Enquanto eu dobrava os joelhos sem entender o peso que rondava a casa, Daniel já estava sendo observado.
Cada passo.
Cada palavra.
Cada silêncio.
Fulgaz foi o primeiro a mudar o jeito. Passou a aparecer sem ser chamado, a perguntar demais, a ouvir pouco. Não era cuidado. Era vigilância. O olhar dele já não era curioso — era avaliador. Ele obedecia ordens. E aquelas ordens vinham de longe.
Cicatriz estava preso.
Mas preso nunca significou calado.
Mesmo atrás das grades, era ele quem mandava. A cadeia não diminuiu sua influência; apenas mudou o endereço. E Fulgaz obedecia sem questionar, como sempre fez.
Daniel não percebia. Ou talvez percebesse e escolhesse não reagir. Havia nele uma confiança que não combinava com aquele ambiente. Uma coragem limpa. Uma ousadia que não sabia fingir.
Foi então que Fulgaz começou a plantar palavras.
Inventou histórias.
Distorceu gestos.
Transformou silêncio em ameaça.
Disse que Daniel falava demais.
Que observava demais.
Que se aproximava de quem não devia.
Mentiras bem contadas têm pernas longas.
E chegaram até Cicatriz.
Cicatriz acreditou. Confiava totalmente em Fulgaz — e confiança, naquele mundo, pesava mais do que provas. Não houve confronto. Não houve aviso. Não houve chance de explicação.
A decisão foi tomada fria, direta, definitiva.
A ordem saiu:
Daniel precisava morrer.
A ironia era c***l. A ordem foi entregue justamente a Morte. O mesmo homem que havia sido poupado dias antes. O mesmo que agora andava perto demais de Daniel. O mesmo que não gostava de andar com ninguém.
Quando a ordem chegou, criou um ruído invisível. Nada mudou por fora. Tudo mudou por dentro.
Morte não tinha laços. Não criava vínculos. Ele obedecia ordens. E a ordem era clara.
Daniel precisava morrer.
Naquele mesmo dia, sem entender por quê, meu coração apertou.
Eu estava em casa. Ia começar a lavar a louça. Mas algo me travou. Um peso estranho. Um aviso sem palavras. Não soube explicar — só obedeci.
Larguei tudo. Entrei no quarto. Me ajoelhei.
Comecei a orar.
Pedi a Deus que fosse ao encontro dos meus filhos. Do Mateus, que estava na escola. Da Sofia. Fui falando o nome de cada um. Meu coração doía, mas não esmagava.
Quando falei “Daniel”…
Meu coração pareceu se partir por dentro.
Ali eu entendi.
Ele precisava de socorro do céu.
Comecei a orar diferente. Já não era pedido bonito. Era clamor. Não sei quanto tempo fiquei ali. Só parei quando, no meio da oração, o peso saiu do peito.
Terminei confiando. Seja lá o que fosse, Deus já tinha entrado com providência.
Voltei pra pia. Comecei a lavar a louça.
Foi quando ouvi a buzina no portão.
Era Daniel.
Ele entrou rápido. Me abraçou forte. Fazia tempo que não me abraçava assim. Perguntou dos irmãos. Disse que estavam na escola. Jorge estava trabalhando, então ele entrou sem medo.
Deu um beijo na Sofia.
Tudo aquilo me pareceu estranho.
— Você tá bem, Dani? — perguntei.
— Tô — ele respondeu com a boca.
Mas os olhos dele diziam outra coisa.
Havia algo acontecendo. Ele só não queria me contar.
— Me fala… por que você tá assim? Parece preocupado.
— Não é nada, mãe.
Aproveitei que ele estava ali. Chamei ele. Fiz uma oração com ele. Coloquei a mão na cabeça dele. Entreguei ele a Deus mais uma vez.
Antes de sair, eu disse: — Vai com Deus. Que Ele te abençoe, te proteja e te guarde de todo m*l.
Ele me olhou.
Aquele olhar não era de medo.
Era de tristeza.
Parecia despedida.
Ele saiu.
Voltei pra pia. Continuei a lavar a louça. Tentando manter a mente quieta.
De repente, alguém gritou no portão.
— JÁ VOU! — respondi.
A voz vinha nervosa.
Era a voz do meu irmão Luiz.
Meu coração disparou.
— O que será que ele quer? — pensei, enxugando as mãos apressada.
Sem saber que, do lado de fora,
o céu e a terra estavam prestes a colidir.