Uma boa notícia e uma péssima

543 Words
Era 12 de dezembro. Minha mãe entrou pela porta para ser internada, e eu fiquei do lado de fora esperando me chamarem para subir como acompanhante. Ela tinha passado pela consulta, o médico tinha dito que precisaria ficar no hospital novamente, e eu me preparei para mais uma internação. Já conhecia aquele caminho, aquela espera, aquele cansaço. Sentei na cadeira dura do corredor com o coração apertado, mas ainda com esperança. Enquanto esperávamos, minha mãe conversava comigo. Falava das crianças, de como fazia o cuscuz, das coisas simples da vida. Ela falava como quem queria deixar tudo organizado, como quem não queria sair devendo nenhuma palavra. Foi então que o celular do Luiz tocou. Ele atendeu, e de repente o rosto dele mudou. Mas não foi para tristeza. Foi alegria. Um sorriso grande, emocionado, misturado com lágrimas. — Nasceu — ele disse. — Meu filho nasceu. Eu sorri. Abracei ele. Dentro de um hospital, onde tanta gente sofre, uma vida tinha acabado de chegar. Dei graças a Deus. O filho do Luiz nasceu naquele mesmo dia. No mesmo dia 12 de dezembro. Minha mãe entrou pela porta, e eu fiquei ali, esperando chamarem meu nome para subir. Mas o tempo começou a passar. E algo não estava certo. Percebi um movimento estranho no corredor. Pessoas andando rápido demais. Uma agitação que não combina com espera normal de internação. Meu coração começou a bater forte. Levantei da cadeira sem saber por quê. Era como se algo dentro de mim tivesse entendido antes da minha cabeça. Caminhei em direção à porta. Quando cheguei mais perto, vi a médica. Ela estava tentando reanimar minha mãe. Meu corpo gelou. Vi médicos correndo, vi mãos pressionando o peito dela, ouvi vozes firmes dizendo números, ordens, tentativas. E eu ali. Do lado de fora. Sem poder entrar. Sem poder tocar. Sem poder falar. Comecei a gritar por dentro. — Deus, não… — pensei. — Não agora. Não assim. Tudo aconteceu rápido e lento ao mesmo tempo. Rápido demais para impedir. Lento demais para suportar. Eu ainda esperava que alguém saísse e dissesse que ela ia subir para o quarto, que estava tudo sob controle, que era só um susto. Mas ninguém disse. Depois de alguns minutos — que pareceram uma eternidade — a médica parou. O silêncio tomou conta do lugar. Um silêncio pesado, definitivo. Ela se aproximou de mim. Não precisou de muitas palavras. Minha mãe tinha morrido. Ali. Naquele dia. No dia 12 de dezembro. No mesmo dia em que o filho do Luiz nasceu. Enquanto uma vida começava, outra terminava. Minha mãe tinha quarenta e oito anos. Uma mulher que criou dez filhos, que lavou roupa para fora, que buscou água longe, que orou todos os dias ao meio-dia, que nunca reclamou da vida, mesmo quando a vida foi dura demais com ela. Eu tinha dezoito anos, dois filhos pequenos, e naquele corredor de hospital perdi minha base, minha intercessora, minha segurança. Voltei para casa em choque. Meus filhos dormiam. Olhei para eles por muito tempo. Chorei em silêncio para não acordar ninguém. Naquela noite, senti que o mundo tinha ficado grande demais para mim. Mas mesmo sem entender, mesmo quebrada, algo ficou guardado dentro de mim: a fé da minha mãe não morreu com ela.
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