olhares se encontraram — longos, intensos, perigosos. E naquele instante, Helena soube: Dante Ferraz podia ser o inferno em forma de homem… Mas havia algo nele que a puxava cada vez mais para o fogo.
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