Segunda-feira, quando chegou no trabalho, foi avisada por Berenice que as reuniões dos batizados tinham sido marcadas para os dois próximos Domingos as duas horas da tarde.
- Vamos ter que ir, eu, você, Júlio, Milena e Jairo.
- Vocês vão na mesma reunião resolver dois problemas.
- Como assim?
- Em uma reunião só vão ser pais e padrinhos.
- É mesmo. Vamos economizar tempo.
- E depois, tem um período de dois anos que podem batizar quantos filhos e afilhados que quiserem sem ter que fazer o curso de novo.
- Não sabia.
- É assim.
- Então se eu tiver que ter outro filho, a hora é essa.
- A reunião é rápida.
- Eu sei.
E começaram a fazer o serviço. Berenice agora, enquanto Henrique não acordava, ajudava Mirella. Tinha tomado gosto pela arrumação da casa quando ficou sozinha. Tinha contratado uma faxineira, mas não dera certo e logo na primeira, dispensou. Estava acostumada com Mirella, que apesar de amiga, era discreta e não trazia novidades da vizinhança. Se dava com todos, mas não fazia comentários da vida alheia, coisa que tanto Berenice quanto Júlio, não gostavam. Por trabalhar em diversas casas sabia da vida de todo mundo e compartilhava esse conhecimento.
Berenice resolveu cortar o m*l pela raíz, antes que a sua vida corresse de boca em boca. Não tinha nada a esconder, mas os vizinhos não precisavam saber o que comiam e vestiam. Não era aberta a fofocas.
E nisso se dava muito bem com Mirella. Eram iguais.
Na terça-feira, quando chegou em casa, Seu Paulo já estava esperando. Levou a estimativa de gasto e Mirella ficou de tirar do banco no dia seguinte. Seu Paulo perguntou de ela não usava a Internet para fazer isso de casa.
Mirella respondeu:
- Eu nunca fiz isso.
- Mas é muito fácil e seguro. Muito melhor do que você retirar o dinheiro e trazer prá cá.
- Vou pedir a Milena pra me ajudar a fazer.
- Se você quiser eu posso fazer com você.
- Eu agradeço.
Entregou o telefone a ele e rapidamente, ele baixou o app do banco e pediu que ela colocasse a senha. Explicou como fazer. Ela digitou a senha e ele mostrou como fazer a transferência para a conta da construtora. Depois ensinou a ela a colocar o Pix. Mas levava alguns dias para começar a funcionar.
Mirella agradeceu. Ele tinha muita paciência para ensinar e ela entendeu tudo direitinho.
Seu Paulo perguntou:
- Quando vocês vão passar para a outra casa?
- Tem que ser no Sábado. Trabalhamos a semana inteira.
- Meu pessoal é de confiança. Eles podem vir aqui amanhã mesmo e passar as coisas para a outra casa. Não vai precisar nem de caminhão.
- Mas, só temos duas chaves.
Dirce nessa hora deu opinião:
- Dá a tua. Eu sempre chego primeiro. Quando você chegar eu já vou estar aqui.
Seu Paulo lembrou:
- Quando ela chegar, precisa ter é a chave da casa ao lado. Vocês já vão estar provisoriamente morando lá.
Mirella respondeu:
- É mesmo mãe.
E pegou a chave e entregou a ele.
Ele deu as chaves da casa do lado e avisou que podiam ir trabalhar tranquilas. E foi embora.
No dia seguinte, seu pessoal chegava às sete horas. Deliberou que os mesmos que fizeram a mudança da outra vez, fossem lá e mudassem as coisas para a outra casa.
Avisou que a casa ia entrar em obra.
As sete e meia chegaram e ainda encontraram Dirce em casa. Ela tinha feito algumas caixas com as roupas para adiantar.
Deixou tudo nas mãos deles e foi para o trabalho.
Quando chegou, Dona Nora já estava sozinha, tinha voltado ao seu horário antigo, e ela perguntou se Dirce queria ir pra casa acompanhar.
Ela respondeu que não porque iria parecer falta de confiança.
Dona Nora concordou. Mas percebeu que Dirce estava apreensiva e depois do almoço convidou:
- Vamos dar um pulinho lá e ver como ficou? A essa altura já foram embora.
