A mão de Deus está sempre agindo.
Mesmo quando ninguém vê.
Mesmo quando tudo parece perdido.
A polícia pegou Daniel na calada da noite.
Não houve sirene.
Não houve explicação.
Só mãos duras, empurrões e o som seco dos golpes dentro da viatura. Cada soco carregava uma intenção clara: Daniel não sairia vivo dali.
Ele apanhava em silêncio. O corpo já cansado de tanta violência, o rosto ardendo, o sangue escorrendo da boca. Foi então que o celular começou a tocar.
Uma ligação.
Depois outra.
E outra.
Era eu.
— Daniel, onde você está? — minha voz tremia do outro lado da linha.
Os policiais atenderam no viva-voz. Forçaram Daniel a falar.
— Tô bem, mãe… só resolvendo umas coisas — disse ele, com a boca sangrando, a voz quase falhando.
Eu não acreditei.
Algo dentro de mim gritava. Eu não sabia que ele estava com a polícia, mas sentia como se ele estivesse me chamando. Não sei explicar. Então liguei de novo. E de novo. Sem dar intervalo.
— Se você não aparecer agora, eu vou à delegacia — eu dizia, firme, ligando sem parar.
Aquilo mudou o clima dentro da viatura.
O plano de m***r Daniel ali mesmo ficou arriscado demais. Alguém podia perguntar. Alguém podia procurar. Alguém podia ver.
Então escolheram algo pior.
Soltaram Daniel em uma área dominada por uma facção rival.
Sozinho.
Espancado.
Desorientado.
Um lugar onde ninguém fazia perguntas antes de puxar o gatilho.
— Agora é com vocês — disse um dos policiais, antes de ir embora.
Ele tinha convicção. Acreditava que ali terminariam o serviço.
Daniel m*l conseguia ficar em pé. O corpo doía, a visão estava turva, mas ele estava consciente. Ele sabia onde estava. Sabia o que aquilo significava.
Em vez de se desesperar, resolveu agir.
Silenciou minhas chamadas no telefone. Respirou fundo. Ligou para um morador da comunidade onde ele vivia. Um homem que não era envolvido com o tráfico, mas fumava maconha. Mesmo assim, era alguém que Daniel já havia ajudado outras vezes.
O homem atendeu.
Daniel explicou onde estava.
O morador ficou apreensivo. Não queria ir. Mas lembrou do bem que Daniel já tinha feito. E decidiu ir ao encontro dele.
Enquanto esperava, Daniel pensava:
como sair dali?
Ele sabia que, por andar com Morte, seu rosto já era conhecido. Correr não daria. Estava machucado demais.
Então teve uma ideia.
Levantou devagar. Ficou encostado no poste. Quem olhasse diria que era só mais um nóia parado ali. E naquela comunidade, um viciado não chamava atenção.
Ele ficou ali.
Acredite ou não, naquela noite tinha churrasco num bar. Teve futebol. Os meninos do movimento estavam concentrados perto do bar, rindo, distraídos.
Foi quando Daniel viu a moto se aproximando.
Chamou atenção antes que passasse direto.
A moto parou.
Ele subiu com dificuldade.
E foram embora.
Daniel chegou em casa.
E eu estava no portão.
— Foi armação, mãe… eu não roubei ninguém — ele disse, quase sem forças.
Perguntei o que tinha acontecido. Ele me contou tudo. Não escondia as coisas. Disse que andava com Morte, que sumia, mas algo estava estranho. Parecia que a ameaça agora era para os dois.
Eu sabia que tinha mais coisa.
Ele só não podia falar. Ou não queria me envolver.
Ele saiu de casa dizendo que precisava ir.
Quando ele saiu, eu orei.
Não pedi mais nada.
Só agradeci.
Depois de um livramento daquele tamanho, eu não ousava pedir mais nada a Deus.
Orei mais uma vez. Fui tomar banho. Já eram três e meia da manhã quando entrei debaixo do chuveiro. Chorei tanto que parecia que eu estava lavando a alma.
Terminei. Fui pro quarto.
Jorge dormia.
Os meninos dormiam.
A Soso se mexia muito.
Peguei ela no colo. Fiquei ninando. Olhando para aquele rostinho pequeno. E me perguntando, em silêncio:
Quando isso vai ter fim?
Sem saber que, enquanto eu segurava minha filha nos braços,
Deus continuava segurando meu filho na vida.