Helena acordou com a luz suave do sol atravessando as cortinas.
Por alguns segundos, não soube onde estava. A cama era grande demais, os lençóis macios demais, e o travesseiro parecia abraçar seu rosto de um jeito que ela jamais havia sentido.
Naquele instante, percebeu: não havia mais o colchão duro do orfanato, nem o cheiro mofado do quarto em que cresceu.
Aquela cama — o toque, o conforto, o silêncio — era o descanso que ela nunca teve na vida.
Ainda sonolenta, esticou o corpo sob o lençol e, por um momento, quis se permitir acreditar que merecia estar ali. Mas a lembrança da noite anterior veio como uma rajada: o vestido rasgado, a chuva, o olhar frio de Dante, a humilhação no altar.
Ela se sentou, abraçando os joelhos.
O silêncio da mansão era pesado.
E em algum lugar, lá embaixo, o som do metal contra a porcelana denunciava que Dante já estava acordado.
Na cozinha, Dante observava o café preto fumegar dentro da caneca.
Aquela manhã estava errada — ele sabia.
Trazer Helena para sua casa tinha sido o pior erro que podia cometer. Ele mesmo era o perigo. Seu amor por ela era algo doentio, reprimido por anos, e agora que ela estava ali, debaixo do mesmo teto, o autocontrole parecia escorrer por entre seus dedos.
“Ela não devia estar aqui”, pensou.
Mas o pensamento seguinte foi inevitável: “e ainda assim, não consigo mandá-la embora.”
Olhou pela janela. O jardim estava florido. Flores brancas, amarelas e rosadas — ele odiava flores, nunca entendeu por que haviam tantas ali. Talvez fosse ironia do destino: o contraste entre a beleza viva e o coração morto que batia dentro dele.
O som leve de passos o fez se virar.
Helena surgiu na porta da cozinha, ainda com a camisa preta dele, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. A visão foi o suficiente para acender algo nele — um fogo contido, mas feroz.
Ela caminhou até a cafeteira, mexendo-se com naturalidade, embora o sentisse observá-la.
— Posso mexer nas suas coisas? — perguntou sem olhá-lo.
— São suas, Helena. Faça o que quiser.
Ela franziu o cenho, confusa, mas ignorou o comentário.
Abriu a geladeira e começou a separar ingredientes, preparando um café da manhã simples, mas delicioso.
Dante se aproximou devagar, parando do outro lado do balcão. Seu olhar seguia cada movimento dela, o modo como mexia a colher, a forma como mordia o lábio enquanto pensava.
Mesmo sob aquele olhar pesado, Helena continuou.
Sentia-se pequena, como se ele a cercasse com a mera presença.
Mas havia algo estranho: por mais tensa que estivesse, não sentia medo. Era algo diferente, perigoso, inquietante.
Serviu a mesa e, por um momento, o ar pareceu menos denso.
Os dois comeram em silêncio. Dante observava, mas dessa vez não falou nada.
— Por que continua me encarando como se eu fosse uma obra rara? — ela quebrou o silêncio, cansada daquilo. — Isso me faz sentir pequena.
Ele pousou o garfo devagar, sem pressa.
— E você é pequena, Helena. — disse em tom baixo, quase um sussurro.
Ela revirou os olhos. — Não vai me contar o porquê disso tudo? Por que eu tô aqui?
— Eu não tenho um porquê. — ele respondeu, sem emoção aparente. — Só quis te trazer.
— Sempre foi tão arrogante assim?
— E você, sempre foi tão insistente?
O silêncio que seguiu foi diferente.
Dessa vez, não era incômodo. Era denso, cheio de algo que nenhum dos dois ousou nomear.
Depois que terminaram, Helena pegou a louça e colocou tudo na máquina.
Precisava se ocupar, qualquer coisa era melhor do que sentir o olhar dele sobre si. Quando terminou, decidiu sair para conhecer o lugar.
A propriedade era imensa.
Nos fundos, uma piscina refletia o céu cinza. Árvores altas cercavam o terreno, e o vento fazia as folhas dançarem num som quase hipnótico.
Ela seguiu o caminho de pedras, tocando o corrimão de ferro antigo. A mansão parecia viva — mas viva de um jeito sombrio, como se respirasse lembranças.
“Eu me sinto deslocada aqui”, pensei.
Tudo era bonito demais, silencioso demais. Eu era uma peça perdida num quebra-cabeça caro demais pra pertencer.
Quanto mais eu andava, mais percebia a loucura disso tudo.
Eu estava morando na casa do meu ex-sogro. Isso era completamente insano.
E talvez… talvez eu realmente tivesse enlouquecido.
Lá de cima, Dante a observava da varanda.
A xícara de café já estava fria em sua mão.
Ele a seguia com o olhar como um homem que observa o próprio vício, sabendo que deveria se afastar, mas incapaz de fazê-lo.
Helena caminhava entre as árvores como se não fizesse ideia do que ele via nela.
O vento balançava seus cabelos e Dante sentiu o peito apertar.
“Eu devia tê-la deixado lá. Na chuva, sozinha. Eu devia.”
Mas ele não conseguiu.
A verdade é que Dante Ferraz não era um homem de gestos impulsivos.
Ele planejava, calculava, previa.
Mas com Helena, tudo fugia ao controle.
Ela sempre foi o amor proibido que ele jamais admitiu, nem para si mesmo.
Quando ainda era noiva de Lucas, Dante evitava olhá-la por mais de alguns segundos, temendo que alguém notasse o desejo que escondia atrás dos olhos frios.
E agora… ela estava ali. Sozinha, frágil, dentro da sua casa.
Ao alcance das suas mãos.
E isso o aterrorizava.
Porque Dante sabia o que o desejo fazia com ele, o tipo de homem que se tornava quando amava.
E Helena não merecia ser arrastada para o abismo junto com ele.
Mas o coração dele não ouvia a razão.
O coração apenas batia, descontrolado, toda vez que ela passava.
Helena voltou para dentro alguns minutos depois. Encontrou Dante ainda na varanda, olhando o horizonte.
— O jardim é lindo — ela disse, tentando soar natural.
— É. — respondeu ele, sem virar o rosto. — Mesmo que eu nunca tenha gostado de flores.
Ela sorriu de leve. — Então por que tem tantas?
— Porque alguém, um dia, achou que elas fariam essa casa parecer viva. — fez uma pausa. — Mas algumas coisas estão mortas demais pra isso.
Helena não soube o que responder.
Sentiu a dor escondida nas entrelinhas daquelas palavras.
E por um instante, percebeu que Dante não era apenas arrogante — ele era um homem quebrado.
O vento soprou entre eles, trazendo o cheiro da chuva que ainda ameaçava cair.
Ela o olhou com curiosidade, e ele finalmente virou o rosto.
Os olhares se encontraram — longos, intensos, perigosos.
E naquele instante, Helena soube:
Dante Ferraz podia ser o inferno em forma de homem…
Mas havia algo nele que a puxava cada vez mais para o fogo.