- Vamos.
Dirce pegou Jurandir no colo e foram ver o que tinha sido feito.
Encontraram tudo em ordem. Até a geladeira e o freezer já estava ligado.
Eles tinham tido o cuidado de não deixar a geladeira e o freezer tombar em quanto mudavam. Assim antes de sair, já deixaram ligados.
Ficaram satisfeitas com o que viram e voltaram pra casa.
Mirella chegou a noite e foi para a casa que estaria morando por um tempo. Não conhecia a construção. Era bem maior do que a casa que tinha comprado.Tinha quatro quartos e dois banheiros. E todos os cômodos eram amplos. Gostou da casa, que vendo agora era a mudança que tinha mandado fazer na delas com um banheiro a mais.
O quintal era menor, devido ao tamanho da construção, porém ainda dava para estender roupa e no caso de crianças, tinha bastante espaço para brincadeiras.
Comentou com a mãe:
- Essa casa é praticamente como vai ficar a nossa. E olha que ainda sobrou bastante quintal.
- Notei isso assim que entrei. É muito bem distribuída.
- Tomara que a obra não demore muito.
- E a licença da prefeitura?
- Seu Paulo vai ver com o pessoal dele. Tem conhecimento lá dentro.
- Pelo que ele me disse, só vai aumentar o imposto.
- Vai valer a pena. Merecemos morar com conforto.
- Você raspou o teu dinheiro?
- Não. Não tirei nem a metade.
- Ainda bem que o telefone da casa pega aqui.
- Esses telefones pegam a quilômetros de distância. São por satélite.
- Vou sentir falta é da TV a cabo.
- Posso chamar a companhia e mandar transferir.
- Não tem necessidade. Um pouco mais de um mês e voltamos pra lá. A única coisa que demora, pelo que ele falou é a lage.
- É. A obra fica parada por uma semana pra secar. Mas o resto é rápido. Um pouco mais de um mês e voltamos prá lá. Te deu muito trabalho arrumar tudo?
- Não. Eles deixaram tudo arrumado. A única coisa que tive que arrumar, foram duas caixas com a nossa roupa íntima.
- Como assim?
- Coloquei a roupa de cada uma numa caixa e fechei. Não achei bom deixar nas gavetas, para homens ficarem mexendo.
- Fez bem. É chato mesmo. Vou tomar um banho pra jantar.
- Vou esquentar a comida.
Jantaram, limparam a cozinha e depois foram pra frente da televisão. Quando o sono apareceu foram dormir.
No dia seguinte, quando Dirce chegou no trabalho, Dona Nora perguntou:
- Conseguiu botar tudo no lugar?
- A senhora não viu ontem que eles arrumaram tudo?
- Sempre fica alguma coisa.
- Com eles, não. A única coisa que estava em caixas eram nossas roupas íntimas. Coloquei em duas caixas e fechei. Não achei bom deixar homens mexendo nessas peças. Foi só abrir as caixas e arrumar. Quando a Mirella chegou já estava tudo pronto.
- Coitado do Seu Paulo. Ele não merecia tomar o prejuízo que tomou.
- A senhora ficou sabendo?
- O Sérgio me contou.
- É. Um homem tão bom. Não merecia mesmo.
- As pessoas que fazem m*l aos outros esquecem o dia de amanhã.
- É verdade.
- Vamos no mercado?
- Vamos.
- Vou pegar a bolsa.
- Vamos trazer muita coisa?
- Não. O Jair não quer que eu carregue peso. As compras grandes, quem faz e ele.
- É bom não abusar mesmo.
- Ele vai de quinze em quinze dias com o Jairo, de carro, e compra o grosso. Eu só reponho alguma coisa que acabe antes ou compro alguma coisa que me dê vontade.
- Não é melhor a senhora ficar com o Jurandir e eu vou sozinha?
- Não. Eu quero ir junto. Vamos botar o Jurandir no carrinho.
- A Milena trouxe o carrinho hoje?
- Não. O Jair comprou um pra ficar aqui.
- Essa minha filha! Parece que tem hora que não pensa.
- A Milena é uma ótima menina. Mas trabalha muito. Nem empregada tem.
- Ela devia fazer igual a Berenice e parar de trabalhar.
- Ela gosta do trabalho.
