Dez anos antes.

613 Words
Eu liguei para Jorge, o pai do Daniel. Disse que estava na delegacia. Disse que tinham prendido nosso filho. Minha voz saía quebrada Ele respondeu que eu aguardasse, que iria até lá. Fiquei do lado de fora. Chorava copiosamente. Chorava como quem já tinha esgotado todas as forças e ainda precisava ficar em pé. Então uma viatura parou em frente à delegacia. Desceram três policiais. Entraram. Um deles ficou do lado de fora, com um copo de café na mão. Ele me viu chorando. Aproximou-se. Sentou ao meu lado. - Olha, senhora... eu não sei o que está acontecendo - disse ele, com a voz calma. Mas sei de uma coisa: seja lá o que aconteceu, não se martirize desse jeito.Se ele estiver errado, não vale a pena todo esse sofrimento. Ajude ele, porque é m corra. Mas não dê a sua vida por causa disso senhora precisa ficar bem. Ele falou olhando nos meus olhos. Eu não conhecia aquele policial. As palavras dele me atravessaram de um jeito estranho. Não eram duras, mas também não eram comuns. Era como se alguém estivesse tentando me preparar para algo que eu ainda não sabia. Eu fiquei ali. Não sei quanto tempo passou. Até que Jorge chegou. O policial se levantou. Apertou a mão de Jorge como quem já se conhece. O que você está fazendo aqui? -- perguntou - Meu filho foi preso aqui hoje - respondeu Jorge. Qual? - O menor baleado.O policial respirou fundo. - Cara...ele é seu filho? Jorge confirmou com a cabeça - Pode deixar disse ele. - Hoje é meu plantão. Eu vou ficar de olho nele pra você. Amanhã é de um colega meu, vou pedir pra ele olhar seu flho pra mim. Fica tranquilo. Ninguém vai fazer nada com ele, não. Eu observei tudo em silêncio. Jorge conhecia aquele policial. Mas de onde? Naquele momento, algo ficou claro para mim: se não houvesse perigo, ninguém precisaria prometer p******o. Se não houvesse intenção escondida, ninguếm diria que ficaria "de olho". Com toda certeza, alguém queria fazer alguma coisa com o meu filho. E Deus, mais uma vez tinha se adiantado.. Havia uma história que eu só fui entender depois. Dez anos antes de tudo aquilo, os salários dos policiais estavam atrasados. Um deles tinha acabado de entrar na corporação. A esposa estava prestes a dar à luz. 0 medo não era só do trabalho -era de não conseguir sustentar a própria casa. Naquele tempo, ele fazia a seguranca do mercado onde Jorge trabalhava. Foi ali que a amizade nasceu. Conversas simples, rotina compartilhada, confiança construída sem intenção de troca. Um dia, o policial comentou sua preocupação: o dinheiro estava contado apenas para o aluguel. Não sobrava nada para fraldas, nem para o básico do bebê que estava chegando. Jorge ouviu.Não fez promessa grande. Não discursou. Chamou os colegas de trabalho. Explicou a situação. E juntos organizaram um chá de bebê para aquele policial. Fraldas, roupas, o necessário para os primeiros dias de vida. Nada além do essencial. ○ bebê nasceu. A vida seguiu. Jorge saiu daquele mercado. 0 tempo passou. Os caminhos se separaram Dez anos depois, sem aviso, sem ligação prévia, sem pedido de ajuda... aquela gentileza voltou. Na forma de um plantão. Na forma de alguém dizendo: ninguém vai fazer nada com ele. Ali eu entendi algo que me marcou profundamente: Deus não trabalha só no agora, Ele planta sementes em tempos que a gente nem imagina que um dia vai precisar colher. ○ que parecia apenas bondade virou p******o. que parecia pequeno virou escudo. Não era coincidência. Era providência.,aqueles policiais tinha intenção de da um fim em Daniel mas Deus conhece a intenção dos corações.
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