fulgaz era primo do cicatriz que se dizia ser dono da comunidade, cicatriz ja wstava preso a oito anos então fulgaz ficou no lugar dele de frente na comunidade:fulgaz era arrogante valentão sempre confiante em cicatriz.
Daniel entrou na mira do Fulgaz sem perceber.
Ele já não ficava mais parado nas esquinas, como o Bigo. Não era mais aquele menino que observava de longe, tentando parecer grande. Daniel pulou etapas que, naquele mundo, não podiam ser ignoradas. Passou direto para o lugar mais perigoso: andar com Morte.
E isso chamou atenção.
Fulgaz percebeu rápido. E como tudo ali funcionava em cadeia, avisou Cicatriz. A informação chegou como um alerta:
— O menor tá andando direto com o Morte.
Cicatriz mandou chamar Morte. Questionou. Quis entender.
Morte respondeu pouco, como sempre: — Ele é menor. Bom menino.
Só isso.
Mas aquela resposta não tranquilizou ninguém. Pelo contrário. Agora, Daniel tinha um alvo nas costas.
Morte não andava com qualquer um. Ele escolhia quem ficava perto, quem ia aos lugares com ele. Ninguém sabia onde ele dormia. Não dormia junto com ninguém. Não confiava em ninguém. Vivia só. Sempre só.
E mesmo assim, estava levando Daniel para vigiar enquanto ele dormia.
Aquilo não fazia sentido.
Na comunidade, todo mundo se perguntava:
por que Morte estava fazendo isso?
o que aquele menino tinha que ninguém mais tinha?
Cicatriz sentiu o cheiro da coisa estranha. E quando Cicatriz desconfia, o ar muda. Ele mandou Fulgaz vigiar Daniel. Aquela ordem acendeu um alerta silencioso.
Mas o que exatamente Cicatriz desconfiava?
Foi aí que comecei a perceber coisas que não queria ver.
Fiquei sabendo que Fulgaz não tinha ido à festa do Perigo. Aquilo me intrigou. Depois disso, comecei a notar: ele passava várias vezes na frente da minha casa. Todo dia. Quando não vinha ele, vinha o Bigo.
Uns dias depois, vi alguém na laje da casa ao lado da minha. O coração disparou. Eu tinha quase certeza de que era Fulgaz — mas não podia afirmar.
Até que, no outro dia, quando saí de casa pra levar a Sofia ao médico, vi Fulgaz saindo da casa ao lado da minha.
Ali não restou dúvida.
Ele estava vigiando a minha casa.
Mas por quê?
Se Daniel m*l vinha em casa.
Eu não tinha resposta. Só medo.
Saí cedo. Eram seis da manhã quando levei a Sofia. Quando voltei, já era meio-dia. Eu estava exausta. Desde que Daniel entrou nessa vida, eu m*l conseguia dormir. As noites viraram vigílias.
Na noite anterior, eu tinha terminado de orar na campanha da meia-noite quando Jorge começou uma briga. Do nada. Como sempre. Ele dizia que tudo o que estava acontecendo com Daniel era culpa minha. Brigava, sumia, voltava, brigava de novo.
Desde o dia em que ele bateu no Daniel, tudo mudou. Daniel entrou em casa só para ver a irmã, e Jorge o agrediu de novo, colocou ele pra fora e disse que era um mau exemplo.
Desde aquele dia, Daniel nunca mais voltou.
E Jorge, quando o via na rua, fingia que não via.
Eu vinha chegando em casa com a Sofia no colo. Ela vive doente. Sempre foi assim. O médico tinha descoberto bronquite asmática. Alergia a tantas coisas que perdi a conta. Além das bombinhas, agora tinha remédio pra alergia também.
Eu caminhava pensando em como ia comprar tudo aquilo.
Foi quando ouvi o barulho da moto.
Daniel.
Ele parou e perguntou: — Tá vindo de onde?
A Sofia, na mesma hora, quis ir com ele. Eu deixei. Ele pegou ela no colo com cuidado.
— Tô vindo da consulta da Soso — eu disse.
Ele olhou pra mim: — Ainda é aquele monte de remédio?
— É, sim.
Então ele falou: — Me dá a receita que eu compro.
Eu olhei fundo nos olhos dele. — Você trabalha?
Ele ficou nervoso. — Trabalho.
— Trabalha de quê?
Ele não respondeu.
Respirei fundo e falei: — Você já me viu alguma vez na sua vida mexendo nas coisas dos outros?
— Não, mãe. Eu não sou ladrão.
— Não foi isso que eu perguntei. Você já me viu?
— Não… a senhora sempre trabalhou pra comprar nossas paradas.
Eu segurei o choro. — Então, meu filho, no dia que eu precisar recorrer a isso, eu peço a Deus que me recolha. Porque eu não quero dinheiro onde vidas precisam ser perdidas pra que eu fique bem.
Ele não disse nada.
Deu um beijo na Sofia. Me entregou ela. Subiu na moto e foi embora.
No começo de tudo isso, eu ainda corria atrás dele. Fui até um órgão público que cuida de menores. Contei tudo. Pedi ajuda. Abri meu coração.
A única orientação que recebi foi: — Procura um psicólogo. A gente não pode fazer nada.
E eu voltei pra casa com a sensação mais dura de todas:
meu filho estava no meio de uma guerra,
e eu estava sozinha pra lutar por ele.
Sozinha…
mas ainda de joelhos.