- E lá, todos gostam muito dela.
- Eu sei. Quando eu fiquei internada lá, eu vi isso.
- Vamos logo, senão vai ficar tarde.
- Hoje não tem quase nada pra fazer.
- Mas vamos.
- Vamos.
Pegaram o menino e colocaram no carrinho. Logo estavam a caminho do mercado.
Dona Nora comprou bastante coisa e tiveram que mandar parar um táxi.
Ainda comentou:
- Quando o Jair chegar, vai ter um ataque.
- Deixa que eu arrumo tudo assim que chegar em casa. Não fica pegando peso.
E voltaram pra casa. Dirce pediu que Dona Nora entrasse com o menino e ela retirou as compras do carro. Deixou umas bolsas perto do portão, pelo lado interno e foi carregando aos poucos pra dentro de casa. Depois arrumou tudo no lugar.
Dona Nora pediu:
- Deixa esse pedaço de pernil em cima da pia, que vou fazer hoje.
- Vai fazer todo?
- Vou. Assim já fico com a janta pronta e o que sobrar, eu congelo.
- Sábado vou comprar um pedaço também pra fazer no Domingo, com umas batatas coradas e salada.
- Boa, vou assim também. Mas é melhor comprar hoje, que tá na promoção.
- Eu não trouxe dinheiro pra isso.
- Eu te empresto.
- Aceito. Quando eu sair passo lá.
- Vou pegar o dinheiro logo, pra não esquecer. Cinquenta reais chegam?
- Dá e sobra. Amanhã trago pra senhora.
- Tá bom. Esqueci de comprar limão.
- Quer que eu vá buscar?
- Quero. Aproveita compra logo as tuas coisas. Assim você se adianta .
- É só limão?
- Só.
Deu mais dinheiro a Dirce e foi para a cozinha, adiantar o almoço.
Quando Dirce voltou, temperou o pernil e começou a assar.
Enquanto Dirce ia arrumando a casa.
Na casa de Berenice também estava tudo em paz.
Logo estava na hora de Mirella sair para o curso.
Trabalhar com Berenice era muito bom. Se sentia como se estivesse em sua própria casa. Quando percebia o dia já tinha acabado.
Falaram muito durante o dia a respeito do batizado das crianças.
Berenice pretendia dar uma festa, mas queria combinar com Milena que era a madrinha de Henrique, e ia batizar Jurandir no mesmo dia.
Tinham que resolver em que casa seria a festa.
A casa de Berenice era boa, porém o quintal de Milena era melhor.
Mirella opinou:
- Porque não fazem na casa dos seus pais?
- É verdade. Todo Domingo passamos lá mesmo. Vou ver com a Milena.
- Ainda faltam três semanas pro batizado. Domingo depois da reunião vocês combinam. Tô indo. Quer que traga alguma coisa amanhã?
- Traz pão. Vou te dar o dinheiro e as tuas passagens.
Apanhou a carteira e deu o dinheiro a ela.
- Tchau
- Até amanhã.
Milena foi para o ponto de ônibus, porém este demorou muito e quando apareceu veio muito cheio.
Conseguiu embarcar, mas teve que viajar em pé. Pensou: Ainda bem que é rápido.
Reparou que um rapaz estava olhando pra ela o tempo todo e já estava se sentindo incomodada com isso. Quando desceu do ônibus o rapaz desceu também.
Mirella começou a andar rápido.
Estava com medo do rapaz, apesar de ele não ter jeito de bandido.
Ele quase correu e conseguiu alcançar.
Puxou assunto com ela:
- O ônibus hoje estava cheio, né?
- Bastante, mas também demorou tanto.
- É que o que eu estava, enguiçou.
- Então foi isso? Acabei perdendo a hora do curso. Nem vou hoje.
- Tá fazendo curso de que?
- Habilitação.
- Então vai parar de andar de ônibus?
- Essa é a idéia. Você mora por aqui?
- Não.
- Então, porque desceu aqui?
- Pra te conhecer melhor.
- Porque?
- Porque te achei muito bonita e reparei que não usa aliança.
- Não sou casada e nem noiva.
- E tem namorado?
- Não. Na verdade, nunca tive um.
- Porque? Uma moça tão bonita, deve ter um monte de pretendentes.
