A noite ensina coisa de mais.

563 Words
A casa dormiu, mas eu não. O silêncio da madrugada não trouxe descanso — trouxe lembrança. A cena voltava inteira: a camisa rasgada, o olhar perdido do Daniel, o tom duro do pai. Tudo se repetia dentro de mim como um filme que não aceita ser desligado. Fiquei sentada na beira da cama, ouvindo a respiração dos meus filhos. Daniel dormia de lado, abraçado à bola velha que nunca largava. Até dormindo, ele parecia querer segurar o pouco de alegria que ainda lhe pertencia. A camisa nova estava dobrada na cadeira, rasgada bem no meio. Passei a mão no tecido com cuidado. Não era só pano. Era o que eu consegui comprar com sacrifício. Era o sorriso dele diante do espelho. Era uma alegria interrompida. Naquela noite, algo se ajeitou dentro de mim. Não foi coragem ainda — foi consciência. Comecei a entender que o silêncio também machuca quando vira costume. O dia seguinte nasceu como todos os outros. Café cedo, crianças acordando, a rotina se impondo. Por fora, tudo parecia igual. Por dentro, eu já carregava um peso diferente. Jorge agia como se nada tivesse acontecido. Andava pela casa, falava do trabalho, reclamava do cansaço. Essa normalidade forçada era o que mais feria: a dor de um lado, o esquecimento do outro. Daniel estava diferente. Não fez perguntas. Não comentou o aniversário. Jogava bola sozinho no quintal, chutando forte contra o muro, como se tentasse colocar pra fora algo que não sabia dizer. Cada chute ecoava dentro de mim. Enquanto eu varria a casa, entendi algo que doeu aceitar: meu filho estava aprendendo a se encolher para evitar conflito. No fim da tarde, sentei perto dele no quintal. Ele dominava a bola com o pé, concentrado, sério demais pra idade. — Filho — chamei baixinho. — O que aconteceu ontem não foi certo. Ele parou a bola com a sola do pé e me olhou. — O pai ficou bravo, mãe — respondeu. — Eu devia ter ido dormir mais cedo. Segurei o rosto dele com as mãos. — Não, meu amor. Você não fez nada errado. Não é sua obrigação carregar o humor do seu pai. Ele abaixou os olhos, chutou a bola de leve. — Eu só não queria confusão. E foi ali que eu senti o quanto aquilo já tinha ido longe demais. À noite, Jorge chegou e sentou pra jantar. Comeu em silêncio. Depois disse, como quem não mede o peso das palavras: — Esse menino anda estranho. Respirei fundo. — Ele tá machucado — respondi. — E não é de hoje. Jorge me olhou com impaciência. — Vai transformar tudo em drama agora? — Não — falei firme. — Drama é fingir que nada acontece. O silêncio se estendeu entre nós, pesado, desconfortável. Mas pela primeira vez, eu não me curvei. Não porque era fácil, mas porque já era necessário. Quando deitei, o medo veio. Mas junto dele veio algo novo: decisão. Eu entendi que, se continuasse permitindo, meus filhos aprenderiam que amor machuca, que pai assusta, que silêncio é p******o. E essa não era a herança que eu queria deixar. O aniversário tinha acabado, mas tinha marcado um ponto sem volta. Ali começou, mesmo sem anúncio, uma mudança lenta e dolorosa. Naquela noite, abracei meus filhos com mais força. E prometi em silêncio: ninguém mais ia quebrar a alegria deles sem que isso também me despertasse.
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