Quatro dias no escuro.

810 Words
Daniel ficou quatro dias naquele quartinho Não dava para saber se era dia ou noite. Não haviajanela. Só um buraco no chão para as necessidades. 0 chão frio servia de cama. E no corpo, um ferimento de bala sem o cuidado que precisava. Ele ainda não tinha sido levado para uma unidade de menores infratores. Estava esquecido - ou deixado ali de propósito. Eu estava desesperada. Pedi para vê-lo. Negaram. Perguntei pelo estado de saúde. Silêncio. Cada dia que passava aumentava meu medo, porque eu sabia: Daniel estava ferido, fraco, vulnerável. E ninguém me deixava chegar perto. No quarto dia, algo pior aconteceu,Soube que policiais tentaram tirá-lo dali. Não para cuidar. Não para encaminhar. Para dar um fim. Mas Deus já tinha se adiantado. ○ Ministério Público já tinha feito a ficha de Daniel. Eu mesma fui lá por precaução. Fui porque sentia que algo estava errado. Fui porque mãe sente quando o perigo muda de forma. Os policiais estavam com raiva de Daniel. Fulgaz tinha espalhado a mentira de que Daniel estava com o dinheiro deles - dinheiro que não existia. Mesmo assim, a raiva cresceu. E quando a raiva encontra poder, o risco aumenta. Então veio a acusação. Tráfico de drogas. Tentativa de homicídio contra policiaisAcusações pesadas, lançadas Como sentença Eu entendi ali como funciona: quando querem acabar com alguém, constroem crimes. Não precisam de verdade. Precisam de narrativa. Daniel passou de ferido a acusado. Mas mesmo naquele escuro, mesmo sem tratamento adequado, mesmo sem a presença da mãe, Deus não soltou a mão do meu filho. Quatro dias no escuro não foram suficientes para apagar o que Deus tinha decidido preservar. E eu continuei orando Porque se ainda havia vida, ainda havia esperança.O transporte de menores chegou sem aviso. Eles não dizem nomes, não explicam destinos. Levavam como quem apaga rastros - por medo de resgate, por medo da verdade, por medo de tudo. Com tantas acusações jogadas sobre ele, levaram o Daniel assim mesmo, Ferido. Sem tratamento. Sem que eu pudesse vê-lo. Dias sem notícias. Dias sem ouvir a voz do meu filho.o delegado tinha me dado um número de telefone. Disse para eu ligar, que por ali eu saberia onde ele estava. Eu ligava. Chamava. Chamava de novo. Ninguếm atendia.O silêncio do outro lado da linha era mais c***l do que qualquer resposta Eu já não sabia se ele estava vivo. Não sabia se estava sendo cuidado. Não sabia se estava sangrando em silêncio de novo. Então comecei a fazer o que toda mãe faz quando o sistema fecha portas: fui atrás. Perguntei. Insisti. Bati em portas invisíveis. Cruzei informações. Juntei pedaços. Até que descobri. Daniel estava no órgão de menor infrator. Era sexta-feira. E a visita só seria permitida na terça-feira. ele estava de Castigo... Castigo.. para quem precisar de cuidado não sabia o que encontraria quando finalmente pudesse về-lo. A cabeça não parava. ○ coração batia fora do ritmo. E a pergunta martelava sem descanso: "Senhor... em que estado está o meu filho agora?" E mesmo sem respostas, mesmo sem vê-lo, mesmo com o medo me rasgando por dentro, eu continuei em pé.Porque mãe não desiste. Porque amor atravessa muros. eu tenho fé em Deus, Meu filho estava atrás dos muros. Ferido. Magro. Com o corpo marcado e o cheiro forte dos ferimentos que não receberam cuidado. Sob vigilância. Quando nossos olhos se encontraram, o mundo parou por um segundo - e depois desabou por dentro de mim. Era o Daniel... mas não era mais o mesmo menino que saiu de casa. Ele estava vulnerável. Quebrado por fora. Tentando ser forte por dentro. Eu senti vontade de correr, abraçar, chorar alto, gritar o nome dele. Mas eu fui orientada antes de entrar: "Não chore na frente dos detentos"' "Detento. Era assim que chamavam o meu filho. Eu engoli o choro. Engoli o grito. Engoli a revolta. Porque ali, chorar era sinal de fraqueza. E eu precisava ser forte por ele. Daniel tentou sorrir quando me viu. Um sorriso fraco, daqueles que mais machucam quem ama. Os olhos dele pediam socorro, mas a boca dizia que estava tudo bem. Eu observei cada detalhe: ○ corpo mais fino, a postura curvada, ○ ferimento ainda aberto, ○ cheiro da dor. E mesmo assim, ele tentou me tranquilizar.- Eu falei pouco. Olhei muito. Gravei tudo. Porque ali eu entendi: eles podiam chamar de detento, mas eu continuava vendo meu filho. O menino que eu gerei. Que eu criei. Que agora estava pagando um preço alto demais por erros, mentiras e ódio plantado por outros. Saí daquele encontro com as pernas fracas Com o coração sangrando mais do que o ferimento dele. Mas com uma certeza firme dentro de mim: Enquanto eu respirar, ele não estará sozinho. Os muros eram altos. As regras eram duras. ○ sistema era frio.mas o amor de uma mãe esse nao conhece grades,..
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