- Se tenho algum, não sei. Nunca me disseram.
- Podemos conversar um pouco?
- Já estamos conversando.
- Eu quero dizer, parar em algum lugar, sentar e nos conhecer.
- Só se não demorar muito. Minha mãe fica preocupada quando me atraso.
- Você mora com seus pais?
- Só com minha mãe. Meu pai morreu quando eu era pequena, nem lembro dele.
- De doença?
- Não. Assassinado. Reagiu a um assalto e o ladrão o matou.
- Que horror.
- E você. Mora com seus pais?
- Não. Morreram também quando eu era pequeno de acidente. Cresci num orfanato.
- Pelo menos eu tinha minha mãe e minha irmã mais velha comigo.
- Você trabalha em que?
- Casa de família.
- Você parece uma pessoa instruída.
- E sou. Sou formada. Mas adoro meu trabalho. Sou amiga da patroa. É como estivesse em minha própria casa o dia inteiro.
- Que bom. É muito bom trabalhar no que se gosta.
Chegaram numa lanchonete e escolheram uma mesa.
- É. Eu comecei lá, porque a Berenice, minha patroa tinha acabado de ter um menino e precisava de alguém para ajudar. Ela é cunhada da minha irmã. Como eu não estava fazendo nada, me ofereci para ficar com ela. Mas só aceitaram que eu fosse se eu aceitasse o salário. Como eu fui criada por uma empregada doméstica, minha mãe trabalha para os pais dela, eu aceitei. Já vai fazer um ano que estou lá. O marido dela, queria me arrumar um emprego no hospital que ele trabalha, mas eu não quis. Estou bem na casa deles. Sou tratada como m****o da família.
- Se você gosta de trabalhar lá, não deve sair mesmo.
- E você? Trabalha em quê?
- Num escritório de contabilidade.
Sou técnico. O patrão é o contador e prestamos serviço para diversas empresas.
- Eu também sou técnica de contabilidade, mas me formei por imposição da minha mãe e da minha irmã.
- Que bom. Se a gente namorar, você pode me ajudar em alguma dúvida.
- Você tá falando em namoro e eu nem sei teu nome.
- Me chamo Adriano. E você?
- Mirella, mas sabe? Eu nunca namorei porque não posso deixar minha mãe sozinha. Minha irmã casou e mora perto da gente, mas eu sou muito agarrada com a minha mãe.
- Tem tanto genro que mora com a sogra.
- Se um dia eu me casar, meu marido vai ter que aceitar a minha mãe. Sem isso, eu fico solteira.
- Vamos nos conhecer melhor e ver se vai dar certo. Se a gente combinar, você me leva pra conhecer a tua mãe pra ver se ela vai me aceitar.
- O problema é que eu nem sei namorar.
- Nunca teve um namorado mesmo?
- Não.
- Então eu vou te ensinar. Namorar é passear de mãos dadas, dar abraços, beijos, ir a um cinema...
- Eu tenho vergonha.
- Quantos anos você tem?
- Vou fazer vinte e um.
- Muita menina na tua idade já têm
filhos.
- Eu sei.
- Quer tentar?
- Achei você muito bonito e simpático. Mas estou em dúvida.
- Vamos fazer o seguinte: vou te dar meu telefone e você me passa o teu. Hoje você pensa e amanhã a gente torna a se encontrar e você me dá a resposta. Eu te ligo para marcar. Você trabalha até que horas?
- Até às cinco.
- Eu também. E trabalho a um ponto de ônibus da onde você subiu.
- Trabalhamos bem perto então. Mas você disse que o ônibus tinha enguiçado.
- Ouvi os passageiros comentando isso e queria puxar papo com você. Desculpa.
- Primeira mentira.
- Por favor, eu tinha que conversar com você e não foi uma mentira. O ônibus da frente enguiçou mesmo.
- Mas você não estava nele.
- Está certa. Também sou meio tímido pra conversar e na hora foi o que me veio na cabeça. Peço desculpa. Não vai acontecer de novo.
- Tá desculpado, mas agora eu tenho que ir. Minha mãe está me esperando.
- Mas a gente bem tomou nada.
- Tenho que jantar com a mamãe.
