A lei não foi revogada.
Ela apenas mudou de forma.
Para Cicatriz, o fato de Morte não ter matado Daniel não foi hesitação. Foi afronta. Uma quebra direta de hierarquia. E naquele mundo, questionar uma ordem era tão grave quanto desobedecer.
A resposta veio rápida.
Dois homens de outra comunidade foram chamados. Gente de fora. Gente que não conhecia Daniel. Que não tinha história com Morte. Que não devia nada a ninguém ali.
Eles não vieram para proteger.
Vieram para vigiar.
Agora não era só Daniel que estava em risco. Morte também havia entrado na linha de tiro. Qualquer vacilo, qualquer conversa fora de lugar, qualquer gesto m*l interpretado — os dois morreriam.
A presença daqueles homens mudou o clima da comunidade. Onde antes havia tensão, agora havia cálculo. Os passos ficaram medidos. As palavras, escolhidas. Os olhares, longos demais.
Daniel sentia o peso, mesmo sem entender tudo. Ele sabia. Algo dentro dele avisava: a qualquer momento, poderia ser o fim.
Morte percebeu antes.
Ele sabia ler silêncios. Sabia quando uma presença não vinha para somar. Aqueles homens não estavam ali por acaso. Estavam ali para garantir que a próxima ordem fosse cumprida.
O respeito silencioso que existia entre eles agora era observado, analisado, distorcido. E isso só aumentava o perigo.
Enquanto os homens rondavam a comunidade ao lado de Fulgaz, ele parecia inflado. Andava pelas ruas com o peito estufado, como quem tinha certeza de que havia conseguido o que queria. Sabia da confiança que Cicatriz tinha nele — e usava isso ao seu favor.
Era domingo.
Eu me preparei para ir à igreja. Arrumei as crianças com cuidado. Jorge estava de folga, mas saiu cedo e até aquele momento não tinha voltado.
Às vezes me perguntam se isso não me incomodava.
A resposta era não.
Eu preferia que ele fosse e não voltasse. Minha vida já era um corre-corre com as crianças. Quando ele aparecia, além do cansaço vinha o caos. Então era melhor assim.
O culto foi uma bênção.
A pregação foi sobre José. Falava de traição, de injustiça, de silêncio, de espera. As irmãs louvaram um louvor que dizia:
“Canta que Eu cuido da sua casa
Canta que Eu cuido da sua vida
Canta que Eu cuido do seu lar
E protejo os seus…”
Eu sabia. Enquanto eu estava ali, Deus estava cuidando.
Ou pelo menos, eu precisava acreditar nisso.
Naquela noite, Bigo chamou Daniel para buscar uma pizza. Daniel já não andava mais com Bigo. Mas como estava de moto, Bigo pediu só pra ir até a entrada da comunidade. O entregador não queria entrar.
Daniel foi.
Chegando lá, tudo saiu do controle.
Bigo, em vez de pagar, colocou a arma na cara do entregador. Pegou a pizza. Pegou o dinheiro. Mandou o homem sumir.
Daniel não fez nada.
Mas estava ali.
E o azar foi c***l: a pizzaria era de um policial. Amigo de Cicatriz.
O policial ligou direto para Fulgaz.
Não queria o dinheiro.
Queria Daniel.
Disse que aquilo era afronta. Que alguém precisava pagar.
E algo não encaixava.
Bigo não foi citado.
Só Daniel.
Assalto justo na pizzaria de um policial ligado a Cicatriz. Coincidência ou não, Fulgaz não perdeu tempo. Disse ao policial que ele estava autorizado. Que podia pegar Daniel. Que podia dar um fim nele.
E agora, nem o próprio Cicatriz poderia questionar.
A sentença tinha mudado de mãos.
E Daniel, mais uma vez, estava marcado —
não por algo que fez,
mas por estar no lugar errado,
na hora errada,
cercado pelas pessoas erradas.
E enquanto o mundo fechava as portas,
eu seguia de joelhos,
sem saber que a próxima prova
seria ainda mais c***l.