então começou.

897 Words
Jorge foi até a minha mãe e pediu permissão para namorar comigo. E minha mãe deixou. A partir daquele dia, ele começou a ir lá em casa. Sentava, conversava, me esperava. Eu não queria aquilo, mas também não disse nada. Minha mãe já carregava dores demais para eu acrescentar mais uma. Ela tinha suas próprias lutas, e eu aprendi cedo a engolir as minhas. Namoramos por cerca de seis meses. Só beijos. Mesmo assim, nada em mim queria aquilo. Eu me sentia presa a uma situação que não escolhi, apenas aceitei por cansaço e silêncio. Cheguei a criar coragem para dizer à minha mãe que não queria mais namorar. Mas naquele dia, encontrei ela chorando. Tinha brigado com minha irmã. Minha irmã nunca aceitou o jeito que vivíamos. Sempre reclamava, sempre julgava. Mas quem podia ajudar passou a maior parte da vida nas ruas, bêbado. Olhei minha mãe naquele estado e não consegui falar nada. Engoli mais uma vez. E continuamos namorando. Até o dia em que Jorge disse que eu precisava ir à casa dele buscar o uniforme, porque ele iria trabalhar. Eu fui… inocente, sem malícia, sem entender o peso daquele convite. E foi ali que tudo aconteceu. Perdi minha virgindade com ele. Mas meus sentimentos continuaram os mesmos: não mudaram em nada. Dali em diante, tudo desceu ladeira abaixo. Jorge se tornou outra pessoa. Ciumento, controlador, agressivo nas palavras. Fez minha mãe me tirar da escola. Aquilo me feriu profundamente, mas mais uma vez eu não consegui dizer nada. Doía demais, e eu já tinha aprendido que meu sofrimento não tinha lugar. Pouco tempo depois, descobri que estava grávida. Tinha apenas quatorze anos. Aquela notícia tirou meu chão. Eu não sabia o que pensar, nem como agir. Era uma menina cuidando de outra vida dentro de si. Minha mãe sofreu muitas críticas. Vizinhos, irmãs da igreja, familiares… todos tinham algo a dizer. Mesmo assim, ela fez o que podia: construiu um puxadinho no quintal — um quarto pequeno com banheiro — para eu morar. No começo, Jorge disse que não iria morar ali. Chamava o lugar de “caixa de fósforo”. Ficamos nesse impasse até que ele acabou indo, mas só aparecia para dormir. Chegava tarde, saía cedo. Tinha vergonha. Vergonha de mim, da casa, da situação. Trabalhava em mercado e fazia hora extra de propósito. Não queria ser visto. Ele nunca foi de me dar nada. Comprava comida — para ele. Roupas, sandálias, qualquer coisa para mim não existiam. Ele foi criado de um jeito duro: comprar roupa era bobagem, vaidade. O importante era trabalhar e trazer comida para casa. O padrasto dele o fazia dormir na rua quando não conseguia levar dinheiro. Aquilo o endureceu… e me endureceu também. O tempo passou, e eu tive meu primeiro filho, Daniel. No começo, Jorge até ajudava. Ficava com Daniel. Mas quando o menino tinha cerca de dois anos, engravidei novamente. Minha mãe dizia que quem amamenta não engravida. Acreditávamos nisso. Nesse período, a saúde da minha mãe piorou muito. Ela praticamente morava no hospital. Os rins começaram a falhar. Eu tinha acabado de completar dezessete anos quando nasceu meu segundo filho, Mateus. Às vezes, eu deixava as crianças com a mãe do Jorge para acompanhar minha mãe no hospital. Foram oito meses difíceis. Depois, o coração dela também começou a dar problema. Um dia, ela recebeu alta pela manhã. O médico recomendou repouso. À tarde, meu pai chegou. Eles começaram a conversar. Não sei o que aconteceu, porque fui dar banho no Mateus. Quando voltei, minha mãe estava parada, com o olhar fixo, distante. Chamei a ambulância às pressas. Ela voltou para o hospital e ficou internada novamente. Passou mais um mês. Já era o mês do meu aniversário. Pela graça de Deus, ela recebeu alta outra vez. Fiz dezoito anos com ela em casa. Foi um presente. Ela parecia melhor. Sempre queria ir à igreja, mas m*l conseguia ir ao banheiro — caía, perdia as forças. Tinha apenas quarenta e oito anos, mas parecia muito mais velha. Ainda assim, nunca reclamava. Sempre contava o que Deus havia feito na vida dela, como Deus cuidava dela. E assim, mesmo doente, ela fortalecia a nossa fé. Eu já tinha dois filhos. Comecei a vender lingerie de porta em porta, sandálias, produtos de cabelo. Fazia o que podia para ajudar em casa e cuidar das crianças. Vivendo dividida entre minha mãe e meus filhos, eu seguia. Era dezembro. Comecei a juntar dinheiro para comprar roupas para as crianças. Eu adorava o Natal. Gostava de ver todo mundo junto: meus irmãos, os filhos, a casa cheia. No dia onze de dezembro, minha mãe começou a se sentir m*l. Mas ela tinha consulta no dia seguinte e disse que falaria com o médico. No outro dia, fui com ela ao hospital. Meu irmão Luiz foi junto. A esposa dele também estava lá, grávida, passando m*l. Minha mãe foi atendida com calma. O médico disse que ela precisaria ser internada novamente. Fomos então para a internação. Esperei cerca de duas horas do lado de fora. Ela conversava comigo, falava das crianças, de como fazia o cuscuz, lembrava da vida. Até que a médica chamou. Minha mãe se levantou e entrou pela porta para ser internada. No mesmo instante, o celular do Luiz tocou. E naquele toque, algo dentro de mim pressentiu que nada mais seria como antes…
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