Vou avisar a ela que amanhã vou chegar um pouco mais tarde e que ela não me espere para o jantar. Aí a gente toma alguma coisa.
- Posso te acompanhar?
- Pode.
O rapaz colocou uma nota em cima da mesa e saíram.
Logo estavam em frente a casa de Mirella. Ele lhe deu um beijinho no rosto e disse:
- Até amanhã. Vou te ligar quando tiver saindo.
- Tá bom. Até amanhã.
E entrou.
A mãe perguntou:
- Tudo bem?
- Tudo. Vou tomar meu banho.
- Vou esquentar a comida.
Depois, enquanto jantavam, Mirella contou para a mãe do encontro que teve com Adriano e o pedido de namoro. A mãe respondeu:
- Quem tem que decidir é você. Você gostou do rapaz?
- É muito bonito e educado.
- Ele mora com os pais?
- Não. Ficou órfão pequeno e foi criado num orfanato.
- Coitado.
- Já superou. Estudou, se formou e trabalha em um escritório de contabilidade. É técnico.
- Parece ser uma boa pessoa. Mas quem tem que decidir é você.
- De repente, com mais alguns encontros, eu me decido.
- Se você ficar encontrando com ele todo dia, seu curso vai demorar muito pra acabar.
- Ele sabe que eu estou fazendo curso. Amanhã também vamos nos encontrar, mas depois só finais de semana.
- Vou torcer pra que dê certo. Você merece e parece que ele também.
- E. Se der certo ele vai até gostar de morar com você também. Afinal foi criado sem os pais.
- Eu posso arranjar um lugar pra mim.
- Isso não é negociável. Você vai morar comigo.
- E se ele não quiser?
- Eu não caso com ele.
- E vai jogar a tua felicidade fora por minha causa?
- Se você não estiver junto, eu não tenho como ser feliz.
- Obrigada, minha filha, mas vamos ver o que acontece. Eu não me sentiria bem se você acabasse com um namoro por minha causa.
- É. Estamos nos precipitando. Não sabemos nem se vai dar certo.
Acabaram de jantar e limparam a cozinha. Depois seguiram a rotina até a hora de dormir.
No dia seguinte, quando chegou no trabalho, contou para Berenice.
Ela ficou muito contente. E perguntou:
- Você disse que ele trabalha num escritório de contabilidade aqui perto?
- É. É um escritório grande que presta serviço para diversas empresas.
- Deve ser o mesmo escritório que o Sérgio trabalha.
- O marido da Janice?
- É.
- Será?
- Vou perguntar ao Sérgio se tem algum Adriano lá? Procurar saber o tipo de pessoa que ele é. Afinal, você nunca namorou e não tem experiência. É bom saber alguma coisa dele.
- Mas ele vai contar pro Adriano.
- Não vai não. O Sérgio é reservado e isso é um assunto de família. Ele é meu cunhado, esqueceu?
- Mas eu não sou da família.
- Todos sabem que prá mim e pro Júlio, você é. Fica tranquila que ele não vai saber de nada.
Berenice ligou para o cunhado e fez algumas perguntas, avisando que era pra não falar com o rapaz.
Explicou que ele estava querendo namorar Mirella que nunca teve namorado e ela queria saber do caráter dele, já que Mirella era inexperiente. Ficou ouvindo por um tempo e depois desligou.
Berenice perguntou:
- É um rapaz moreno, alto, mais pra magro de olhos verdes?
- É.
- Trabalha lá sim e é trabalhador, responsável e respeitoso. É muito querido por todos, apesar de ser meio tímido. Não é de muita conversa.
- Ele me disse que é tímido. Tanto que usou uma mentira pra puxar assunto.
- E depois confessou que mentiu?
- E pediu desculpa. Disse que foi a primeira coisa que veio na cabeça dele pra começar um papo.
- Então, realmente, caráter ele tem.
- Vou encontrar com ele e ver no que vai dar.
- Acho que vai dar certo. Os dois caseiros, sem muita experiência. Tem tudo pra dar certo.
- Tomara.
Pegaram no serviço. Sexta-feira era o dia que Mirella mais trabalhava, deixando a casa impecável para o final de semana dos patrões.
Lavou a cozinha, os banheiros e passou pano na casa toda.
Perto das cinco horas, seu telefone tocou. Era Adriano perguntando se podia esperar por ela no ponto de ônibus.
- Pode sim. Daqui a pouco tô saindo.
Já tinha terminado todo o serviço e foi se arrumar para sair.
Se despediu de Berenice, que lhe lembrou da reunião de Domingo e foi ao seu primeiro encontro.
Quando chegou no ponto, Adriano já estava a sua espera. Logo perguntou:
- Então, pensou?
- Sim e estou disposta a te conhecer melhor e ver no que isso vai dar.
Ele feliz, lhe deu um abraço e abraçados ficaram aguardando o ônibus. Quando chegou subiram e sentaram. A viagem levava apenas uns quinze minutos. Adriano explicou:
- Eu sei que você está fazendo curso. Hoje vai faltar pela segunda vez. Vamos na lanchonete, comer e beber alguma coisa enquanto conversamos. Amanhã é Sábado e podemos sair pra passear, mas na semana que vem, vou te esperar no ponto todos os dias pra viajarmos juntos. Mas você vai descer e eu vou seguir viagem. Não vamos deixar que esse namoro atrapalhe os seus planos.
- Amanhã eu faço curso na parte da manhã. Como tenho mais tempo, faço três horas. Mas a tarde estou livre.
- E podemos sair Domingo também.
- Nós próximos Domingos, tenho reunião na igreja na parte da tarde.
Vou ser madrinha do meu sobrinho e este vai ser o primeiro e no outro Domingo o segundo e último. O batizado vai ser no terceiro, de manhã, depois vai ter uma festa que eu ainda não sei aonde vai ser.
- O normal seria na casa da tua irmã.
- Seria, mas a Berenice também vai estar batizando o filho dela. E a madrinha é a Milena, minha irmã. Por isso que eu não sei aonde será a festa.
- Acha que não vai dar pra gente se ver?
- Temos duas semanas pela frente, acho que já vai dar pra ver se vai dar namoro ou não. Se der, você vai no batizado e depois a festa comigo.
- Preferia conhecer a tua mãe numa hora mais calma, para podermos nos conhecer melhor.
- Vamos ver. Ainda tem quinze dias pela frente.
Chegaram no ponto da casa de Milena e desceram do ônibus. Foram caminhando de mãos dadas até a lanchonete. Escolheram uma mesa e sentaram. Adriano perguntou:
- O que você quer comer?
- Não sei quais são as opções.
- Vou ver se tem cardápio.
Levantou e foi até o balcão:
- Vocês tem cardápio?
Entregaram um a ele que levou para a mesa, passando para Mirella. Ela olhou e disse:
- Tem salgadinhos diversos e porções.
- Eu sugiro uma porção, que é feita na hora. Salgadinho a gente não tem como saber se foi feito hoje.
- Batatas fritas ou filé?
- Vamos pedir um de cada. Assim jantamos logo. E beber?
- Um refrigerante.
Tornou a levantar e foi fazer o pedido no balcão, devolvendo o cardápio.
Quando voltou perguntou baixinho:
- Por aqui não tem uma lanchonete melhor, não?
- Abaixo da minha casa tem sorveteria e pizzaria.
- Amanhã vamos numa dessas. Essa lanchonete é meia caída.
- E dá pra ver que a frequência é baixa. Só temos nós aqui.
- Quer ir pra outro lugar?
- Não, você já pediu. Hoje ficamos aqui, amanhã escolhemos outro.
Mas apesar das primeiras impressões foram bem servidos e acabaram gostando do local, que era bastante calmo, favorecendo a conversação do casal que estava se conhecendo.
Conversaram bastante e quando saíram dali, tinha se passado mais de duas horas.
Adriano comentou:
- Não sei porque é tão vazio. A comida é boa e o serviço não é tão r**m.
- Deve estar começando e o pessoal já está acostumado a ir para o outro lado.
- Depois disso, fiquei tentado a continuar vir aqui mesmo.
- Também gostei. É calmo, a gente não tem que ficar gritando para conversar e muito limpinho.
- Enquanto formos bem atendidos vai ser o nosso barzinho. Se mudar, a gente muda também.
- Eu concordo. Não gosto de lugares muito cheios.
- Nem eu.
Já estavam em frente a casa de Mirella. Desta vez ele prestou mais atenção:
- É uma casa enorme. Você mora sozinha com a tua mãe num casarão desses?
- Na verdade, a nossa casa é essa aí ao lado. Mas resolvemos fazer algumas obras e um amigo da família que é o engenheiro responsável pela nossa obra e dono dessa casa, nos convenceu a vir pra cá, por causa da poeira e a parte de trás da casa vai ficar aberta, porque vamos aumentar o número de quartos. Ele achou perigoso para duas mulheres sozinhas.
- Muito legal esse engenheiro. Parece com o pai do meu chefe. Ele é engenheiro e se preocupa com todo mundo.
- Se é do pai do Sérgio que você está falando, é o próprio.
- Você conhece o Sérgio?
- Ele é casado com uma das cunhadas da minha irmã e moram na mesma rua.
- Que mundo pequeno. No final todos se conhecem.
Adriano deu um beijo muito leve em Mirella, porque sabia que era o primeiro beijo dela e não queria assustar. Depois deu boa noite e marcou encontro para as quatro da tarde do dia seguinte. Esperou ela entrar e se foi.
Mirella entrou em casa emocionada. A mãe comentou:
- Muito bonito o rapaz.
- A senhora viu?
- Desculpe filha, mas estava curiosa e fiquei prestando atenção pra ver vocês chegarem. Ele é muito bonito e não parece tão mais velho que você.
- Eu não perguntei a idade dele, mas tenho outras referências mais importantes. E contou pra mãe o que Berenice tinha descoberto e que ele mesmo falará de Sérgio e do pai, o Seu Paulo.
- Então é um rapaz pra casar.
- Devagar mãe. Tivemos nosso primeiro encontro hoje.
- E ele te respeitou?
- Muito, conversamos muito, jantamos e só me deu um beijo na hora de ir embora. Foi leve como uma carícia. Não foi como esses que a gente vê na televisão que parece que um vai engolir o outro.
- Ele sabe que você nunca namorou?
- Sabe.
- Então, ele vai ser delicado com você, com medo de te assustar.
- Foi essa a impressão que eu tive.
Ele foi de uma delicadeza, incrível.
- Você já está falando como uma mulher apaixonada.
- E se eu não tomar cuidado, é isso que vai acontecer.
- Deixa acontecer, filha. Não tem nada melhor do que o amor. E com o que já se sabe dele, não é nenhum aventureiro. O próprio Sérgio que o conhece bem, disse isso.
- É. A Berenice falou que o Sérgio descreveu ele como homem de caráter, honesto, responsável e respeitoso. Disse que na empresa todos gostam muito dele.
- Então. Qual é o problema em se apaixonar?
- Acho que nenhum. Além de que ele já foi avisado que vai levar você no pacote.
- E o que ele respondeu?
- Está louco prá te conhecer. Acho até que gostou, já que foi criado em orfanato.
- Leva mais uma semana conhecendo ele na rua. Depois pode convidar ele pra entrar.
- Quando eu falei que ia apresentar vocês no batizado dos meninos, ele disse que preferia te conhecer num dia mais calmo. Pra vocês terem chance de conversar e se conhecer.
- Nota-se que ele quer um namoro sério.
- Acho que sim. Deixa eu adiantar as coisas que amanhã tenho curso cedo. Faltei dois dias.
Foi colocar roupa na máquina e dar um jeitinho na casa. Limpou os móveis e passou pano em tudo. Só lavou o banheiro. Tinha dois na casa, mas elas só usavam um.
No dia seguinte acordou cedo e recolheu a roupa. Armou a tábua e passou tudo. Guardou a sua e deixou a da mãe pra guardar quando ela acordasse.
Fez o café e a mãe levantou. Tomou o café com ela e foi para o curso. Quando chegou almoçaram e limparam a cozinha. Agora era aguardar a hora de encontrar com Adriano.
Se encontraram e foram para a mesma lanchonete. Depois ele levou ela pra casa e ficaram de se ver no Domingo depois das seis.
O namoro ia dando certo.
Na semana seguinte, ele esperava no ponto e ela descia e ele seguia conforme haviam combinado.
No Sábado ao se encontrarem, foram a lanchonete, mas na hora da despedida Mirella convidou ele para entrar.